Fotografia - Rita Umbelino

1- Quem é a tua Alcateia?
O nome Alcateia é um bocado uma continuidade de tudo aquilo que tenho vindo a fazer até agora. Trabalho ao abrigo de um selo que nós intitulamos Family First. Isto é um bocado um upgrade da Family First, no sentido em que, aqui não há só pessoas que sempre estiveram envolvidas comigo, mas também outras cujo trabalho eu aprecio, com quem já queria colaborar. No fundo, tentei puxar essas pessoas todas e materializar isso num projecto. São as pessoas não só do círculo mais próximo, mas de um círculo alargado.

2- Numa era cada vez mais digital, porquê pegar no conceito de mixtape?
No meu caso fazia sentido porque lancei o meu terceiro álbum em 2016, e esse ano e 2017 foram provavelmente os melhores anos da minha carreira, então não fazia sentido lançar outro álbum logo a seguir. Queria que as pessoas me ouvissem em registos que não estou habituado a praticar. Registos que gosto de ouvir e em que sei que consigo fazer coisas boas, mas que em álbum nunca tinha feito. A cena da mixtape permite um bocado explorar esses terrenos onde as pessoas não estão muito habituadas a ouvir e foi o que aconteceu comigo. Queria fazer sons em que estou a cuspir mesmo barras, queria fazer músicas sem ter a pressão ou o “respeito” que tens quando fazes músicas para um álbum. Ou seja, sem ter essa disciplina. Foi o que aconteceu.

3- Qual é a evolução mais distintiva nesta mixtape?
Acho que ela acontece a todos os níveis, porque se olhares para a escrita, eu não sou a pessoa que era há cinco ou seis anos quando editei o meu primeiro álbum, então acho que é inevitável isso refletir-se na minha forma de fazer música, ou seja, na forma como escrevo, na forma como canto, como faço as minhas melodias e harmonias, como construo as minhas músicas. Acho que não pode ser visto de forma pontual, tem que ser visto como um todo. Neste projecto, há todo o tipo de vibes, de energia e musicalidades, precisamente por essa razão. Acho que a evolução foi nesse sentido. Sinto-me à vontade em todos os registos que pratiquei nesse projecto, seja numa canção mais dançável quase toda cantada, seja num som em que só estou a fazer egotrip, ou numa música romântica. E isso reflete-se na maturidade com que estou a fazer essas músicas.

4- Foi por uma epifania que percebeste que definitivamente querias fintar com as palavras e não com a bola?
Acho que, felizmente, percebi isso cedo. Apesar de ser um apaixonado por futebol, percebi que esse não era o meu caminho. Havia muitas pessoas na minha família que queriam que eu seguisse esse caminho porque achavam que até tinha jeito. E tinha, é verdade, mas esse era um caminho que não era meu. Sentia-me muito mais entusiasmado e muito mais excitado a fazer música, a escrever e a tentar criar coisas, do que propriamente a jogar à bola.

5- A carreira do teu pai, o internacional português Jorge Plácido, fez com que passasses a adolescência em Paris. Já escrevias nessa fase?
Não, não escrevia. É engraçado. Quando vivia em Paris tinha um grupo de rap mas nós não escrevíamos nada, cantávamos letras de outros artistas. O pessoal ficava em frente ao espelho, com desodorizantes a fazer de microfone, mas a cantar músicas de outros artistas. Não tivemos essa cena de escrever nessa altura. Aliás, eu só comecei a escrever quando vim viver para Portugal, só passado uns anos é que comecei mesmo a escrever e a gravar, porque antes disso não escrevia sequer.

6- Sentes-te à vontade para escrever em francês e trabalhar para esse público?
Sim, embora considere que é um exercício difícil de fazer porque aprendi a ler e a escrever em francês, mas quando vim para cá viver tive que fazer o exercício oposto. Juntei-me a um grupo de pessoas que escreviam e cantavam em português e eu era o único que não conseguia fazer aquilo. O exercício criativo que tu fazes é muito mais esforçado. Então, para poder escrever em português, cantar em português, tive que me esforçar muito mais do que eles. Fiz esse exercício durante muito tempo até me sentir à vontade. Agora que finalmente me sinto à vontade, fazer o exercício ao contrário, para escrever em francês, seria um bocado difícil. Mas não é impossível. Falo fluentemente, mas uma coisa é tu falares, outra é criares e pensares em coisas conceptualmente e que sejam interessantes. Escrever é fácil, escrever coisas boas, acho que é mais difícil.

