01 - De onde é que vem o teu nome?

Estava num estúdio em Londres, na altura estudava lá e tinha que entregar projectos. As músicas que entregava eram sempre muito groovys, meio maquinadas e tudo isso, então começaram a dar-me uma série de alcunhas, nomes latinos e por aí fora, e esse foi um deles. Por acaso na altura até gostei da brincadeira, eles nem acreditaram que estivesse a levar aquilo a sério e acabei por usar, foi assim que o nome apareceu.

02 - És como a formiga, trabalhas no Verão para poderes ter um Inverno descansado?

O problema é que nem aí descanso, trabalho é com mais intensidade no Verão, mas trabalho à mesma com muita força no Inverno. Só tiro férias uma vez por ano, duas semanas, e é em Janeiro, que é a parte mais parada.

03 - Tens um estúdio em casa. Cumpres horário ou trabalhas quando há inspiração?

Depende, tento cumprir horários porque no estúdio há sempre coisas para fazer, mesmo que não seja a fazer música, há a parte de programação no setup. Durante a semana estou sempre no estúdio a fazer alguma coisa. Depois ao final do dia acabo invariavelmente por fazer música, a verdade é essa.

04 - Já te conhecem no aeroporto?

Muitos já me conhecem perfeitamente e às vezes mesmo no Raio-X, aqueles seguranças que estão ali pedem para tirar fotos, mas não podem. É engraçado. Estou sempre a viajar, no avião entretenho-me com jogos no iPad, ou faço muita leitura de música, fico a fazer apanhados de coisas novas.

05 - Já actuaste em todos os continentes?

Menos na Oceânia, é muito longe, aí não vou. Não tenho mesmo vontade nenhuma de andar num avião trinta horas. Mas tudo o resto já.

06 - Tens imensa atenção à parte visual, desde as fotos ao design do teu site. Percebeste que era importante para venderes melhor a tua arte?

Costuma dizer-se que os olhos também comem e acho que é uma questão até de brio. As pessoas quando vêem que te preocupas com o teu site, com as imagens, com os flyers, tudo isso, percebem que não fazes as coisas à toa, então acabam por dar um pouco mais de valor ao artista.

Fotografo - Bernardo Coelho

07 - Estás a par de tudo o que acontece com a tua música, incluindo as que licencias para compilações à volta do mundo, ou tens quem trate disso?

O manager é que trata disso, não quero perder criatividade com essa parte do negócio, não conseguimos estar sempre bem com tudo e mais alguma coisa, então evito estar envolvido nessa parte, evito mesmo. O mercado de venda também já não é a mesma coisa, pedem muitas vezes licenciamentos para compilações mas não querem pagar adiantamentos, o que é um requisito básico na indústria, entre outras coisas, mas pronto, isso são outros quinhentos.

08 - Ainda vale a pena lançar álbuns?

Sabes que como faço tanta música às vezes lanço álbuns para a escoar. Se calhar já não compensa há muito tempo, mas para o artista acho que não é o compensar ou deixar de compensar, é um marco na tua carreira, é uma afirmação musical que tens quando lanças um álbum, acho que é mais por aí, não é tanto a parte financeira.

09 - Quantas músicas é que lanças por ano, tens isso planeado?

Há sempre um plano de ter um single de X em X tempo, mas depois há coisas que mudam, ou seja, nada é planeado e cumprido a 100%, porque aparecem sempre condicionantes pelo caminho e então vão-se fazendo alterações. Mas músicas planeadas para a frente, isso temos sempre.

10 - Achas que cá as pessoas têm a noção da tua dimensão à volta do mundo?

Não sei, às vezes nem eu tenho noção. Para ser sincero nem penso muito nisso, sabes. Já não sou aquele chavalo maluco, acho que amadureci bastante nos últimos tempos e opto por desligar dessa conjuntura da fama, comecei a dar valor a outras coisas. Nem penso nisso, se têm noção, óptimo, se não têm noção, o problema é delas e pronto. Estou cada vez mais preocupado é com a música.

11 - Em 2011 actuaste no mesmo dia em Lisboa e na Holanda. Já voltou a acontecer?

Por acaso não. Nesse dia tocava bastante cedo na festa na Holanda e isso permitia voltar. Já houve oportunidade de fazer o mesmo em Espanha, mas não fizemos porque era demasiado perto e não justificava. Às vezes não é fácil conjugar estes horários, mesmo que acabes uma festa cedo ela tem mesmo de ser muito cedo, ou é impossível, o voo demora sempre duas horas a chegar aqui, temos de contabilizar todos estes pequenos pormenores e nem sempre é fácil.

12 - Qual é o tempo médio de uma das tuas actuações?

