Fotografia - Rita Umbelino

1- Trabalhaste dois anos e meio como consultor, para depois viajares um ano pela Europa em busca dos melhores artistas de rua. Coincidiu com a saída da empresa ou decidiste simplesmente mudar de vida?
Sim, um bocadinho. Infelizmente o projecto durou um ano, mas a viagem em si demorou dois, três meses. Estava um bocadinho farto daquilo e pensei “como é que eu me despeço e vou passear sem parecer irresponsável”, então criei esse projecto que era procurar artistas de rua com um amigo e lá fomos. Foi assim um ir arejar um bocadinho, fazer algo que achava interessante e depois pensar na vida mais tarde.

2- Mais tarde começas a dedicar-te à comédia, mas foste dando uso ao curso de Engenharia Informática. No início do ano passado largas também essa parte: já era complicado conjugar tudo?
Quando cheguei dessa viagem montei o blog e comecei a escrever. Entretanto fiquei a trabalhar em informática, na minha área, não na consultoria e em start-ups, e fui conseguindo balancear entre as duas coisas, mas começou a ser incomportável. Comecei a ganhar cada vez mais gosto pela parte do humor e pela escrita e a ter também pedidos de trabalho nessa área. Cheguei ali a uma altura que pensei “se calhar está na altura de experimentar, vamos ver se funciona”. E mandei-me às urtigas.

3- Criaste um blog com textos enormes em 2014, numa fase em que o vídeo estava claramente a ficar na moda. Tinhas mais jeito para escrever?
Eu nunca quis fazer vídeos nem dar a cara, nunca foi a minha intenção. A página no início era totalmente anónima, não estava associado. Quando comecei a fazer stand-up percebi que me ia dar jeito associar a minha imagem, porque podia alavancar o pessoal que seguia aquilo para ir ver os espectáculos e comecei também a ter algum interesse em fazer vídeo, mais na onda dos sketches. Comigo sempre funcionou melhor o texto, acho que ainda hoje. Dizem as mentes práticas que os textos grandes não funcionam no Facebook, mas para mim é o que funciona melhor. Também acho que talvez tenha sido por aí que me consegui diferenciar e arranjar ali um nicho de pessoal que seguia aquilo. Continuo também a gostar de fazer vídeo, mas dá mais trabalho, escrever é mais fácil, uma pessoa pode não tomar banho e estar de pijama. Para fazer um vídeo tenho que tomar banho de manhã, é uma chatice.

4- Por falar noutra coisa, como foi a infância na Buraca?
Olhando à distância acho que foi boa. Para mim aquilo sempre foi normal. Há-de ser assim em muitas outras zonas, eu ia a pé para a escola e sabia que podia ser assaltado, ia jogar à bola todos os dias e aquela bola era muito provável que não voltasse para casa connosco; fazia parte do meu dia-a-dia. Íamos da escola para casa, provavelmente tínhamos que correr ali em alguma altura ou andar à batatada mas a ver assim à distância, acho que me preparou para a vida. Via outras pessoas no meio profissional a sofrerem um bocadinho de bullying ou a serem explorados e eu já tinha sofrido a minha quota-parte nas ruas da Buraca, já não tolerava tanto. Quando dizia que era da Buraca havia logo uma aura ali à volta de “Se calhar não podemos meter-nos com este gajo” e eu não desmentia, deixava-os pensar “Sim, sim, tenho amigos muito perigosos”. Portanto acho que foi giro e os meus melhores amigos continuam a morar quase todos lá. Portanto, sobrevivendo, acho que foi uma boa experiência.

5- Sempre achaste que tinhas piada? Qual foi a primeira situação que te lembras em que percebeste que o humor era um super-poder?
Não sei, acho que nunca me apercebi muito bem de ter piada. Sempre fui muito tímido e introvertido, principalmente em grupos estranhos, não no meu grupo de amigos, e a minha arma para interagir socialmente acabava por ser o humor. Estava ali um bocadinho caladinho nas conversas, surgia uma piada eu dizia e o pessoal ria-se e havia ali uma espécie de aprovação e integração no grupo. Vem um bocadinho daí, mas nunca achei que tivesse especial aptidão para isso. Eu gostava muito de ver o Herman Enciclopédia e imitar os sketches para os meus pais e eles riam-se, mas porque eram os meus pais. Quando comecei o blog, foi mesmo sem grandes intenções, foi “estou aqui em casa à procura de outro emprego e vou espairecer um bocadinho” e nem via o objectivo daquilo ser comédia, ainda hoje não há, acaba por ir para aí a maioria dos textos, mas no início era só um espaço para eu dizer coisas. Acabei por perceber que esse era o registo em que mais me gostava de exprimir.