7- Apesar de teres nascido no Barreiro e viveres no Porto, tens apostado também na Angola natal dos teus pais, inclusive oferecendo uma compilação recentemente em vários blogs sobre rap. Há lá muito por onde crescer?
Acho que aquilo é o futuro, honestamente. Já tinha estado em Luanda várias vezes, mas estive agora em Novembro pela primeira vez a título profissional. Fui lá promover os meus singles e fazer um pequeno show. Foi engraçado porque aconteceram coisas que nunca tinham acontecido aqui em Portugal. Nós vivemos disto há uns oito anos, pelo menos e há coisas que me aconteceram lá que nunca me aconteceram aqui. No dia em que cheguei houve pessoas que me foram receber ao aeroporto. Aqui nunca me aconteceu, nem no Porto nem em Lisboa. A forma como as pessoas vivem o artista e a música é um bocado diferente, por causa das limitações que o mercado tem, se calhar nem todos têm acesso à Internet como aqui, ainda compram muitos discos, é fácil vender discos lá. As pessoas vivem a música e o artista com muito mais intensidade, porque não têm a oportunidade de chegar ao artista com tanta facilidade. Para mim foi uma super experiência porque nunca tinha estado lá nesses moldes e gostei muito. Gostava de voltar lá e ir a outros países que gostava de conhecer como artista. É o caso de Moçambique e também Cabo Verde. Quando vais actuar a sítios onde não acontece muita coisa, ou corre muito bem ou muito mal. Temos a experiência de às vezes nos estarem a vender um sítio para irmos actuar em que sabemos que não nos conhecem, vamos lá e é incrível; como também vamos a sítios que sabes que não acontece muita coisa e chegas lá e acaba mesmo por ser podre.

8- A cypher que vem na mixtape foi gravada lá em Angola?
Quando estive lá fiz uma mega tour de imprensa, corri os meios todos e conheci um pessoal lá de uma produtora e agência de artistas grande, que é a Clé, e eles têm essa plataforma que é o XL Cypher, em que disponibilizam com regularidade conteúdos. É uma coisa que dificilmente chega aqui. Mas são sempre com muitos artistas, até agora só havia um artista que tinha feito um cypher a solo, que foi o Prodígio, da Força Suprema. Quando eles souberam que eu estava lá, entraram em contacto comigo para fazer um XL Cypher a solo. Estive lá três semanas, se não me engano, e com a quantidade de coisas que estava a fazer não tinha tempo de parar, fazer um cypher e filmar aquilo com eles. Eu disse-lhes, “na semana que chegar a Portugal, fecho-me no estúdio, gravo, faço o vídeo, mando-vos e depois vocês disponibilizam na vossa plataforma”, e foi o que aconteceu. Acho que aquilo lá teve um impacto brutal, é o cypher que teve mais alcance de todos os que fizeram. Eu já não fazia um som desses há muito tempo, eles disseram para fazer um exercício de estilo, eu gosto de fazer, mas é uma coisa que tem que me puxar mesmo, tem que ser o beat certo, o momento certo. Por acaso apareceu esse beat e como eu já não fazia uma coisa destas há algum tempo, acho que a malta ficou um bocado surpreendida, tipo “O homem está de volta”. Teve um impacto brutal lá e o pessoal aqui também gostou. Eu gostei do resultado e depois sabes como é que é, o pessoal a dizer, “Isto é beef para aquele ou para aquele”, de repente era um beef para todos os gajos de Portugal, para todos os gajos de Angola. [risos] Era um beef para todos, mas eu gostei tanto daquilo que me fez sentido no projecto da Alcateia, porque retrata bem o espírito.

