1 - Böoks, Main, Bliss. Como é que este império nasceu?

Foi Bliss, Main, Böoks, Salt Beach Club (o antigo Capítulo), e também temos uma participação no Praia, em Vilamoura. Eu e o João Magalhães começámos em 2009, no Faces Beach Club e dois anos depois voltámos à estaca zero, arrancámos com o Bliss e por sua vez como já tínhamos a Kapital transformámos a Kapital em Main, o que veio dar o sucesso que é hoje em dia a marca Main. Por sua vez mais tarde vem o Böoks, que vai fazer agora dois anos, e este ano abrimos mais duas casas, o Salt Beach Club, e o Praia numa outra parceria, com o Olivier, o Nuno Santana e o Francisco Spínola. Já são cinco casas, claro que o Praia é gestão do Olivier e do Nuno Santana, mas temos a nossa participação.

2 - Ainda há vontade de crescer?

Há sempre vontade crescer, depois começa-se a tornar aliciante porque tu não páras, as coisas começam-se a proporcionar, negócio gera negócio, e projecto gera projecto, e como em tudo na vida tudo tem de progredir gradualmente porque estar parado e estagnado não é bom para ninguém, e daí virem surgindo outras coisas novas.

3 - Começaste por outros trabalhos na noite ou logo como DJ?

Comecei como DJ, há vinte e tal anos, a minha vida foi como DJ. Tocava nas festas de garagem, nas festas não sei do quê, até que comecei a tocar lá na discotecazinha da minha terra, e ser empresário foi um erro de percurso, como eu costumo dizer, porque acho que não tenho vocação para empresário, apesar de ter tido algum sucesso. É daquelas coisas que não projectaste na tua vida, aliás eu estudava Direito quando cheguei à conclusão “qual estudar Direito, a minha vida é a música”. A música faz sentido em qualquer aspecto da vida, e para mim então tem um acréscimo 300 vezes mais do que provavelmente para uma pessoa normal, tenho que viver rodeado de música. À noite nós vendemos sonhos, tudo faz parte disso, a música, vender um sonho de uma forma saudável, porque ainda sou do tempo de irmos para os clubes divertir-nos, ouvir música e no outro dia acordava todo bem-disposto, tudo numa forma saudável.

4 - Sempre trabalhaste na noite?

Não, trabalhei em várias áreas, na moda, acabei o curso de Desenho Técnico, Metalomecânica, porque gosto de desenhar, mas a música sempre falhou muito mais alto e fiz rádio durante sete anos, em Castelo Branco. Durante sete anos a acordar aquelas pessoas todos os dias das 7 às 10 da manhã.

5 - Por seres também um dos donos sentes que tens que provar ainda mais quando sobes para a cabine?

É muito complicado, vou ser sincero, no Bliss consigo exteriorizar mais e dar mais o melhor de mim. Nas minhas casas toco uma vez por acaso, em algumas festas específicas ou quando alguma marca ou RP pede, porque eu raramente toco. No Main é diferente, sinto que estou ali mais a tentar acompanhar a operação do princípio ao fim da noite e há sempre montes de situações que têm que ser resolvidas pontualmente e nos bastidores tens que estar muito mais activo. Às vezes estar a tocar no Main, ver as coisas a acontecer e eu não puder resolver, então prefiro não tocar. Só festas esporádicas em que saiba que o meu sócio está ali comigo e então aí estou livre para aquilo, de outra maneira não. No Bliss é diferente, tenho lá os meus dois sócios e sei que a operação corre bem porque eles estão ali, posso sentir-me artista.

Fotografia Pedro Agoas

6 - A noite mudou muito desde que começaste?

Muito mesmo, em alguns aspectos bons, noutros de forma menos positiva, mas mudou muito, como tudo na vida, tudo evolui. Mudou nas casas e no público, acompanhei muita evolução desde o início dos anos 90, de lá até aqui mudou tudo, mas uma coisa mesmo drástica.

7 - Está melhor agora?

