1 - Foste o primeiro a praticar BASE Jumping em Portugal, mas aos 20 já cumprias serviço militar nas tropas pára-quedistas. Como era a vida em terra antes disto?

Nunca me fizeram essa pergunta. Como é que era a vida em terra? Sei lá, normal, diria eu, mas sempre muito com a cabeça no ar. Desde miúdo que me recordo de ficar a olhar para o espaço, sempre me senti fascinado. Em miúdo queria ser astronauta. Portanto a vida em terra, era em terra mas com a cabeça no ar, digamos assim. O serviço militar na altura era obrigatório, se não fosse certamente não teria ido, mas acabou por ser a oportunidade de poder ir lá para cima. Depois fui três vezes campeão nacional de pára-quedismo e já era patrocinado pela Red Bull. Não é que seja insatisfeito, mas gosto de me sentir em constante crescimento, e naquela altura já tinha sido campeão três vezes, tinha representado Portugal em uma série de competições mundiais e de repente dei por mim à procura de, “E agora, o que vou fazer a seguir?”. Numa conversa, o Director de Marketing da Red Bull na altura mostrou-me um salto de um cromo do BASE jumping e eu disse, “Uau, acho que sim, é isto mesmo”. Falei com o tipo que fez o salto, ele deu-me o contacto de quem tinha sido o instrutor dele, liguei-lhe, fiz as malas e fui até à Alemanha. Depois fiz o meu primeiro salto, nos Alpes italianos.

2 - Chega a ser um vício não parar em terra?

Acaba por quase ser um vício, sim. Não sei se é, depende de como vivemos as coisas. Se bem que hoje sinto-me bastante mais tranquilo do que quando era um bocado mais novo. Continuo com alguma inquietude no sentido de gostar de crescer, de fazer coisas diferentes, ir mais além. Isto sou eu.

3 - Paralelamente, especializaste-te em psicoterapia em comportamentos aditivos. O que é que te estimulou a saltar para esta área?

Houve uma altura da minha vida em que senti necessidade de olhar para mim, de mergulhar, e fiz um trabalho intenso em mim próprio de auto-conhecimento, trabalho esse que continua até aos dias de hoje e acho que vai durar até que deixe aqui a 3D, acho que é um trabalho para o resto da vida. Apeteceu-me de alguma forma contribuir e ajudar pessoas a poderem sair de espaços menos confortáveis da sua existência.
A cena dos comportamentos aditivos foi uma coisa que surgiu na altura e eu achei que fazia sentido e fiz formação nessa área. Gostei imenso. Hoje já não estou tão activo nessa área porque, entretanto, o pára-quedismo cresceu muito, não só na minha carreira como atleta, mas também como empresário. Acabei por formar uma escola, posteriormente um centro de pára-quedismo e as coisas ganharam uma proporção grande. Comprei pára-quedas, dois no princípio, depois mais não sei quantos, depois aviões… Não foi propriamente planeado, mas foi um percurso natural para aquilo que era uma paixão na altura. Dantes havia um bocado a ideia de que era preciso ter uma condição física espectacular para se poder fazer pára-quedismo. Acho que isso estava muito associado ao conceito de pára-quedismo militar, o pára-quedismo desportivo é uma coisa que qualquer pessoa pode fazer. Óbvio que ter uma boa condição física ajuda, mas não só no pára-quedismo como em tudo aquilo que possas fazer. Em relação ao BASE jumping, eu sinceramente não facilito a entrada de ninguém, porque são campeonatos completamente diferentes. É uma actividade realmente perigosa, é preciso ter cuidados extremos e um rigor enorme, e mesmo assim as coisas acontecem. Se for alguém pouco dado à cautela, que seja tipo “Yahoo”, eu pessoalmente não dou cursos a pessoas com esse perfil.

4 - O mais arriscado são as condições do local ou a altitude?

É um conjunto de circunstâncias. A altitude obviamente que é um dos factores, as condições envolventes também, a proximidade de objectos, o vento, há um conjunto de situações que favorecem ou não.

5 - Há uma altura mínima e máxima para se fazer um salto?

Máxima é até te faltar o ar. [risos] Qualquer corpo em queda livre chega a um ponto que se chama velocidade terminal, a partir daí já não acelera mais. No pára-quedismo é o que acontece, tens ali um período de aceleração inicial e depois de atingires a velocidade terminal, ela só pode ser aumentada se alterares a tua posição no ar. Imagina que vens naquela posição tradicional de barriga para baixo, tens um determinado atrito; se te puseres em pé ou de cabeça para baixo, o atrito é menor, portanto a velocidade terminal aumenta. Mas é tudo o que podes conseguir fazer para variar a tua velocidade. De resto, a partir do momento em que atinges a velocidade terminal, acabou.
O mínimo que saltei foram 50 metros, mas já houve quem saltasse de menos. A partir daí os riscos aumentam exponencialmente, porque o tempo para que o pára-quedas abra e tu possas reagir e preparar a tua aterragem fica reduzido a quase zero.

