01 - É o teu quinto ano no primeiro degrau do Mundial de Motociclismo. Inicialmente pensavas que ias estar tanto tempo sem subir de escalão?

Apenas no ano passado pensei a sério se passava ou não para o Moto2 mas isso ia depender dos resultados e assim aconteceu, acabou por ser o momento agora e não em anos anteriores. Mas não considero que estive demasiado tempo, foi o período necessário para estar preparado e poder passar para uma mota mais potente.

02 - Já começavas a ficar preocupado por não conseguires uma moto que te permitisse lutar por vitórias?

Não preocupado, mas de certa forma surgiu talvez um sentimento de urgência, de querer pelo menos ter uma vitória no campeonato do mundo, estar à frente em todas as corridas e isso apenas pôde vir com a mota. Este ano na KTM tudo se está a tornar um pouco mais fácil, consigo estar na frente, a mota é bastante mais competitiva e por isso é que os resultados estão a surgir.

03 - Quando mudaste para a campeã KTM já sabias que agora é que era?

Tinha tudo para correr bem, obviamente que dependia de muitas coisas, a mota acabou por ser competitiva mas não a 100%, para ser honesto tivemos muitas dificuldades nos testes de pré-temporada, até adaptar a mota ao meu estilo. Depois a mota acabou por melhorar, com um chassi novo a meio da temporada e as coisas estão finalmente a surgir mais facilmente.

04 - Estamos a falar antes de passares por Japão, Austrália e Malásia. Custa estar quase um mês sem vir a casa?

Custa um bocado, fico sempre em hotéis, com muitas saudades de Portugal, da família, são três semanas complicadas. Envolve também muita pressão emocional, são finais do campeonato, os pilotos que estão nas equipas acabam por estar um pouco mais cansados aí tudo se torna um pouco mais difícil mas culmina com o dia da corrida, com vitórias, com pódios e é isso que espero fazer estes três fins-de-semana.

05 - Sábado, dez da manhã e aqui estás tu no autódromo. Abdicaste de uma adolescência normal para aqui chegares, correcto?

Não, não especificamente. Obviamente que abdiquei de algumas coisas ao longo da carreira mas não vejo isso negativamente porque foi o caminho que escolhi, então não abdiquei de nada, porque gosto de estar aqui, por isso não é nenhum esforço.

06 - Porquê o número 44?

Uma vez fui correr a Madrid num campeonato em que sorteavam os números dos convidados e eu fiz um pódio. Tinha o 44 e ficou.

Fotografia - Paulo Costa

07 - O que é que já partiste?

Pouca coisa, um dedo da mão, um braço e a mão também. Não há maneira de treinar as quedas, infelizmente, primeiro porque não podíamos estar a partir assim material à balda, e além disso as quedas doem um bocado. Não há maneira de nos podermos precaver de uma lesão numa queda, apenas posso dizer que as condições de segurança nos circuitos são cada vez melhores e também os fatos e a tecnologia envolvida nisto já está muito avançada, por isso é cada vez mais diminuto o risco de ter uma lesão grave.

08 - E na próxima época, achas que a máquina te vai permitir vencer corridas no Moto2?

Julgo que sim, a equipa é bastante experiente, tem um staff técnico muito forte, já foi campeã do mundo há três anos ou quatro, e portanto dá-me um pouco de confiança saber que vou estar numa equipa que me possa ensinar, dar alguma experiência, e obviamente a mota vai corresponder.

09 - Antes de te tornares no primeiro português a disputar o Mundial ouviste dizer muitas vezes que era impossível?

Não, mas que era difícil sim, muitas vezes. Obviamente nunca se pensa que um português possa lá chegar, na minha altura houve certas dificuldades mas digamos que eu era a única esperança que Portugal tinha em ter alguém no Mundial, portanto obviamente que se reuniram todos os esforços para que pudesse ir e claro que sem os apoios seria quase impossível. Mas tudo se concretizou, felizmente.

10 - Por onde é que isto começou, vem de família?

Sim, o meu pai sempre esteve muito ligado às motas, foi piloto, sempre o acompanhei às concentrações motards, digamos que o bichinho foi surgindo por aí também.

11 - E agora dizes que só vais querer ficar um ano no Moto2 e passar ao MotoGP. E se as coisas correrem mal, sentes-te preparado mentalmente para encaixar a desilusão?

Não é questão de correr mal, simplesmente disse que seria o ideal passar só um ano pela Moto2, obviamente se precisar de lá estar dois ou três ou quatro, como estive no Moto3, não vou ficar desmotivado por causa disso, simplesmente vou continuar a trabalhar para poder finalmente subir de categoria.

12 - Ainda arranjas tempo para estudar medicina dentária. Precisas de uma coisa mais aborrecida para criar um equilíbrio com a adrenalina das corridas?

Não é nada aborrecido. [risos] Tira muito tempo, é um esforço que tenho vindo a fazer ao longo desde últimos dois anos, com ensino superior e alta competição não tem sido fácil mas tem sido uma jornada muito boa porque para além de ser difícil, estudar é algo que me preenche muito e pronto, digamos que não vou ficar apenas dependente daquilo que faço profissionalmente aqui neste mundo, quando ele acabar posso ter outra coisa que forneça alguma garantia.

13 - Há alguma coisa que o teu contrato te impeça de fazer na vida privada, bungee jumping ou coisa do género?

Não, no meu desporto seria difícil colocar outra coisa ao lado para não praticarmos, por isso somos livres. Nos contratos simplesmente existe uma restrição de o atleta não poder contrair nenhuma lesão, com risco de ser substituído por outro.

14 - Existem imensos pilotos espanhóis. Vês alguma relevância na nacionalidade, seja porque se apoiam entre eles, ou pelo contrário nem se podem ver?

Pelo contrário, não se baseiam muito nisso. Digamos que são muito conflituosos entre eles, há ali uma espécie de conquista de território. Sendo o campeonato internacional estamos mais que habituados a lidarmos com alemães, com ingleses, com italianos, por isso acaba por haver boa relação. É mais fácil um português ser amigo de um espanhol do que um espanhol ser amigo de outro espanhol.

15 - E as festas, são só nas noites de domingo?

Sim, sim, quando o resultado é bom.

Fotografia - Paulo Costa

16 - Deixam os miúdos do Moto3 entrar nas dos mais velhos?

Não somos miúdos. Obviamente que, como qualquer evento, uma after-party tem um ambiente controlado. Há mais adolescentes, alguns vão, outros não, depende de cada um, também nem todos têm bons resultados para terem um motivo para festejar.

17 - Cada vez estás a ter mais mediatismo. Qual foi o sítio mais inesperado onde já foste reconhecido?

Numa portagem, ia a pagar e o senhor reconheceu-me e desejou boa viagem. [risos]

18 - E estás disposto a deixar a Margem Sul e ir viver para um sítio como o Mónaco?

Sou um rapaz da terra, não gosto muito de sair, gosto de estar em casa, não sei, seria difícil neste momento, com 20 anos, ter de ir viver para outro país.

19 - Onde é que estavas nas últimas vezes que o Benfica foi campeão?

Não sei, mas estava fora. É-me um pouco indiferente, não ligo muito.

20 - Isto é mesmo o teu sonho, ou trocavas tudo para ser central do Chaves, como um homónimo teu?

Embora goste de futebol e até jogue às vezes com amigos, não sofro muito por nenhum clube nem me imaginaria a ser jogador de futebol.

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