6- A Buraca faz parte do imaginário do Por Falar Noutra Coisa. Ao te mudares para Alvalade não temeste estar a desvirtuar a tua própria mitologia?
Um bocadinho, aquilo ali não se passa nada. Há menos histórias para contar, menos interessantes. Mas os meus pais e os meus amigos continuam a estar na Buraca, e eu vou lá muitas vezes. Um gajo sai da Buraca, mas a Buraca não sai de nós, e acaba por também ser giro esse contraste, o choque cultural que é entre um lado e outro. Ainda hoje muitas vezes dou por mim na rua a observar e a sentir-me mais em casa quando vou à Buraca do que quando estou ali em Alvalade, em que, às vezes, o ambiente é mais estranho para mim do que ali passear ao pé da Cova da Moura. Foi uma transição, foi para ali como podia ser para outro sítio.

7- Vais apontando em post-its episódios insólitos em que tropeças no dia-a-dia, para mais tarde partilhar?
Tenho vários cadernos onde vou apontando, mas depois acho que nunca olho para eles. Às vezes acho que confio na minha memória, mas depois não me lembro. Vou anotando no telemóvel, só assim duas ou três palavras, depois olho para aquilo no dia a seguir e penso “já não sei o que é que isto quer dizer” - principalmente se for à noite com os copos, isso acontece muitas vezes. Ou então, uma coisa que acho que vai ser hilariante e no dia a seguir penso, “Não, isto afinal não tem piada nenhuma”.

8- Comes pipocas enquanto te deleitas com os debates acesos entre os comentadores do teu blogue?
Sim, não como mesmo, literalmente, mas metafóricas e imaginárias, sim. Aquilo dá-me um gozo tremendo. É o meu hobby, ver os comentários e responder. Eu não sou aquela pessoa, nunca fui o gajo que comentou, sou aquele seguidor um bocadinho afastado. Passa-me completamente ao lado como é que há pessoas que perdem tempo da sua vida a escorrer ali ódio, quando a opção é fazer scroll, ir à vida delas e poupar energia para outras coisas. É quase um estudo sociológico ver aquilo, é uma caixa de pandora que se abre nos comentários - qualquer comentário, especialmente nos jornais online, que se calhar isso ainda é mais visível, e dá-me genuíno prazer. Às vezes, perco a fé na Humanidade, um bocadinho, mas dá-me prazer.

9- Entre achincalhares saudavelmente jovens na Moda Lisboa e relatares o convívio com a tua namorada, como é que geres o feedback imprevisível dos protagonistas das tuas histórias?
Nunca penso muito nisso. Já tive alguns casos, por exemplo agora nesse da Moda Lisboa, houve um rapaz, ele até era estrangeiro, que foi visado lá e que me mandou um e-mail a pedir para eu apagar a foto porque tinha associações a guetos e droga. Era um rapaz que tinha uma bolsa e por acaso era negro. Eu disse que era um mitra-chique, porque na Buraca os mitras usavam a bolsa à cintura, era onde tinham a droga para vender, fossem brancos ou negros. Respondi-lhe e ele foi simpático na maneira como me pediu para apagar, e obviamente que sendo que a foto dele, eu disse-lhe, “claro, apago, não tenho nenhum problema” e expliquei-lhe que não tinha nada a ver com o tom de pele. Ele não sendo de cá e não conhecendo o meu percurso, é normal que ache que era algo racista. Ele agradeceu imenso e disse que compreendia, mas que podia prejudicar a carreira dele. Há esses casos em que não penso no momento, nem posso pensar, senão não fazia nada. É muito raro atacar alvos individuais, é mais grupos de pessoas, estereótipos. Se eu falar do Pedro Arroja, aí vem de um fundo mau, tenho mesmo que achincalhá-lo porque acho que é execrável. Mas de resto, pessoas, mesmo Gustavo Santos e Ana Malhoa, quem anda nisto e é celebridade tem que estar disposto à brincadeira, até porque normalmente não vem de um fundo mau. Houve uma vez também, nos Globos de Ouro, mas esse gajo era uma besta e eu não apaguei. Ele disse que eu era da Buraca e tinha um extrato social inferior e inveja de não ir aos Globos de Ouro e eu “Ok, já sei com quem é que estamos a falar, então vamos para tribunal”. E depois nunca fomos.

