1 - Depois de mais de duas décadas no jornalismo, o melhor lado de ser escritor é teres passado a ser o teu próprio patrão?

Já não me sentia muito motivado para o jornalismo tradicional, ao fim de tantos anos a trabalhar em jornais e revistas começou--me a desinteressar e senti que o caminho principal era ser escritor, é evidente que aí és tu que determinas as regras da tua vida, o que queres fazer e como é que organizas os teus dias. Depois não sou só escritor, também gosto de fazer outras coisas, nomeadamente dar aulas na universidade, dou Economia do Desporto na Universidade Católica, que é uma área pela qual também tenho uma paixão grande. Uns programas de televisão, o Irritações na SIC Radical, agora vou ser comentador desportivo na TVI. Mas é uma actividade que só tem um senão, estava habituado a ter equipas à volta e a vida de escritor é mais solitária.

2 - Grande parte desse período foi passado como director de revistas masculinas, sete anos na Maxmen e quatro na GQ. Tens saudades de te pagarem para te divertires e descobrires mulheres bonitas?

Tenho, foi talvez a época mais divertida do jornalismo profissional, muitas vezes quando olho para a minha carreira jornalística sinto-me um privilegiado, porque estive mais de uma década no Independente, foi um jornal entusiasmante de trabalhar, de aprender lá. Comecei muito cedo, ainda tinha 21 anos e foi um jornal muito marcante para a nossa geração. Depois a Maxmen também foi uma aventura especial porque as revistas masculinas nessa altura não existiam, fomos nós de alguma maneira que criámos esse mercado em Portugal. Era uma receita particularmente feliz porque misturava o sexo e o humor com uma fórmula muito divertida e entusiasmante. Foi uma época de muita felicidade, tinha um bom salário e conhecia miúdas bonitas, conseguia divertir-me imenso a trabalhar. Depois também houve a época em que corríamos o país com festas, é algo que vou sempre recordar com uma nostalgia muito grande, foi uma época muito gira da minha vida.

3 - Achas que nos próximos anos voltaremos a assistir ao nascimento de um projecto a rasgar como o Independente?

É difícil, o mundo da imprensa mudou muito, sobretudo com a Internet e os novos canais de televisão. É preciso lembrar que o Independente nasceu em 89, havia dois canais em Portugal, RTP 1 e 2, as próprias rádios eram muito anacrónicas, a TSF estava a dar os primeiros passos, portanto o panorama mudou brutalmente, hoje tens 200 canais de televisão diferentes, imensas rádios e Internet por todo o lado, com sites, blogs, imensa informação. Todo esse ambiente mudou e é difícil fazer um projecto inovador na área do jornalismo escrito que possa ter de alguma maneira impacto como teve o Independente.

4 - Entretanto já vais com 11 romances publicados. Alguma vez imaginaste que ias ter fãs?

Não, eu não nasci escritor nem durante muitos anos da minha vida me via a mim próprio como escritor. Sabia que tinha leitores das minhas crónicas, dos meus trabalhos como jornalista, mas quando publiquei o primeiro livro, praticamente com 30 anos, é que descobri que isso existia, pessoas que compraram o livro e gostaram. Aí sentes vontade de ir seguindo esse caminho, de publicar o segundo livro, o terceiro e as coisas vão crescendo. Acho que escritor não é quem escreve um livro, é quem se dedica à escrita como forma de trabalho profissional, és escritor ao fim de dois ou três livros, toda a gente consegue escrever um. Aos poucos fui sentindo que tinha esses fãs, que tinha leitores e isso deu-me confiança para continuar a escrever e ter mais ideias.

5 - Pegaste em figuras e momentos-chave da história de Portugal, como Salazar, o Verão Quente, Lisboa na II Guerra Mundial, o terramoto de 1755 e agora D. Afonso Henriques. São os temas que dão melhores resultados?

Sim, dos 11 romances que publiquei, mais de metade são romances históricos. Ao fim de uns certos anos posso dizer que tanto o escritor como os leitores gostam mais dos romances históricos, isso não acontece tanto com os romances da actualidade. Não sei explicar exactamente porquê, mas as histórias da actualidade que faço talvez não tenham a força que das outras. Portanto isso leva-me a seguir por um lado o meu instinto natural, que é escrever aquilo que mais gosto e por outro lado aquilo que os leitores preferem, acho que nesse encontro de vontades vou provavelmente escrever mais romances históricos ao longo da minha vida do que romances da actualidade. Estou a escrever o terceiro volume do Assim Nasceu Portugal, relacionado com a vida de D. Afonso Henriques, e quando acabar essa trilogia, o mais provável é ir escrevendo romances históricos.

6 - Há o objectivo de criar uma personagem que seja a estrela de vários romances?