6 - Qual foi a distância mais curta do chão a que abriste o pára-quedas?

Não consigo precisar. Já houve saltos em que arrisquei, talvez demais sinceramente, e abri mesmo muito perto, mas não te consigo dizer exactamente. Depois também há o piloto assistido, como no caso da Torre da Galp. Pode ser alguém que te assiste na abertura do pára-quedas ou aquilo pode ser ligado ao local onde nós saltamos, através de um cordão próprio para o efeito, que tem resistência suficiente para fazer a extracção do pára-quedas, mas não demasiada resistência, de maneira a que um gajo não fique ali pendurado, aquilo depois parte. Neste caso não seria necessário, a altitude não obrigava a isso. No entanto, como a ideia era ir aterrar um bocadinho mais longe e havia ali uma série de obstáculos na proximidade, a minha intenção foi abrir o mais alto possível para levar a asa para onde pretendia. Daí ter utilizado o sistema de piloto assistido.

7 - Com esse planeamento conseguem-se evitar os riscos ao máximo?

Não foi um salto fácil, devo confessar. Aquilo tem imensos obstáculos ali à volta. A torre também não é o sítio mais fácil, a estrutura em si não é favorável em termos de ventos e envolvência. Foi um salto com algum grau de risco, ainda para mais porque estava um bocado de vento. Na verdade, acho até que deveria ter saltado em condições um bocadinho melhores em termos de vento. Mas pronto, correu tudo bem. Foi um salto arriscado. E cheguei a ponderar aterrar no carro, mas havia tantas questões que acrescentar mais essa, era demasiado.
O carro de que estamos a falar, o BMW i8, tem um espaço altamente confinado, o pára-brisas é muito inclinado, tens ali um espaço super pequeno, por isso era mesmo enfiar a linha no buraco da agulha. A probabilidade de um tipo bater com o joelho ou com qualquer coisa no carro era elevada e achei que não valia a pena o risco.

8 - Um BASE jumper faleceu recentemente ao saltar de um penhasco na Nazaré. Como é que se gere a imagem de um tipo de modalidade tão perigoso, ainda para mais quando se tem alunos nas mãos?

Há aqui duas coisas, uma é que é uma actividade de risco e as pessoas que entram nisto têm de ter essa consciência, existem riscos associados a esta actividade. O que não é mau, essa consciência é boa. Ajuda-nos a estar um bocadinho mais precavidos e ter cuidados acrescidos, ser rigorosos com os preparativos, com as decisões que se tomam. Para além disto, todos os dias morre gente a fazer N coisas, há milhares de pessoas a morrerem diariamente de automóvel e nós continuamos a meter-nos dentro de um carro, na verdade a morte faz parte da vida. Não é que a gente pense, “Que se lixe, fazemos o que se quer”, não é essa a ideia, mas faz parte. Das duas uma, ou assumimos isso com alguma naturalidade ou se vais deixar-te assustar por tudo aquilo pelo que as pessoas morrem… Se vais por aí acabas por não fazer nada. Qualquer coisa que a gente faça, até a sair de casa a malta morre.

9 - E o vídeo está disponível no YouTube, uma plataforma que nem existia quando começaste, no ano 2000. Isto de o bom e o mau ficar imortalizado nunca te incomodou?

Vou confessar uma coisa, pouco vejo de notícias. Acho que as notícias se focam demasiado nos acidentes e nas desgraças, há tanta coisa boa a acontecer no mundo e pouco se fala sobre isso. Eu no princípio até me revoltava um bocadinho, porque fui o primeiro BASE jumper português, fiz saltos espetaculares, coisas giras de se verem e era uma dificuldade para passarem fosse o que fosse, e no entanto se eu me esmigalhasse lá em baixo, tenho a certeza que passava. Agora as pessoas já me conhecem e mesmo assim não é fácil. Incomoda-me um bocadinho essa questão, já não me incomoda tanto porque aprendi a aceitar as coisas e a assumir que são assim, mas em relação àquilo que aconteceu, aconteceu. Lamento obviamente, não é uma coisa que seja agradável, mas não sei muito mais que possa dizer em relação a isso.

10 - O teu filho também faz BASE jumping e aí já se trata de uma questão em que o controlo não está nas tuas mãos. Isso assusta-te?