10- Começaste também logo a fazer stand-up, mas só agora é que fizeste a tua primeira digressão a solo. Porquê tanta espera, só quando passaste os 300 mil no Facebook é que deixaste de ter medo que ninguém aparecesse?
Não foi tanto pelo público, foi mesmo por sentir que já estava maduro. Eu escrever, escrevo quase todos os dias, mas stand-up só se evolui fazendo. Não há tantas oportunidades em Portugal, não sei quantas actuações terei ao longo destes quase quatro anos de stand-up, mas são poucas, comparativamente a pessoal que num ano faz 200 actuações. Então se formos lá fora, que é com o quem o pessoal nos compara a maioria das vezes, actuam cinco vezes por noite, sete dias por semana. Sabia que as pessoas que liam o blog iam com uma expectativa elevada e não quis defraudar isso. Esperei até ter um espectáculo consistente e que achasse que não ia desiludir ninguém. Não foi tanto em termos de público, acredito que há um ano não teria tantas pessoas a assistir, mas acho que já era um público considerável.

11- Neste teu espectáculo a solo existia um rap no início e final do espectáculo. É um talento dos tempos da adolescência na Buraca ou foi desenvolvido propositadamente?
Foi desenvolvido para isto, nunca tive especial talento, é o meu estilo de música favorita, o que ouço mais é rap e português, porque acho que são as músicas que têm a letra mais apurada e com mais mensagem, sempre apreciei muito a escrita do rap e pensei nisso. O final já o tinha escrito há uns anos, depois reformulei e era mais em modo poema do que propriamente musical, foi um desafio. Eu não tenho ouvido musical nenhum, nem jeito, nem flow. Foi uma luta com a métrica para aquilo encaixar, até estar ok. Se fosse feito por um rapper era mau, como é feito por um gajo que ninguém está à espera que faça rap, passa. Foi nessa onda, fazer uma coisa diferente que as pessoas não estivessem à espera e lá está, acho que cola bem com o facto de eu ser da Buraca, embrulhava bem o espectáculo e dava ali uma camada diferente.

12- Esgotas salas nos teus espectáculos, mas o que é que realmente te enche mais as medidas: a experiência stand-up ou um palco virtual entre ti e o público?
As duas. Se fosse há seis meses, antes de fazer esta tour, dizia que era a escrita, porque nunca me senti muito confortável a fazer stand-up. Sentia que aquilo podia correr bem, mas chegava ao fim e “Ok, está feito”, não tirava muito dali. Hoje não. Depois desta tour sinto que já me enche as medidas, que me dá prazer e que sinto falta de não actuar. Eu não actuava há um mês, actuei agora em Almada e senti “Ok, já estava a precisar disto”. É algo por que estou a começar a ganhar gosto, começo a descontrair um bocadinho mais e a conseguir divertir-me genuinamente em palco, então acho que as duas coisas me satisfazem. Mas a escrita acima de tudo, acho que é o que sempre me irá dar mais prazer. Apesar de tudo, também gosto muito de fazer sketches. Assim vídeos para a câmara, não tanto, mas sketches puros, sim. É um misto dos dois, mas acho que a escrita será sempre o meu foco principal.

