1 - Fecharam as gravações do disco há três meses e meio. Como é que se vive este período até ele chegar a toda a gente?
HÉLIO MORAIS
Com ansiedade. Aos poucos os discos foram chegando, e cada uma dessas peças acaba por ser mais um tijolo da casa que vamos construindo e eu acho que culmina no Lux.
PEDRO GERALDES Quando chega às pessoas sentimos mesmo como uma casa aberta e protegida, para poder receber quem quiser vir. Acho que há muita expectativa sempre. O processo é muito intenso na composição e depois na gravação. E a vontade é muita de que as pessoas oiçam e saber como é recebido.
CLÁUDIA GUERREIRO O disco para nós, pelo menos para mim, é como se já tivesse saído assim que acabámos de o misturar e masterizar. Aquilo para mim foi o dia de lançamento do disco. Mas tens que esperar não sei quantos meses até realmente sair e as pessoas ouvirem, e isso às vezes é um bocadinho desesperante.

2 - Porquê irem vocês todos para a Catalunha, em vez de trazerem o produtor para trabalhar cá?
ANDRÉ HENRIQUES
A razão de termos ido para a Catalunha foi pela escolha do produtor, o Santi Garcia. Assim que começámos a fazer algumas pré-produções ainda aqui em Portugal, começámos a perceber que o disco era muito a cara dele e que era a pessoa ideal para traduzir a nossa visão. Se estivesse na China, se calhar não iríamos ter com ele. Mas a grande diferença deste disco, e indo à boleia da questão, é o processo de composição. Nós, desta vez, quisemos mesmo sair das nossas rotinas de Lisboa; porque, entretanto, há pais e mães dentro da banda, com outras responsabilidades, e tornava-se cada vez mais difícil dedicar dias inteiros à composição. E então aí, deliberadamente, começámos por dois retiros, um em Amares e depois outro na Arrábida, e aí fizemos o esqueleto daquilo que é o disco. O Sirumba, o disco anterior, tínhamos gravado aqui no HAUS. Mas este último decidimos que não, pelo Santi e porque percebemos que resulta esta forma de trabalhar.

3 - Já levam ideias definidas do caminho que vão explorar ou nasce tudo em sessões?
PEDRO
As residências servem para trabalhar de uma forma mais intensa, estamos dias seguidos em que só pensamos naquilo. Não nos limitamos a chegar lá e ter a folha em branco, e começar a desenhar ou a escrever. O nosso trabalho também passa muito por ideias que individualmente cada um de nós vai tendo. Mesmo no início das músicas, normalmente passa por um riff, por um beat ou por alguma coisa que achamos que tem potencial, e depois então trabalhamos juntos. Nós aqui temos os ensaios que são dois, três por semana, mas quando se está muito tempo seguido a tocar, há uma diferença muito grande.
HÉLIO Essencialmente, não deixas cair tanto as ideias. Porque quando estamos neste registo contínuo, tudo é gravado, então acabas por explorar mais todas as ideias que tens.
CLÁUDIA E quando estás no ensaio e já não sabes o que fazer, aqui optas só por te ir embora; e lá fora não, porque temos mesmo que aproveitar o tempo e voltar a pegar nas ideias.
HÉLIO E falas disso ao jantar, ao pequeno-almoço…
CLÁUDIA Podemos ser mais OCD com as coisas.

4 - E quando uma ideia criada por um elemento é recebida pelos outros três, a versão final que ouvimos vem com uma roupagem nascida da fusão de todos?
HÉLIO
Por exemplo, o Se me Agiganto é uma música que o André tinha feito inicialmente como um fado. Mas depois, sentimos necessidade de ter um momento daqueles com uma carga emocional um bocado mais forte. Mesmo à última hora, é que definimos exactamente como é que iríamos gravar as baterias e outras gravações extra, com gritos, sons de bancos, coisas a ranger… o primeiro estúdio onde gravámos tinha lá um poço com uma sonoridade bastante interessante. E por isso, o final não tem nada que ver com a versão que a Ana Moura ouviu. E isso sim, é trabalho dos quatro. Ainda que a ideia possa subsistir sozinha, quando chega aqui a esta mesa acaba por tomar um rumo, muitas vezes, bastante diferente da ideia inicial.