Quando imagino um romance nunca sei muito bem se aquelas personagens depois vão ter força suficiente para se aguentarem noutros livros. Já me aconteceu, no caso do Enquanto Salazar Dormia, escrever uma continuação, O Retrato da Mãe de Hitler, em que as personagens são basicamente as mesmas, porque achei que de facto aquelas personagens e aquela época mereciam uma continuação. No caso do Assim Nasceu Portugal, já pensei o projecto com uma trilogia, porque a vida de D. Afonso Henriques, sobretudo até à conquista de Lisboa é realmente muito cheia, com acontecimentos intensos e importantes para o nascimento do reino de Portugal. Há ali personagens históricas que acho que têm muita força, aguentaram bem dois livros e aguentam bem o terceiro, talvez até aguentassem mais outras aventuras para o futuro. Portanto isso depende da maneira como as próprias personagens crescem e depois se os leitores gostam deles ou não.

7 - Existe um grande desconhecimento sobre a nossa história recente?

Isso é uma afirmação um bocadinho difícil de fazer, há épocas que estão bastante bem estudadas e a maioria dos portugueses, pelo menos na escola e na universidade acabam por conhecer, mas há outras que estão pouco trabalhadas. Em dois dos romances que escrevi senti que essas épocas não estavam muito trabalhadas. Por exemplo, toda a gente sabe resumir o terramoto de Lisboa em três frases, mas como é que as pessoas viviam nessa altura em Lisboa? Como é que a cidade reagiu? Aí acho que há algum desconhecimento. Também toda a gente fala na II Guerra Mundial, uma grande guerra na Europa, no Pacífico, Portugal parece que não existia nessa altura. Às vezes vou à procura desses momentos para poder de alguma maneira valorizar também a minha história, contar algo que as pessoas não conheciam tão bem.

8 - No Assim Nasceu Portugal há partes curiosas, envolvendo os costumes da época, como comiam, a inexistente noção de horas e minutos… E o sexo, mudou pouco?

Acho que mudou pouco. Na época em que Portugal nasceu as relações eram muito abertas, vê-se isso pelos discursos da igreja, que criticava muito a maneira como as pessoas viviam. Havia uma noção, tanto no mundo islâmico como no mundo cristão de muita facilidade desse tipo de coisas, era absolutamente normal que jovens tivessem muitas mulheres durante a vida, várias ao mesmo tempo, as mulheres também tinham muitos casos com homens… É óbvio que existiram épocas da história da humanidade em que houve mais restrições, discursos morais que obrigaram as pessoas a mudanças de comportamentos, mas na Idade Média aquilo era tudo muito solto, a única coisa que incomodava verdadeiramente era a relação com pessoas de uma classe social muito mais baixa, ou seja, se uma menina nobre tivesse um caso com um agricultor, isso não era bem visto pela sociedade, agora que estivesse com um cavaleiro... Claro que o adultério, sobretudo o feminino, na cultura ocidental sempre foi um bocadinho mal visto, o masculino era absolutamente normal e todos os reis tinham várias amantes e imensos filhos. Não gosto de dizer que era uma devassidão, porque acho que também não era exactamente isso, se compararmos com o império romano, mas era uma época muito solta, sem grandes princípios morais nas relações sexuais.

9 - O mundo era mais violento nesses tempos?

Muito mais, hoje em dia não vivemos com a perspectiva da morte imediata, pode-nos acontecer se tivermos azar, um desastre de automóvel, ou numa situação de conflitualidade com alguém, agora é uma ocorrência relativamente rara. Na Idade Média as pessoas morriam com toda a facilidade, a vida deles era combater, quem combate com espadas e flechas e lanças arrisca-se a morrer a qualquer minuto, estavam preparadas para isso. Por outro lado também se morria mais de algumas doenças, problemas de higiene e coisas desse género, não era um mundo tão bem cuidado como o nosso. A vida era bastante difícil, o que também muitas vezes levava as pessoas a excessos, quando sentes que a morte está aí ao pé de ti se calhar saltas para cima daquela rapariga rapidamente, porque tens medo de no dia seguinte já cá não estares.

Fotografia Bernardo Coelho

10 - Como é que ainda ninguém pegou nos teus livros e os adaptou ao cinema ou TV?

Portugal não tem uma indústria de cinema muito forte, fazem-se poucos filmes e é natural que no cinema não existam tantas oportunidades. Na televisão já tens alguma indústria mas enfim, nunca aconteceu. Quer dizer, já existiram intenções e houve trabalho feito nesse sentido, mas nunca chegou a ir em frente. Tenho sempre essa esperança, que um dia as minhas aventuras cheguem a uma série ou um filme, mas confesso que também não vivo muito preocupado com esse assunto, isso já não depende de mim.