13- Entre baptizados e funerais, também fazes eventos corporativos e muitos humoristas dizem que é aí que está o dinheiro. Fazes alguma cedência?
A partir do momento que me estão a pagar, se eles tiverem requisitos à partida eu aceito ou não aceito. Se me disserem numa empresa, “Não fales de religião aqui”, eu aceito, não parece ilegítimo se não quiserem tocar nesse assunto. Estando a contratarem-me, eu parto do princípio que já me devem conhecer, podem ter-me apanhado no Google e “Vamos lá ver este senhor como é que é, vem contar anedotas, se calhar”. Até hoje nunca tive nenhuma imposição. Eu vou lá fazer o que faço, faço um texto um bocadinho à medida da empresa, mas depois faço as piadas que faria noutro sítio qualquer. É possível que alguém fique ofendido, é normal; num espectáculo meu é mais difícil porque as pessoas que vão ver à partida conhecem, mas ali caem um bocadinho de pára-quedas, pode acontecer, mas é o risco. Nos eventos corporativos repetir nunca é muito bom, depois temos que fazer muito texto novo, mas desde que me paguem, está bom.

14- Quem foi o comediante que se tornou o teu role model?
Foram vários. Numa primeira fase, o Herman. Acho que o Herman Enciclopédia foi o programa de humor que mais me marcou, depois mais tarde os incontornáveis Gato Fedorento e o Bruno Nogueira, com todos os projectos que teve. Mas se tenho um humorista que é o meu ídolo é o George Carlin, acho que é um bocadinho transversal a todos os humoristas portugueses, a maioria dirá que é o Carlin, estava um passo acima dos outros todos. Se calhar com o Louis C.K. ou Bo Burnham, uma pessoa até se ri mais, mas o Carlin tinha ali umas camadas que fazem com que a pessoa veja várias vezes aquilo e encontre coisas novas. Não é que ache que o humor deva ter mensagem obrigatoriamente, mas se levarmos qualquer coisa depois do riso fica mais marcado, mais depressa vamos querer rever ou ver mais. Um filósofo com sentido de humor, acho que o Carlin era isso, mais do que humorista.

15- Falta de Chá tem mais de um milhão e meio de visualizações, a primeira temporada a passar na SIC Radical e estás a gravar a segunda. Como é que tudo começou e de onde nasceu a dupla com o Ricardo Cardoso?
Estávamos a fazer um workshop de escrita de humor e conhecemo-no. Já conhecia os vídeos dele, o Ricardo também já conhecia os meus textos e ele na altura tinha uma ideia de fazer uns sketches e perguntou se o queria ajudar a escrever. Vimos que havia ali uma boa dinâmica, e em vez de escrever cinco ou seis sketches, decidimos fazer uma coisa com 60 sketches, só assim uma loucura. Coloquei um post no Facebook a perguntar quem tinha material fotográfico ou de filmar e queria ajudar, e o Pedro Ramos, que é realizador e o dono da Até que Enfim Produções, disse: “Tenho aqui um materialzinho, vejam lá se querem”. Vimos uns clips que eles faziam de outras coisas mais corporativas e publicidade e nós “isto é uma qualidade do caraças”, mas ficámos naquela, estes projectos quando são gratuitos é sempre difícil irem para a frente porque há trabalho depois a chegar de outras partes e ficam na gaveta, mas assumimos ali todos um compromisso de tentar fazer uma coisa diferente, demorasse o tempo que demorasse. Estamos todos nisto pelo mesmo, ninguém está para ganhar dinheiro, pelo menos para já, é para fazer uma coisa diferente. E a segunda temporada está nos mesmos moldes, ninguém está a ganhar nada com isto, é uma aposta a longo prazo. Acho que conseguimos estrear em Setembro. Até conseguiríamos antes, mas apanha o Verão e como é uma época baixa de Internet, vamos esperar. Falta um terço ou menos para acabar e ainda é maior que a primeira em termos de sketches, devem ser cerca de 70/80, assim um projecto megalómano, mas que me dá um gozo tremendo, se um dia der dinheiro melhor. Acho que pelo menos em termos de visibilidade, também ajuda a mostrar-nos noutras áreas, portanto mesmo que não venha dinheiro daqui, vem depois por acréscimo.