5 - Sempre foram assim tão organizados, como se de um emprego se tratasse?
ANDRÉ
Só com o Sirumba é que todos ficámos mais dedicados a nível profissional à banda. Portanto, só aí conseguimos ter essa clareza de espírito e essa agenda mais organizada, porque de resto, era sempre muito esta lógica de teres um ensaio ou dois por semana, ires compondo, e o processo demorava muito mais tempo. Imagina com um full-time, a entrares às 9h e a chegares às 21h a casa, tinhas o fim-de-semana, ou o final do dia para compor. Neste disco e no anterior, já estávamos mais focados e isso reflecte-se também nas próprias escolhas que tomamos, porque esta ideia que falávamos de ir para fora tem exactamente que ver com as nossas vidas também estarem diferentes.

Fotografia - Ângelo Lourenço

6 - Onde é que entra a inspiração?
ANDRÉ
A inspiração entra sempre. Todos os dias.
HÉLIO Tenta-se forçar a que ela exista, tem que haver trabalho, porque se tu estiveres à espera que uma ideia brilhante te venha iluminar o espírito, se calhar ela não vai chegar. Acho que isso nós já aprendemos há muito tempo, mas o facto de nos conseguirmos motivar a fazer música juntos é que depois leva ao apurar das ideias que chegam ao take final e que são gravadas no disco.
PEDRO E como somos quatro, também fica mais fácil, porque pode estar só um inspirado, que já conseguimos fazer qualquer coisa. [risos]
CLÁUDIA Um músico sozinho está lixado sempre. Quando fica encravado numa coisa, é muita difícil desencravar.
ANDRÉ Até porque às vezes, mais do que um “surgiu-me esta beleza extrema”, a inspiração passa muito pelas tomadas de decisão. É mais acreditar que tem potencial e a ligação que existe entre os quatro também ajuda. A ideia do outro complementa a tua.
HÉLIO Isso é o principal, trabalhar. Esta ideia de estarmos sentados e as músicas nos caírem no colo para mim é mito. Às vezes cai, mas porque já trabalhaste 30 dias antes. Eu lembro-me que no Sirumba, havia dias que estávamos aí a empinar o dia todo e saías daqui meio frustrado; depois no dia a seguir, numa hora resolvias duas músicas. A criatividade também se espevita e isso espevita-se com trabalho.

7 - Numa era em que já é uma pérola encontrar quem não se relacione com a música de um modo tão imediato e queira absorver os booklets dos álbuns, como é que as palavras conseguem captar os mais distraídos ouvidos e ”gritar” o significado das letras?
ANDRÉ
Acho que o significado são depois as pessoas que lhe dão. Normalmente a letra surge sempre no final, e há uma altura onde tentamos de alguma forma que ela ajude o resto da canção e que não esteja em competição por atenção. Sou eu que escrevo as letras, mas muitas vezes a intenção com que a ideia me surgiu não é necessariamente o que as outras pessoas interpretam, e acho que depois o significado é puxado por cada pessoa, vão traduzir aquilo que o disco significa para eles, por isso é que a música tem um poder grande, até comparado com outras formas de arte. Às vezes, acontece as pessoas dizerem que “isto parece que fala mesmo de mim”; já nos aconteceu isso a todos nós, com um filme por exemplo, mas com a música isso acontece muito porque há ali uma coisa qualquer meio mística das palavras associadas à música, que cria uma emoção própria.
CLÁUDIA Acho que temos muita sorte. As pessoas sentem-se muito próximas das coisas que o André escreve, e alguma magia há-de ter para isso acontecer.

8 - Numa outra face nesse aspecto, sentem que a língua vos limitou de alguma forma?
CLÁUDIA
Acho que a língua foi a melhor das nossas escolhas, e eu era uma das pessoas que no início não queria voz sequer, por mim tinha sido instrumental. E na verdade, foi de facto um factor distintivo. O modo como o André cantava e compunha foi entrando, um bocadinho a medo, mas eu acho que funcionou muito bem. E a voz e as letras têm vindo a ganhar um espaço de uma maneira muito gradual, muito orgânica; a coisa foi entrando de mansinho por uns gajos que não estavam habituados a fazer isso, principalmente em português. Ele também não era vocalista, entrou um bocado porque mais ninguém se chegou à frente e porque apareceu com coisas escritas. E eu acho que foi mesmo bom aquele momento em que decidimos, “então agora estas duas músicas que já existem com letra em inglês, vamos fazê-las em português”, que era a Lição de Voo Nº 1 e o Amor Combate.