Não me preocupa, sinceramente. Até porque se eu visse nele uma atitude algo inconsciente, mas não, muito pelo contrário. O meu filho tem uma atitude até talvez mais conservadora do que eu próprio. É um pára-quedista extremamente seguro, ele é instrutor, já tem mais saltos do que eu, confio nele completamente. Tanto que confiei a minha vida neste salto, porque quem agarra ali aquilo, basicamente tem a tua vida nas mãos. Sei que sou o pai, sou suspeito ao falar sobre isso, mas ele é mesmo uma pessoa especial e é muito seguro como pára-quedista e como BASE jumper.

Fotografia - Bernardo Coelho

11 - Já voaste de todos os continentes?

Não voei na América do Sul. Curiosamente, tenho um projecto para lá que me vai levar até à Amazónia se eu o conseguir viabilizar, e acho que vou conseguir. E em África. Em África estive para saltar, mas depois não saltei também. De resto, já saltei em todo lado.

12 - É muito complicado conseguires autorização para um salto?

Depende dos saltos. Há saltos que não carecem de autorização, neste caso foi necessário, havia ali uma série de envolvências. Não é que não se pudesse fazer aquilo off the record, mas incluía invasão de propriedade alheia e pronto, optou-se por não ir por aí e pedimos autorizações, que foram conseguidas. Tanto que o salto teve o apoio da Junta de Freguesia do Parque das Nações e por inerência também da Câmara Municipal de Lisboa. Acabámos por conseguir as autorizações com alguma facilidade.

13 - Um salto envolve um investimento muito grande?

Sim, às vezes o que custa mais é a logística toda para se realizar o salto. Sobretudo quando se quer captar imagens, ter boas fotos e boas imagens de vídeo, há toda uma equipa que é necessária reunir e que tem um custo associado.

14 - Era possível viveres só dos saltos, ou os patrocínios servem essencialmente para cobrir as despesas e poderes ir continuando a saltar?

É basicamente isso. Depende dos momentos. Houve momentos em que até consegui alguns trocos a mais, houve outros em que não chegou, mas basicamente tem sido para custear a actividade. Numa situação ou noutra consegui alguns euros a mais mas quando estou a fazer isto, não estou a fazer outras coisas e as contas continuam a cair ao fim do mês. Se vivesse exclusivamente disto teria que ir buscar dinheiro para pagar a conta do supermercado e da electricidade, felizmente hoje em dia já tenho outros rendimentos.

15 - O salto HALO que aparece no último Missão Impossível, também já fizeste?

Já fiz sim. Basicamente a grande diferença para o que eu faço é o tempo em queda livre, tens muito mais tempo. É giro ter aquele aparato das máscaras e daquela coisada toda, tem alguma piada. A parte final é igual, tirando o aspecto, porque vens carregado com botijas de oxigénio e máscaras. Fiz na Tailândia e cá em Portugal também, num antigo avião que nós temos, que nos levava um bocadinho mais alto, e com os equipamentos que adquirimos para a nossa escola, precisamente para saltos com oxigénio. Não é um salto que se faça habitualmente, mesmo a nível militar, porque requer uma série de logística adicional.

16 - Tens algum ritual de preparação antes de cada salto?

Quando estou lá em cima gosto imenso de parar um bocadinho e contemplar. Tens normalmente vistas fantásticas e sabes que os saltos são quase uma espécie de meditação, é muito giro. Normalmente, eu sinto isto e acredito que não sou o único, é muito difícil viveres realmente o momento presente, neste momento em que tu estás. Normalmente tens toda uma bagagem que vem do passado, memórias e que está sempre no presente ou estás sempre no passado, como queiras ver, e também estás sempre a pensar no que é que vais fazer a seguir, nos planos que tens. Portanto, estar completamente no presente é um processo de meditação que não é fácil de se conseguir e o salto é uma cena brutal. É de tal forma intenso, emocionalmente falando, requer tanto da tua atenção, dos teus reflexos, que te remete completamente para aquele momento. É o aqui e agora, completamente. Eu curto isso, curto experimentar essa meditação, digamos assim. Quando estou lá em cima, momentos antes de saltar, faço essa contemplação e ao mesmo tempo procuro fazer uma revisão mental de todos os preparativos que fiz para tentar validar que está tudo OK e que posso saltar, porque está tudo bem preparado.

17 - Há algum salto em especial que ainda queres fazer?