16- De vez em quando também falas a sério, como num artigo na Visão em que te assumes hipocondríaco. Foi com essa reportagem que percebeste que já és uma figura pública?
Acho sinceramente que ainda não sou. O meu trabalho é reconhecível e tenho muito gosto que muita gente conheça o que escrevo e não faça a mínima ideia do meu nome e da minha fotografia, porque isso mostra que as pessoas seguem a página porque gostam do conteúdo e não pela minha cara bonita (de certeza). Sei lá, não é só porque aparece nas revistas ou assim, portanto tenho muito prazer nisso das pessoas seguirem o conteúdo e não a mim. Isso acho que aconteceu porque a jornalista da Visão pesquisou hipocondríaco no Google, o meu artigo apareceu nos primeiros e ela contactou-me. Não foi por eu ser conhecido, isso já aconteceu em várias situações, também no Prós e Contras. O pessoal encontra um artigo meu sobre um determinado assunto, depois foram ver e pensaram “Ele até tem alguma visibilidade, vamos convidá-lo”. Acho que é mais por aí do que propriamente ser figura pública, é uma coisa que nunca me atraiu muito, a fama, e continua a não atrair, é muito estranho. Mas sei que é quase a medida do sucesso nesta profissão, se as pessoas te reconhecem muito ou não. Apesar de a Maria Leal ser bastante conhecida.

17- Não é estranho teres um podcast com o Hugo Gonçalves chamado Sem Barbas na Língua e depois cortares a barba?
Teve que ser, para fazer de mulher e fazer de Hitler, no Falta de Chá. Agora já vai começar a crescer um bocadinho, nesse caso era 'sem barbas na língua', nem na cara. Mas sim, é estranho fazer isso. É uma chatice, um gajo ter isto que é quase como uma imagem de marca, até está no logo. Mas assim também faço a barba e ninguém me chateia na rua, ninguém me conhece, passo despercebido.

18- E agora vais ter um outro podcast sozinho. Ganha-se dinheiro com essas coisas ou contribui tudo para um produto comum?
Estou a pensar nisso. Sim e não. O podcast dá zero neste momento, estamos a tentar algumas marcas, para tentar monetizar, já temos uns números consideráveis para a realidade portuguesa. Mas acima de tudo dá-nos muito gozo fazer aquilo e acho que contribui para a marca pessoal. Fazer dinheiro online é muito difícil, a não ser bloggers de moda, pais e mães, ou viagens. No humor é muito difícil, principalmente para quem toque em alguns pontos sensíveis ou que tem algumas opiniões, as marcas têm um bocadinho de medo. Mas num futuro próximo será possível até o utilizador pagar pelo conteúdo. Acho que cada vez mais vai ser esse o modelo, pagar conteúdo premium, exclusivo ou mais antecipado, um bocado como faz o Unas no Maluco Beleza. Nunca será muito dinheiro, mas bocadinho a bocadinho pode ajudar. Acho que qualquer pessoa prefere que seja o público a pagar do que uma marca a fazer publicidade. Não tenho nada contra fazer publicidade, mas se for o público acho que é melhor.

19- Tiveste a honra de inaugurar a Dose Diária, uma nova newsletter do Sapo. O sarampo levou-te até à selecção natural, que mencionas frequentemente. És mesmo assim ou faz parte da personagem?
É um misto. Há dias em que acho, como diz o Ricky Gervais no último especial dele, “Tirem da lixívia os anúncios de que não se pode beber e a seguir faça-se um referendo” - só depois de os burros morrerem. Sou um bocadinho a favor disso, apesar de achar que uma sociedade darwiniana é terrível, porque é a lei da selva e devemos tentar ajudar quem está na mó de baixo, mas há pessoas que acho que só estão cá a ocupar espaço. É um bocadinho exagero, mas é também verdade, quando estou no trânsito a ver aquela abécula e penso, "esta gente devia-se espetar aí num muro agora a seguir”. E eu acho que genuinamente não iria sentir muita pena, mas se calhar se acontecesse depois sentia-me mal, portanto é assim um misto. Isto lá está, depois as pessoas pensarão o mesmo de mim, cada um tem a sua noção de inteligência e bom senso, e se calhar estamos todos certos e todos errados.

20- E o que é que a tua personagem Doutor G recomendaria aos leitores da Playboy?
Quais serão as dúvidas dos leitores da Playboy? Hmm não sei. O Doutor G só dá consultas em sede própria. Aconselho que vejam as meninas, observem e sintam-se inspirados, mas depois vão para o mundo real. Não se esqueçam que aquilo também tem muuuito Photoshop, e se virem uma celulitezinha ou uma estria, não fiquem a pensar que a senhora tem defeitos. Todas têm.

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