11 - Participas semanalmente no programa Irritações, na SIC Radical. É bom para aliviar o stress?

Sim, é um programa que me diverte fazer, sobretudo há ali duas coisas que são muito interessantes. Uma é o ponto de vista do programa, ou seja as irritações que as pessoas têm, isso não é muito habitual, são coisas que nos enervam no dia-a-dia, acho que é um ponto de vista giro, interessante e inovador. Por outro lado o painel é equilibrado e permite diferentes abordagens e pontos de vista, isso tem sido sempre divertido de fazer. Tenho gostado bastante, estou satisfeito com aquela participação.

12 - E depois tens o lado social, com fotos de família durante as férias em revistas da especialidade. É um mal necessário?

Eu não olho para as coisas assim. Seja pelos meus livros, seja pelos programas de televisão, ou os artigos que escrevo, há necessidade de comunicar com o público, normalmente quando trabalhas nessas áreas elas pressupõem um certo grau de exposição. Quando me pedem para aparecer em fotografias, seja com a família, seja sozinho, é algo que acho que é natural, faz parte da actividade que escolhi. Se calhar se fosse director de uma fábrica de salsichas não aparecia, porque o meu trabalho não precisava, agora uma pessoa gosta de ter o seu público muitas vezes comunica destas maneiras, aparecendo nas revistas, dando entrevistas, faz parte, nunca me senti desconfortável.

13 - Estás a pouco mais de um ano da chegada aos 50. Lidas bem com isso?

Vou ser honesto, não sinto muito o peso da idade, até porque fisicamente ainda não tenho muitos sinais. Tento ter uma alimentação saudável, faço desporto e o meu corpo tem um aspecto que às vezes as pessoas dizem que não é de 50 anos. Mas também acho que hoje em dia a maneira como as pessoas vivem é um bocadinho diferente e um homem de 50 anos já não é olhado como se calhar há 40 anos se olhava, como uma pessoa já mais velha. Pode andar de t-shirt como eu ando, hoje em dia o estilo de vida é diferente. Não penso muito nisso.

14 - Como é viver com o rótulo de filho de Freitas do Amaral, especialmente quando te querem atacar?

Faz parte, tu não escolhes a família. É evidente que a vida de político do meu pai exigiu um certo tipo de vida à família e isso teve coisas muito boas, também teve algumas menos agradáveis mas se calhar eu não teria conhecido tanta gente como conheço se o meu pai não fosse um político e uma pessoa conhecida em Portugal. Hoje tenho a sorte de ter como Presidente da República um amigo da família, que conheço desde os meus 10 anos, tenho a sorte de conhecer praticamente todos as personagens importantes de Portugal pessoalmente, tive a possibilidade de viver e compreender esse mundo que a maior parte das pessoas só olha com uma certa distância. Um político é sempre uma personalidade que gera opiniões críticas, a política é conflito, é adversidade, portanto há sempre quem critica e tu levas por tabela como filho. Há épocas na tua vida, como a adolescência em que isso pode ser um bocadinho mais desconfortável e sentires que estas a ter um tratamento especial mas não é por ti, é porque as pessoas gostam do teu pai ou porque não gostam e tens de saber lidar com isso, seja com o lado bom, seja com o lado mau. Mas nunca foi coisa que me tenha feito muita mossa porque acabei por construir a minha identidade como pessoa, segui os meus rumos e construi a minha maneira de ser. E hoje em dia acho que as pessoas já olham para mim de uma maneira diferente.

15 - Achas que o partido que ele fundou ainda existe?

Não nos podemos esquecer que passaram quarenta e tal anos, portanto as instituições podem ter o mesmo nome mas as mudanças políticas que se vão dando obrigam-nas a adaptar-se, seja ideologicamente, seja sociologicamente e portanto muitas vezes já não são exatamente aquilo que eram. O meu pai entra na política após uma revolução, que é um choque político muito forte num país e geram-se uma quantidade de movimentos novos e um deles é o CDS. A revolução era feita pela esquerda, portanto um partido que vinha defender a democracia cristã acabou por ficar posicionado como o partido mais à direita, quando se calhar o meu pai não era tanto à direita quanto isso. É normal que tenha havido um certo afastamento, porque de alguma maneira o nosso quadro político sofreu alterações, as pessoas reposicionaram-se, os próprios partidos também se reposicionaram.

16 - És licenciado em economia. Foi para agradar aos pais?

Não, sempre gostei imenso de economia e era óptimo a matemática, portanto era um caminho que gostava imenso. Ainda hoje gosto muito de economia, acho que me ajuda imenso a compreender o mundo. O meu problema é que não me via a trabalhar num banco ou numa empresa de consultadoria económica, queria mais, uma vida entusiasmante, mais rica e portanto acabei por fazer desvios em relação à rota do curso. Desvios para o jornalismo, para a literatura, para a televisão, mas continuo a gostar imenso de economia.