Depende, tentamos adaptar-nos. Eu e o meu sócio sentimos que nós é que marcamos o passo daquilo que se usa, nós é que fazemos o compasso, estamos um passo à frente e temos essa consciência. Vai chegar uma altura em que vamos sentir-nos ultrapassados, mas até lá muitas coisas que estão a acontecer no país, nestes últimos 4/5 anos, muita lógica de música, temos a consciência que fomos nós que implementámos. Se não fossemos nós, nas nossas casas, a impôr alguns ritmos, provavelmente cá em Portugal não tinham pegado, nem da maneira que pegaram. Nós fabricamos conteúdos, estilos e RPs.

8 - E há muitas rivalidades?

Sim, não são rivalidades mas é concorrência, é bom existir, uma picardia saudável. Queremos lutar e ser bem melhores, graças a Deus temos sido vencedores nesse aspecto.

9 - Actuaste recentemente em Paris e no Brasil. Como é que surgem essas convites?

Surgem do trajecto que vou tendo, de empresários que vão ouvindo, que me vão vendo tocar, as coisas fluem, acontecem. Estava a tocar no Bliss quando apareceu este empresário de Paris, mas ao Brasil costumo ir duas vezes por ano, está marcado agora para Janeiro, Brasil e Suíça. O Brasil já começa a ser uma espécie de residência, sobretudo Búzios, São Paulo, fui lá uma vez tocar a uma festa de um hotel, era a feira da Américas, do turismo, e havia um after-party oficial. Toquei como mero desconhecido, ninguém sabia quem era, aquilo correu muito bem e há sempre operadores de festas, promotores e foi dali que disparou, quando dei por mim já estava a ficar mais três semanas no Brasil. Tem corrido bem, as más noticias correm rápido mas as boas também, uma coisa puxa a outra.

10 - Tirando as tuas casas, qual foi o sítio onde mais gostaste de passar música?

É muito vago. Gostei de tocar na Queima do Porto este ano, foi muito bom, fui muito feliz lá, gostei de tocar em Cantanhede na Expofacic, para 40 mil pessoas. Não foi por estar muito cheio, foi por me ter corrido bem, por ter o público comigo do princípio ao fim. E de clubes gosto muito do Privilégio, no Brasil, e de tocar no Met Club, na Suíça, para cinco mil pessoas, é um clube forte.

11 - É completamente diferente passar música em Vilamoura ou em Cantanhede?

É, em Cantanhede por exemplo, numa Expofacic tens 30 ou 40 mil pessoas, a expectativa, a energia, o impacto, tem que ser mais firme, tem que ser mais… não queria dizer agressivo, e no clube, a tocar em Vilamoura num Bliss é diferente. O Bliss engana muito, tem um aspecto de festival mas aquilo é um clube de charme de verão, então tem que se saber gerir e saber tocar para o público, não se pode chegar lá e bater. Quem tiver esta sensibilidade brilha no Bliss.

12 - Viaja-se muito para ver o que está a funcionar pelo mundo fora?

Não tenho tempo, como empresário, DJ e agora nesta nova fase da minha vida como pai, que é hilariante. Então quando vou tocar como DJ aproveito para descobrir coisas novas, para observar, evoluir um bocadinho.

13 - É fácil coordenar um filho com as noites fora de casa a trabalhar?

Claro que sim, não sou de vícios, nem álcool nem drogas. Como não tenho nenhum vício desses chego ali às 5/6 da manhã, regresso a casa e durmo 5/6 horas, é perfeito. Estou com ele, faço o que tenho a fazer e antes de ir trabalhar aproveito a parte em que ele dorme para descansar uma horinha ou duas, mas aproveito sempre ao máximo quando ele está acordado.

14 - Num meio com tantas mulheres e sensualidade é fácil manter relações?

A minha mulher sabe o que tem em casa, isso faz parte. Se sabemos estar com respeito e temos barreiras bem definidas, ser simpático e não passar disso, acho que é perfeito para toda a gente. Faz parte ter fãs, sejam homens ou mulheres e devolvo um obrigado, com um sorriso, é deles que eu vivo e é deles que eu como, já estou vacinado e adaptado a isso.