[cantam todos]

9 - Para uma banda com uma sonoridade bastante exportável como a vossa, cantar em português não é então uma barreira nos circuitos internacionais?
CLÁUDIA
É incrível, no outro dia estive a ouvir o Amor Combate e a melodia era a mesma, mas soa tão mal em inglês… E há coisas que por serem em inglês soam muito melhor, mas neste caso há mesmo alguma coisa que funciona bem em português. Acaba por não ser uma barreira, porque nem vamos muitas vezes lá fora e das vezes que lá fomos isso era um ponto positivo.
HÉLIO Lembro-me uma vez que fomos tocar à Irlanda e estávamos à espera de não ter uma reacção super entusiasta, porque havia essa questão da língua, mas as pessoas vinham falar connosco e dizer exactamente o contrário, que até uma das coisas que mais tinham gostado era o facto de ser uma língua tão exótica para eles.
ANDRÉ Para todos os efeitos, somos uma banda de rock, queiras tu pôr numa prateleira maior ou mais pequena; e se eu for para Inglaterra, bandas rock a cantar inglês há aos pontapés. Se calhar, se cantares numa língua que eles não ouvem no dia-a-dia pode ser um factor diferenciador. Acho que a língua não deve ser vista como um entrave, já foi em Portugal durante muitos anos.
HÉLIO Porque nós também cultivávamos isso. Quantos projectos portugueses a cantarem em inglês é que vingaram realmente lá fora? Desses dos anos 90, que se calhar diziam que cantavam em inglês porque queriam ter uma carreira internacional, tens os Moonspell. E acabámos aqui a lista.

10 - Como é que vêem os sucessivos anúncios de que o rock está morto?
HÉLIO
Eu oiço mais vezes o comentário de que há muita gente a vaticinar o final do rock do que artigos reais que me cheguem às mãos. A verdade é que tu olhas para os cartazes dos festivais grandes e os headliners continuam a ser bandas de rock, tens no Alive os Arctic Monkeys, Nine Inch Nails, Pearl Jam. O que eu sinto é que há uma maior tradução nas rádios, festivais e por parte de quem consome música, porque hoje em dia consome-se música muito digitalmente. E acho é que os outros estilos que se calhar foram sempre marginalizados estão a chegar a uma igualdade. Mas é uma coisa que se está a tornar mito.
CLÁUDIA Mas a verdade é que muitas dessas bandas rock também estão a amansar. Se calhar fartaram-se de estar dentro do saco do rock, mas não será um caminho sem retorno.
HÉLIO Por acaso não sinto isso. Eu todos os anos consigo descobrir vários discos rock que me motivam e acho que isso também é sinónimo de que o rock não está morto.
PEDRO Acho que não está em causa se o rock está morto ou não, mas sim a tendência de os media ditarem aquilo que está a bater ou não. Porque o rock quando surgiu também teve esse estado subversivo, portanto isso não quer dizer que esteja morto, mas sim que não tem tanta atenção.
HÉLIO Se tu fores a um top dos anos 80, continuas a ver os ABBA lá em cima, não vês uma banda rock barulhenta.
ANDRÉ É uma questão de ciclos, não quer dizer que o rock morreu. Ou então que morra e que seja um zombie e que volte para assombrar toda a gente. O hip-hop e outras linguagens têm dado provas de vitalidade e de se reinventarem mais do que até algumas bandas rock. Mas se calhar estão para vir putos novos com outros truques, para se juntarem na garagem e fazerem coisas que nos surpreendam a nós e que surpreendam as outras pessoas.
PEDRO Mas também nesse refrescar que há em abordares um género de outra forma, há muitas bandas que se calhar fazem rock e utilizam os mesmos recursos que o hip-hop, os samples e tudo mais.
ANDRÉ Por exemplo, no caso dos Nirvana, aquilo se calhar aconteceu porque tinhas um gajo com uma sensibilidade pop do caraças e fazia umas melodias que se tu tirares a distorção toda, parecem músicas dos Beatles; não era suposto aquilo ter mudado para mainstream, se calhar é o mudar do rock que não quer estar na cara das pessoas, ou pelo menos não o tipo de rock que nós fazemos. Talvez o Bruce Springsteen, que eu também gosto muito, mas é um rock mais de tabelas e de encher estádios. Mas se calhar é isso, as coisas que nós gostamos, a intenção e a intensidade com que gostamos do rock, se calhar não é suposto estar onde está o hip-hop hoje em dia.