17 - E tens dado aulas de Economia do Desporto. Achas que é vista como uma espécie de música pimba da economia?

Pois, ainda tem um longo caminho para percorrer, acho que todo o desporto nasceu um bocado como uma espécie de entusiasmo de pessoas especiais, desde os Jogos Olímpicos e depois foi passando por várias fases, a profissionalização e mais tarde a comercialização e todas essas coisas. Hoje olhas para o desporto e de facto é uma indústria extremamente desenvolvida e apetecível, com imensa visibilidade, mas penso que as pessoas ainda não compreenderam que estás a falar de uma indústria económica. Tem regras próprias que é preciso compreender e tudo isso, mas acho que ainda se está a fazer esse passo, ou seja, também se tem que profissionalizar os dirigentes, têm de perceber muito bem o que é que estão a fazer, porque não é qualquer carola hoje em dia que consegue ser um bom dirigente de grandes empresas desportivas.

18 - O fair-play financeiro da UEFA veio melhorar o futebol?

O fair-play financeiro visava sobretudo impedir que os multimilionários injetassem quantidades industriais todos os anos nos seus clubes, independentemente dos prejuízos que tiveram, e isso tinha como consequências por um lado a inflação dos mercados de transferências para valores muito elevados, o que representava um perigo enorme para todos os outros clubes que não tinham capacidade para acompanhar, e por outro lado uma vantagem permanente. Se todos os anos puderes gastar milhões de euros em contratações, independentemente de dares prejuízos ou não, obviamente que vais ficar com uma equipa muito mais forte que as outras. Portante o fair-play financeiro pretendeu de alguma maneira obrigar os grandes clubes a não terem prejuízos permanentes, e desse ponto de vista acho que faz sentido um travão. O que não tenho a certeza é que o fair-play financeiro esteja a ser de facto bem aplicado, nisso tenho algumas dúvidas.

19 - Há quatro anos lançaste um livro que pretendia demonstrar que quem gasta mais em salários de jogadores e treinadores é normalmente campeão. Cá tem continuado a verificar-se?

Durante 10/12 anos foi assim, nos últimos dois houve ligeiras anomalias, o Benfica foi campeão apesar do dinheiro gasto em salários ter sido maior no FC Porto. Isso significa que essa explicação é normalmente válida em 80% dos casos, mas depois há outros fenómenos que também são importantes explicar, a influência do treinador, a capacidade que o clube tem para enfrentar momentos difíceis, mas parece-me evidente que normalmente a massa salarial é um indicador da competitividade do teu clube. Se tiveres uma massa salarial maior do que os outros tendencialmente isso significa que tens melhores jogadores e portanto a probabilidade de serem campeões é maior, agora isto não é infalível. O ano passado no nosso campeonato o Porto tinha a massa salarial maior mas cometeu erros, o segundo era o Benfica e portanto de alguma maneira já esperava que o Benfica tivesse essa possibilidade de ser campeão, a partir do momento em que o Porto descarrilou, porque há uma diferença, já não tão grande, mas ainda havia uma diferença em relação à massa salarial do Sporting.

20 - E esperavas um dia ver a Selecção a ganhar alguma coisa?

Claro, passei a vida toda a esperar e desejar que isso acontecesse. Curiosamente foi no ano em que eu talvez menos acreditasse. Houve anos em que estive absolutamente apaixonado pela Selecção, achava que era a melhor da Europa e foi uma pena não ter conseguido chegar à final em 2000, era uma Selecção fantástica a jogar de uma maneira espetacular. Em 2004 também fizemos um campeonato fabuloso, chegámos à final e depois tivemos aquele desgosto. E em 2006 o Mundial, pelo menos dessas três vezes e mesmo se recuar um bocadinho no tempo, em 84, a Selecção que chegou à célebre meia-final em Marselha, nesses momentos sofri muito com a ideia de que não fomos capazes de chegar lá, porque gostava mesmo da maneira como a Selecção estava a jogar. Desta vez sempre achei que não estávamos a fazer grandes exibições, não havia esse deslumbramento mas a verdade é que a equipa foi acreditando e conseguindo ultrapassar os obstáculos e olha, foi obviamente uma grande alegria. Sofri um bocado na final, custou-me bastante ver o Ronaldo naquele estado, depois de tudo o que fez. É incomparavelmente o jogador que mais deu à Selecção na vida toda, custa um bocado chegar ali e acontece-lhe logo aquilo. Mas claro que fiquei felicíssimo, como acho que todos os portugueses ficaram.

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