9- Esteticamente, o rap de Lisboa é diferente do feito no Porto. Encaixas em algum?Acho que já foi muito mais, essa diferença já foi mais visível. Nunca me enquadrei nem numa coisa nem noutra, por acaso, o que é um bocado estranho. Sempre ouvi mais rap de Lisboa do que rap do Porto, isso é certo, porque os artistas que admiro mais são daqui, mas nunca me enquadrei bem nem num estilo nem no outro. Se calhar, quando vim de França, vinha com uma bagagem cultural e musical que era um bocado diferente das pessoas que cresceram aqui, porque lá ouvia imenso R&B, soul, grunge, ouvia Nirvana, Offspring. Tinha essas coisas todas aqui dentro, então, quando se tratou de se fazer música o resultado imediato era um bocado diferente do pessoal que tinha crescido a ouvir o Boss AC e os Black Company. Nunca me enquadrei bem numa coisa nem noutra.

10- No meio disso tudo ainda tiveste tempo para no último Verão actuares na festa da Playboy no Bliss. Ficou alguma coisa na memória?
Pois é! Por acaso eu adorei! Ainda por cima foi uma coisa assim marcada em cima da hora, estávamos um bocado reticentes, no Algarve nessa altura está a acontecer tudo. Foi fixe, estava bem frequentado, obviamente. Foi bom, gostei. Gostei muito!

11- Também estiveste envolvido no projecto pedagógico Amar-te e Respeitar-te, de combate à violência no namoro. Foste tu que sugeriste o tema?
Não, o que aconteceu foi o seguinte: no início de 2017, essa editora convidou-nos para fazer parte de um projecto pedagógico e havia vários temas que se podia abordar. Partindo do pressuposto que o meu público é maioritariamente jovem e estudante, fazia sentido abordar essa temática de forma criativa, de forma simpática e levar isso aos alunos. Uma coisa é teres um professor a falar disso, que é uma pessoa que eles vêem todos os dias e provavelmente estão cansados de ver, outra coisa é um artista, que eles ouvem, a falar desse assunto, logo à partida a sensibilidade é diferente. A abertura e a disponibilidade são diferentes. Decidimos abraçar esse projecto, acho que é saudável e ainda por cima é uma temática muito actual e que está a ganhar novos contornos e nós aprofundamos essas questões nesse projecto. Fazia todo o sentido envolver-me e não é o único projecto.

12- Achas que vais conseguir que esse público envelheça ao teu lado?
O desafio é esse. Por acaso, há poucos dias estávamos a falar disso. Estivemos na gala dos Melhores do Ano e é engraçado que a todo o lado que vou toco músicas que editei em 2012, 2013 e 2014. Numa era em que se consome música tão rápido, em que as pessoas consomem singles, eu poder ir aos sítios e perceber que as pessoas ainda cantam esses sons, não deixa de ser um bom sinal. Acho que hoje em dia as pessoas não consomem tanto o artista, são mais músicas, o pessoal tem playlists, uma música de cada artista. De certa forma, tenho conseguido que algumas dessas pessoas acompanhem o meu percurso. O desafio é esse.

13- Algumas fãs tatuam frases das tuas letras. É uma honra ou assustador?
Em alguns casos acho que é bonito, ou tem que ver com um momento da vida da pessoa, ou aquela música retrata alguma coisa e elas identificam-se com aquilo. Há coisas que até ficamos assustados! Houve um rapaz que tatuou o nosso símbolo da Family First nas costas todas. Eu sou muito fã da Lauryn Hill mas não tenho uma tatuagem dela. Ter o símbolo nas costas, é algo que fica para a vida, ou ele leva isto muito a sério ou então não tem consciência do que está a fazer. Espero que ele tenha, para o meu bem e para o bem dele. Mas sim, às vezes é um bocado assustador.

14- Os clichés do rap estão ligados a questões como homofobia, objectificação das mulheres ou materialismo. Achas que hoje as coisas estão melhores?
Há de tudo. Não acho que esteja melhor, porque no fundo até vende bem, e é normal que haja artistas que se socorram dessas ferramentas para que a música tenha mais alcance e seja mais comercializada. Com a quantidade de informação que se veicula hoje em dia, se calhar as pessoas estão mais sensíveis e despertas para esse tipo de questões. Se calhar o rap é definitivamente a personificação desses clichés todos.

15- Foi claro para ti quando começaste que não ias seguir esse caminho?
Não foi claro, foi óbvio. Pretendo fazer música de uma forma que não desvirtue os valores e os princípios que defendo, e sobretudo os valores ao abrigo dos quais fui educado. Logo à partida, isso para mim não era uma discussão, é uma coisa que faço com naturalidade.