11 - No diário das gravações que escreveram para a Blitz falam bastante das refeições. Também já levam as ementas delineadas?
HÉLIO
Nas residências e, depois na Catalunha, tivemos a presença de duas pessoas que foram fulcrais para que tudo corresse bem, o Ângelo Lourenço e o João Tereso. Por uma questão de agilidade, o Ângelo era quem cozinhava enquanto nós estávamos a gravar. Porque há uma necessidade básica que se chama alimentarmo-nos.
CLÁUDIA Às vezes tínhamos que planificar um bocado a coisa. Saíamos do estúdio, fazíamos uma lista e tentava-se poupar uns trocos, porque ir comer fora todos os dias não ia dar.
PEDRO Eram momentos importantes porque eram os momentos de lazer.
HÉLIO Os dias eram muito iguais uns aos outros, o estúdio de manhã logo, depois íamos almoçar, depois novamente o estúdio, depois íamos jantar, víamos o Strager Things e adormecíamos à meia-noite.
ANDRÉ Só saímos uma vez. E foi a dez metros de casa.
CLÁUDIA Foi no penúltimo dia, o dia seguinte era para gravar as últimas vozes e para fechar tudo o que fosse preciso. Até às duas da tarde foi uma tristeza. Mas é o rock.

12 - Apesar de o risco de viver em conjunto quando uma relação está tão bem como está, no final do dia sentiram que é uma fórmula a reaplicar no futuro?
CLÁUDIA
Acho que sim, a melhor decisão que nós tomámos para este disco foi a de estarmos em Big Brother a fazer as coisas. Sabemos lidar uns com os outros, sabemos até onde é que podemos ir, o que é que convém não meter o dedo na ferida… Às vezes põe-se à mesma e dá porcaria, mas no dia seguinte, volta tudo ao normal.
HÉLIO Tanto que já apalavrámos com o Santi o estúdio para daqui a dois anos. Agora a ver se acontece mesmo.

Fotografia - Ângelo Lourenço

13 - Como é que surgiu a decisão inicial de ter uma menina na banda?
CLÁUDIA
Isso não foi propriamente uma decisão que os meninos tenham tomado. Eu e o Hélio éramos namorados e havia o medo que se um dia nos chateássemos, isso pudesse dar um problema.
HÉLIO Um dia chateámo-nos e continuámos.
CLÁUDIA A música é um território tradicionalmente masculino. Não é só o rock. Não tens muitas mulheres a fazerem parte de uma banda. A ideia de uma banda como Linda Martini, Paus, Capitão Fausto, que funcionam como uma banda, não tens muito. Mas isso aconteceu porque nós já tínhamos bandas, e pronto depois chegou ali a uma altura em que se lembraram de me convidar para tocar harmónica.
HÉLIO Mas depois faltava um baixo, e ela tocava. Os Linda Martini nasceram um bocadinho no final de outra banda que eu e o André tínhamos, mas eu já tinha tido outro projecto com o Pedro e outro com a Cláudia, onde ela tocava guitarra.
ANDRÉ Não há uma distinção de sexo. É um amigo, neste caso calha ser uma rapariga.
HÉLIO Por exemplo, houve um ano em que a Cláudia engravidou e tivemos que mudar um pouco os concertos, não muito, porque a Cláudia é insubstituível. E não fomos buscar uma mulher, fomos buscar o Makoto – pronto, tem cabelo comprido, parece uma mulher de costas, mas o intuito não foi substituir por um elemento feminino. [risos] Há bandas que fazem isso, como os Smashing Pumpkins, que saía uma baixista e entrava outra; havia essa preocupação, não sei se era estético, se não era.