Há aquele de que falei há bocado, na Amazónia. Acredito que o vou conseguir fazer, é um salto brutal, ando para o fazer já há uns anos. Tem esbarrado no orçamento enorme que lhe está associado. Existem algumas pessoas e organizações que me podem ajudar a concretizá-lo. Eu gosto de aventuras, de uma forma geral, mas gosto também que as coisas tenham um significado mais elevado, digamos assim. Este salto da Torre da Galp, concretamente, foi um salto que me agradou particularmente fazer porque para além da aventura e daquilo tudo, tinha uma mensagem gira associada, era um salto para uma energia mais sustentável, a energia eléctrica. Tinham um meaning adicional que acrescentou valor ao salto. Este salto da Amazónia tem uma história, para além de ser um ambiente absolutamente fantástico, no meio do céu da Amazónia, que só por si como viagem já é “Uau”. Depois a ideia é fazer o salto numa catarata e conta a lenda que um chefe índio se atirou dali com a sua canoa para trazer a paz ao povo que liderava. É um bocadinho mais elaborada a história, mas assim sucintamente é isto e a ideia é fazer o salto num sítio espectacular, despertar consciências para a necessidade de realmente preservarmos aquele sítio fantástico que temos e que todos sabemos que aquilo está a ser destruído a uma velocidade gigantesca. É um despertar de consciências para isso e ir buscar a lenda que existe do tal chefe índio que se atirou dali para trazer paz ao seu povo, tipo uma mensagem de paz para o mundo.

18 - Em 90% das bucket lists, está o desejo de fazer um salto brutal. O que é que está na tua?

Este salto na Amazónia está garantidamente na minha bucket list. Não sei se depois de o fazer vou querer fazer outro ou não, provavelmente sim, mas este é um salto espectacular, o sítio é espectacular. A mensagem é fantástica e eu gostava mesmo, mesmo muito de conseguir concretizar este projecto. Para além disto, não sei, a minha faceta de psicoterapia e de desenvolvimento pessoal continua muito presente em mim. Acho que nós não andamos aqui para fazer saltos de pára-quedas, nem para fazer jornalismo, ou para fazer seja lá o que for o que fazemos no nosso dia-a-dia, nas nossas profissões. Como seres humanos, há um trabalho a fazer. De crescimento, de auto-conhecimento, de ir mais além e os saltos encaixaram muito bem nesta minha vontade de ir mais além precisamente por isso. O lema da nossa escola de páraquedismo, que é a Queda Livre, é “O céu não é o limite, é o ponto de partida”. Toda a gente dizia que o céu é o limite, como quem diz, é muito acima. E eu acho que não. Para além do limite do céu acho que há muito mais.

19 - Os limites não fazem parte do teu universo?

Fazem até serem, não é quebrados, eu não acredito em quebrar limites, acredito em empurrar os limites. Porque se tu quebras os limites corres o risco de a coisa não correr bem, nomeadamente na questão dos saltos. Se ultrapassas aquilo que são os limites, imagina, saltas tão baixo que o pára-quedas não tem tempo para abrir, já foste. Há limites que devem ser respeitados. Acho é que podemos empurrar os limites, através de uma preparação, de um treino, de equipamentos adicionais que nos permitem ir mais além, portanto acredito que os limites são para ser empurrados e ultrapassados nesse sentido. Acho que nós, como seres humanos, vivemos numa altura fantástica, e cada vez mais as pessoas estão despertas para aquilo que se passa dentro delas e para a mente, para o campo quântico, agora fala-se disto e interesso-me muito, a cura quântica e a física quântica. Acho que há imensas coisas por descobrir nessa área e isso está na minha bucket list, acho que é mais do que uma bucket list, isso está nas minhas prioridades, fazer esse trabalho em mim e se calhar até mesmo partilhar. Daí a escola de pára-quedismo, que surgiu exactamente de uma vontade enorme de partilhar qualquer coisa que me dava imenso gozo e que eu achava que era fantástico. Isto não é excepção. Gostava de fazer aqui algumas descobertas nesta área e de poder de alguma forma partilhá-las com o resto da malta.

20 - Quando estás lá em cima não imaginas a idade a ganhar peso algum dia?

A idade vai ganhar peso, garantidamente. Não sei, não me deixo limitar por isso. Para falar a verdade nem penso muito na idade. Eu quando penso que já tenho 58 anos, eu assim, “Fónix, eu já fiz 58 anos?”. Não me sinto de todo dessa maneira. Embora eu esteja numa boa condição física, mas obviamente já não é a mesma coisa que era quando tinha 20 ou 30 anos. Provavelmente isto vai-me trazer algumas limitações, embora eu não fique aqui “ai, ai, ai que não me consigo mexer”. Eu não me vejo parado. Vejo-me sempre a mexer.

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