16- Quando escreves vais logo imaginando a métrica e a força que queres dar a cada verso?
Por acaso não. Acho que até tenho uma maneira um bocado particular de criar e de escrever, nunca começo pela letra, começo sempre pela parte da melodia. Se receber um beat, fico a cantarolar aquilo até assimilar a melodia e depois espero que as palavras comecem a aparecer. É como montar um puzzle. Dificilmente consigo escrever uma cena, ouvir um beat e fazer um texto do início ao fim. Há artistas que escrevem assim, eu não consigo. Vou cantarolando, aparecem-me umas palavras, coloco aqui e ali, vou montando o puzzle, chego ao final e tento construir aquilo assim. Parto sempre da melodia e nunca do texto.

17- Agora que tens uma posição sólida na música portuguesa, já começas a rever a tua influência entre os novos artistas?
Acho que é um bocado pretensioso dizer isso, mas se calhar ajudei a desmistificar algumas ideias pré-concebidas que eu via a propósito dos artistas que querem fazer música de massas. No meio do rap, há sempre aquela cena de “tenho que ser um gajo underground”, e acho que foram poucos os artistas até hoje que tiveram a capacidade e a coragem de assumir que queriam ser mainstream. Eu não tive medo de assumir isso, numa altura em que se calhar as pessoas tinham algumas defesas ou algumas reservas em relação a esse tipo de comportamento. Na minha geração, os artistas diziam: “Fazes música, mas atenção com a cena do dinheiro, porque ganhares dinheiro a fazeres música...”; havia sempre essa discussão e hoje em dia isso já não é uma discussão sequer. Não é assunto. Fazes música, ganhas dinheiro com a música que tu fazes. Se calhar ajudei um bocado a desimpedir o caminho para que houvesse outros artistas que viessem atrás e assumissem isso de forma clara.

18- A Internet permitiu que o rap tivesse muito mais alcance. Qual é o nível de importância das visualizações do YouTube?
É importante, sem dúvida alguma, porque funciona um bocado como um termómetro e um barómetro para perceber se o artista está quente ou não, se isto está a funcionar ou não está, mas acho que não é tudo. Tens artistas que são muito bons e não têm milhões de visualizações, isso não quer dizer que não façam boa música. A questão dos números é muito pertinente, porque esses números podem-se fabricar com facilidade: podes ter milhões de visualizações, chegares a um concerto, e ninguém cantar as tuas músicas - mas tens esses milhões. Eles podem ser ou não orgânicos, o cenário ideal é que sejam e isso é que é bonito. Temos exemplos em Portugal de artistas que são fenómenos totalmente orgânicos, lançam músicas e elas simplesmente explodem. Também há casos de pessoal que tem milhões, chegam aos sítios e ninguém conhece aquilo. Infelizmente, em Portugal, acredito que existe uma grande parte de promotores que olha directamente para essa questão das visualizações. Claro que isso é um dado importante, mas não representa tudo na carreira de um artista. Há outras valências que devem ser consideradas.

19- Da última vez que te entrevistámos, partilhaste que o teu maior sonho era seres pai. Agora que já o concretizaste, isso mudou alguma coisa em ti como artista?
Acho que muda como pessoa em primeiro lugar. A minha vida mudou completamente desde que fui pai, de formas que nem sequer contava. A partir do momento em que és pai, a tua mentalidade e a forma como pensas muda. Passas a olhar para tudo de forma diferente, acho que relativizas muita coisa. Antes de ser músico, sou uma pessoa. Mudando como pessoa, em certos aspectos da minha vida, é inevitável que a música também acabe por mudar um bocado.

20- Tinhas lançado três canções que não fazem parte de Alcateia. São já para um futuro quarto álbum?
Não. Por acaso era suposto, essas canções faziam parte da construção de um suposto álbum. Depois apareceu o projecto Alcateia pelo meio, que foi um separador, uma coisa assim mais experimental. Para fazer um quarto álbum, ainda não me apetece. Gostava de fazer outra cena, outro Alcateia. Estar em estúdio com mais pessoal, tranquilo, sem a pressão de ter que fazer um disco. Acho que antes de fazer esse disco, tenho que experimentar outras coisas.

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