14 - Finalmente revelam na capa deste álbum quem é a Linda Martini. Como é que a italiana reagiu ao ver o seu retrato espalhado pelo mundo?
PEDRO
Ela foi generosa como da primeira vez com o nome. Está muito contente com a banda. Quando começámos a utilizar o nome dela, não sabíamos que percurso é que iríamos ter e sentir agora que passados 15 anos a banda continua, vai lançar um novo disco, ela sente-se feliz por fazer parte de alguma forma também de tudo isto. Fui eu que falei com ela, ela deu autorização e sentiu esse entusiasmo também por perceber que o nome dela mantém-se e que deixou cá alguma coisa também para além do nome.

15 - E em relação à marca, nunca receberam sequer uma caixinha da parte deles?
HÉLIO
Uma caixa não, recebemos uma queixa. Isso é culpa do registo de marcas que há, porque tens uma categoria que abarca milhentas subcategorias. No nosso caso, a Bacardi tinha Martini registado em eventos e, debaixo da mesma categoria-mãe, nós registámos concertos ao vivo. Aparentemente chocam, tivemos um bocado de medo.
ANDRÉ Recebemos um alerta quase automático.
HÉLIO A marca diz que aquilo era tipo concorrência desleal. Nós na altura andávamos todos na faculdade ainda, nem pensámos em nos pôr numa guerra destas. Não registámos a marca nessa categoria.

16 - Fecharam 2017 com uma digressão de 10 rounds com o Tigerman e ele disse-nos recentemente que gostava de vir a fazer mais qualquer coisa convosco. Como é que correu este dialecto?
CLÁUDIA
Correu mesmo bem.
HÉLIO Quando partes para a estrada nunca sabes como é que vai correr, quanto mais quando já tens uma dinâmica e há outra banda que tem a sua própria dinâmica também. Vais misturar as duas e pode correr mal ou muito bem.
CLÁUDIA E o Hélio se calhar já tinhas tido isso com Paus com outras bandas nas tours, mas nós nunca tínhamos tido essa experiência de ir para a estrada sem ser com a nossa equipa. Então, não fazíamos ideia do que esperávamos e correu muito bem.
ANDRÉ Acho que descobrimos afinidades que nem nós sabíamos que tínhamos. Apesar de haver uma matriz rock, no sentido lato do termo, podíamos ter feito as coisas muito diferentes, mas para além de partilharmos o palco, tocámos músicas dele, tocou músicas nossas, e ganhámos um respeito e um gosto renovado pela música de cada um. Agora, volta e meia, combinamos jantares, vamos ver concertos uns dos outros, criou-se uma amizade mesmo muito forte.
PEDRO Foi fixe também partilhar com eles a cena de estar assim numa carrinha em conjunto e estarmos em cidades diferentes a montar o circo, a fazer o número e a desmontar no dia seguinte. Já tivemos isso, mas nunca assim tão prolongado. O que é cansativo, mas sendo ele mais experiente, acaba por se aprender sempre muito.

17 - Porquê dois concertos de apresentação no Lux em vez de apenas um numa sala maior?
HÉLIO
Precisamente por termos terminado essa tour no Coliseu. E pensámos que também não valia a pena estarmos a marcar um Coliseu agora nesta altura, porque não sabes se vais esgotar, se vais encher. Há sempre esse factor de risco que tu tens que contabilizar. E então decidimos marcar uma data no Lux, que depois esgotou num instante e acabámos por esgotar a segunda, e se calhar sim, apercebemo-nos agora que teríamos feito outro Coliseu com alguma facilidade. Mas por outro lado, nós também gostamos de tocar em clubes, portanto é um território onde nos sentimos confortáveis e as apresentações dos discos são uma das poucos oportunidades que temos para fazer isso. Então, acho que nos assenta bem estarmos a fazer esta tour com dois Lux´s, o Hard Club e outras salas.