15 - Não beber é uma regra que impões também à tua equipa?

É, se estão a trabalhar não podem beber, como é óbvio. É uma regra que até os salvaguarda a eles, para poderem estar lúcidos ao máximo e não haver falhas. Em qualquer trabalho o álcool é inimigo da perfeição. Uma coisa são os RPs, um DJ, outra coisa são os funcionários directos, ainda por cima várias noites a trabalhar, se estiverem a beber álcool, tanto a nível físico, a nível de fígado, de aparência mesmo, a vida é-lhes muito mais dificultada.

Fotografia Pedro Agoas

16 - O que faz um bom DJ? O que é que valorizas?

O que valorizo é se estão adaptados à realidade actual, seja no hip-hop, no R&B, no house, no electro, se estão em sintonia, se têm leitura de pista, sobretudo se têm consciência do que estão a fazer. Sem estas características não vou convidar um artista só por convidar, só porque gosto ou porque a mãe me liga a pedir. Tem que haver essa responsabilidade e por mais que cunhas que metam, pressões que façam, não é por ser DJ que eu deixo alguns de fora e contrato outros. Pelo contrário, como sou DJ defino bem aquilo que quero.

17 - Tiveste algumas experiências como actor. Era um sonho teu?

Tive mas nem queria, não gosto. Até foi em jeito de “vai-me lá desenrascar que preciso de alguém de confiança e não estou a conseguir”, “ainda por cima és DJ e são só falas curtas”. Foi na Baía das Mulheres, se não estou em erro, até que dei por mim quase a fazer a novela toda e eu “olha, eu não sou actor, não sou destas coisas”. “Ah, mas desempenhaste bem.” E eu “se desempenhei bem é um problema teu, não me revejo nisto.” Mas foi engraçada a brincadeira, claro que aquilo para mim era um chachada que me tirava tempo. Às vezes saía dali e tinha que ir tocar para o Norte e andava a correr.

18 - Mas não era positivo teres mais mediatismo?

E cada vez que me contratavam era “você não é o DJ da novela?”. Então aí acabou, aí é que eu não ia mesmo tocar, “olhe essa data não está livre”. Odiava que me reconhecessem da novela, acho uma falta de respeito, contratarem-me por causa de uma personagem da novela, por isso é que nunca falei abertamente daquilo que fiz, nunca me revi.

19 - Foste convidado para um reality-show, o 1ª Companhia. Também não faz o teu género?

Fui abordado, mas nunca cheguei a ser convidado. Comecei a rir-me, respondi “A sério? Isso é para quem não sabe ler nem escrever.” Foi a minha resposta quando ligaram da Endemol. “Isso é por eu ter feito uma novela ou duas? Graças a Deus sei ler e escrever e estou bem definido na minha cabeça. Só vai para aí quem não sabe ler nem escrever nem sabe fazer um carapau na vida.” Epá, por amor de Deus, os meus filhos até estão proibidos de ver esse tipo de programas, quando chega a essa hora mudo, acho isso um lixo.

20 - E o teu nome, é artístico ou vem mesmo no Cartão de Cidadão?

Não vem no Cartão de Cidadão mas é de família. Tenho um tio-avô, da parte da minha mãe, que assinava João Dias Tabaco e eu fui herdar de uma bisavó da parte do meu pai, que se chamava Tabaco, mas não assinava. Na verdade herdei duas vezes o nome Tabaco mas os meus antepassados nunca chegaram a assumir porque tinham vergonha da palavra. O meu pai ficou João Tabaco e quando me viam pequenino era “Ó Tabaquito”, e ficou. Como vivíamos num meio pequeno, numa vila perto de Castelo Branco, Alcains, claro que passa de avô para pai e para filho. Se eu dissesse o meu nome, Hugo Baltazar, quem é? Tabaco “ah, o filho do Tabaquinho”. E como foi uma coisa a que fui habituado de pequeno, não tem maldade nenhuma, ficou Hugo Tabaco.

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