Depende, entre hora e meia e duas horas, mas às vezes pode prolongar-se muito mais. A mais longa foi de oito horas.

13 - Qual foi a coisa mais invulgar que já viste durante as tuas atuações?

Epá, já vi tanta coisa estranha. Há não muito tempo, imagina o que é estares numa festa em que tens cinco mil pessoas à tua frente, literalmente tudo aos saltos e há um individuo exactamente no meio de toda a gente, quieto, a olhar para o boneco. Isto não é possível, aquele gajo está a dormir. É que ele destacava-se, como se nem sequer estivesse ali, mas de onde é que ele saiu? Parecia um filme de terror.

14 - Qual foi a maior multidão para que já actuaste?

No ano passado na Expofacic estavam 40 mil, mas acho que a maior foi no Sambódromo de São Paulo, estava completamente ao barrote, na altura falou-se em cinquenta ou sessenta mil, mais ou menos.

Fotografo - Bernardo Coelho

15 - Nos teus vídeos costumam aparecer futebolistas, actores, é tudo malta amiga?

Claro. Acho que apreciam o meu trabalho, repara uma coisa, a música não agrada só aos miúdos que vão às festas, há muita gente que não sai à noite e gosta de ouvir no carro, em casa, com os amigos. E as pessoas criam amizades por causa da música, dou-me bem com muita gente.

16 - Existem rivalidades na tua área?

Demais até. Uma coisa é rivalidades, outra é o ponto a que chegam as pessoas neste mercado. Como é pequenino não dá para todos, então é o vale tudo, não há regras, não há respeito, é só mentiras e tangas e jogadas, é do pior. Não é saudável, já foi há uns anos, quando se ganhava menos dinheiro, mas agora não. Hoje a música arrasta multidões, naquele tempo as pessoas faziam as coisas por gosto. As pessoas pensam que ser DJ é ser milionário, então não têm respeito nenhum, não há educação, é horrível. A noite perdeu toda a credibilidade, com muita pena minha.

17 - Acaba por ser mais saudável para ti actuar no estrangeiro?

Nos últimos tempos tenho actuado mais em Portugal, até porque estou um bocado cansado das viagens, maçam muito, já faço isto há muitos anos. Mas infelizmente a noite em Portugal está muito difícil, desde bares que supostamente deveriam fechar à meia-noite e agora também já fecham às seis da manhã, as discotecas depois não conseguem funcionar como deve de ser, isto está uma salganhada, e depois na mesma rua tens 100 discotecas, na rua ao lado tens 200 bares, não é possível.

18 - És da facção que critica os DJs que só carregam no Play?

Não, isso é uma estupidez. Essa reclamação é ridícula, sou do tempo do vinil e hoje as pessoas falam do vinil como se fosse a última Coca-Cola do deserto. Nós, no tempo que tocávamos no vinil não víamos a hora dele acabar porque aquilo era um martírio. Matava completamente a indústria, era caríssimo manter uma empresa através de vinil, o transporte era horrível... Quando apareceu a época dos CDs a malta agradeceu, andar com uma pen e meter lá cinco mil músicas, agradecemos. O que faz uma festa e o artista é o poder musical que ele transmite às pessoas, como o faz é irrelevante, para mim é indiferente se toca com o vinil, com uma pen, com um laptop ou só com as mãos, para mim é igual. O Steve Aoki atira bolos, isso não concordo, acho um circo, a música está a tocar sozinha e ele está ali a atirar bolos às pessoas, isso para mim não é nada, é o cúmulo do exagero. Não acho isso correcto nem bonito, sou um tipo que gosta de sair à noite bem vestido, bom sapatinho, cheirosinho e levo com um bolo na cara, para mim isso não é festa, é estragar a noite, agora como o artista toca isso é irrelevante. Dou-te o meu computador e não tenho dúvidas que tu jamais vais fazer um show como o que eu vou fazer, com o mesmo computador, com as mesmas músicas. As pessoas têm de reclamar sempre de alguma coisa, agora andam em cima disso.

19 - Também te enganas?

Tantas vezes, todos os fins-de-semana. Não lhes chamaria erros, porque ao contrário do que muitas pessoas pensam, aquilo não está ali sozinho, estou ali a criar muitas sensações no momento e sempre a pensar as próximas cinco músicas. Faço um esforço mental brutal para conseguir conciliá-las, e às vezes engano-me e ponho a música que não era, ou carrego numa coisa errada e a música parou, não é assim tão linear como chegar, pôr a tocar e já está.

20 - E o futuro está garantido, vão aparecendo novos nomes com valor?

Sim, a música não pára, e ainda bem, há aí novos valores, estão sempre a aparecer, acho muito bem, desde que não apareça mais ninguém a mandar bolos, isso é que é demais.

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