18 - 2018 é também a celebração do vosso 15º aniversário. Quais foram as experiências e aprendizagens mais valiosas no vosso percurso?
CLÁUDA
Esta mais recente que estivemos a falar para mim é muito importante, esta tour com o Tigerman. É uma coisa realmente diferente do que tínhamos feito até agora e trouxe mesmo uma aprendizagenzinha nova.
ANDRÉ Acho que sempre que temos essa oportunidade de misturarmos a nossa linguagem com outros músicos crescemos com isso. No passado, não de forma tão intensa, já tivemos um concerto com a Gisela João, fizemos uma homenagem ao António Variações onde estavam também os Deolinda, já fizemos com os Rádio Macau, com o Kalaf dos Buraka Som Sistema... E esse tipo de cruzamento a mim interessa-me muito porque, apesar de irmos sempre tentando desenhar rumos diferentes, somos sempre os quatro, e quando há um contacto com outras linguagens que não o nosso habitat natural é uma coisa que nos motiva muito. Fora isso, continuamos a sentir as borboletas na barriga como uns miúdos, cada vez que um disco sai para a rua. Assim como a primeira vez que pisámos um festival grande, como Paredes de Coura. E depois há muita coisa bonita que passámos juntos, como andar a correr o país de mala às costas, as residências, mas também ter oportunidade de ir tocar à Madeira e aos Açores e tirar uns diazinhos para apenas estarmos juntos. E o facto de continuarmos a gostar de fazer música juntos deu-nos uma vida que nós não teríamos se tivéssemos parado aos 15, por exemplo, como a maioria dos nossos amigos.

19 - Quando tocavam na casa ocupada da Praça de Espanha, já era com o objectivo de fazer disto a vossa vida?
CLÁUDIA
Não foi uma decisão, foi acontecendo. Uns tinham mais disponibilidade que outros, os únicos que tomaram a decisão de deixar o trabalho foram o Pedro e o André, que trabalhavam em áreas totalmente diferentes. Ou seja, tiveram mesmo de tomar a decisão de largar o fato, eu não tive que tomar essa decisão porque para mim isto é completamente conciliável com as outras coisas que eu faço.
HÉLIO O que todos nós fizémos foi a faculdade, tirando a Cláudia que estudou Artes. [risos] Todos nós estudámos coisas que não tem nada que ver com música, eu e o Pedro tirámos engenharia e o André tirou Recursos Humanos. Eu nunca exerci sequer.
PEDRO Foi a própria experiência que depois acabou por ditar a altura em que nós, pela primeira vez, estávamos os quatro focados e a assumir a banda como o trabalho principal.
CLÁUDIA Para mim foi uma fase difícil porque eu tinha acabado de ser mãe e estava completamente desfocada da banda, e a partir daí foi um ano em que tive mais trabalho de ilustração, ou seja, as coisas não são iguais para todos.
PEDRO No meu caso, houve um acreditar que seria possível, pensando “ok, eu quero determinado estilo de vida, consigo tê-lo?”, ou seja, não foi de um momento para o outro, a coragem fugia, mas há um acreditar de que a coisa pode vir a crescer. Felizmente tem corrido assim.

20 - E apesar de já estarem a dar aos vossos fãs este novo trabalho, planeiam assinalar o aniversário de alguma forma?
HÉLIO
Já temos um disco novo. A maior celebração que eu acho que qualquer banda pode fazer em vida é editar um disco. É sinónimo de vitalidade.
PEDRO Nós queremos festejar o ano a tocar, se pudermos tocar este disco muitíssimo é o maior presente que podemos ter e que podemos dar também.
ANDRÉ Acho que nós também, no geral, somos pouco dados a celebrações dessas. Se for os 10 anos é um momento até simbólico, mas focamo-nos mais a querer fazer música juntos e para as pessoas, do que propriamente estar aqui com celebrações de carreira.
HÉLIO Até porque depois, durante 5 anos, vais ser só isso. Eu lembro-me que quando nós editámos o Turbo Lento em 2013, éramos a banda com 10 anos de carreira. Portanto, agora temos 15 e durante os próximos 5 anos, seremos a banda com 15 anos.
PEDRO Sabe-me um bocadinho a best of, parece que já não há mais nada a dizer.
HÉLIO Acho que vai ser interessante quando pudermos tirar o bilhete de identidade da banda.

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