1 - De onde vem o nome DJ Kamala?

[Sorriso] Quando era miúdo, por ser mais gordinho, tinha a alcunha de Kamala, o lutador de wrestling. Quando comecei a pôr música os nomes que se usavam eram do tipo “DJ In The Mix”que, para mim, não faziam muito sentido. Mas também não me pareceu ter força com o João Fernandes. Por isso acabei por adoptar o nome que, apesar de tudo, é forte… e hoje já ninguém se lembra do lutador.

2 - Quando é que descobriste a música na tua vida?

Foi cedo. Cresci com um irmão que foi porteiro em casas como o Alcântara-Mar. Ele levava cassetes dos DJ que passavam música na altura e eu fui ouvindo. Cedo comecei a ouvir House e derivados, e percebi que gostava muito de Soulful. Na altura as casas grandes começavam a passar aquele Deephouse mais vocal e foi esse que me começou a entusiasmar. Quando cheguei aos 15/16 anos decidi que era mesmo DJ que queria ser. Tudo aquilo tinha um enorme fascínio.

3 - E foi fácil optares por essa via, ou tiveste resistência paternal?

Metade do caminho estava feito pelo meu irmão. Além disso continuei a estudar até me formar num curso que me deu algumas ferramentas na área do Marketing, Publicidade e Relações Públicas. Em todo o caso, o meu pai sempre me disse para fazer o que me fizesse feliz, desde que tentasse sempre ser o melhor. E é isso que eu tento ser! E a verdade é que para o ano já faço 20 anos de carreira como DJ.

4 - Como foi o teu primeiro gig a sério?

A primeira vez mais séria foi quando me convidaram para DJ residente no Coconuts em Cascais. Eu vinha de bares pequenos em Lisboa e passei para uma discoteca onde tinha que manter animadas durante 5 ou 6 horas mais de duas mil pessoas. Foi uma responsabilidade e pressão enormes, numa casa que teve DJs como o Pascoal — um “dinossauro” — de quem muito gostava e onde o meu irmão chegou a ser porteiro. Tudo isto fazia com que a casa fosse muito especial para mim e a responsabilidade pesou. Mas curiosamente e porque muita gente da linha me conhecia, sentia-me em casa e correu muito bem.

5 - E tinhas um ídolo que tivesses como referência quando começaste?

Não tinha um. Admirava muito características de DJs diferentes como o Pascoal, o Rui Vargas, o Rui Murka ou o Tó Ricciardi. De tal forma que acabei por ficar amigo deles e mais tarde pude convidá-los para projectos em que estava envolvido numa espécie de curadoria, quando fiz a programação musical no Estado Líquido, no Casino de Lisboa. Dou-te outro exemplo: cheguei a fazer viagens para o Algarve só para poder ouvir o Zé Black a tocar o melhor Deephouse que possas imaginar. Por acaso acabei por só o conhecer este Verão e foi muito engraçado porque ele acabou por me dizer que também já me tinha ouvido várias vezes e que tinha gostado muito. De resto, mantenho — também — essa minha veia de curadoria nos meus mais recentes projectos enquanto empresário, quer no Bosq quer no Rádio-Hotel.

Fotografia Arlindo Camacho / Wam

6 - O que é que faz um bom DJ? Se fosse uma receita culinária, quais seriam os ingredientes principais?

Diria que os ingredientes principais seriam talento, dedicação e gosto. Há hoje muitos pseudo-DJs que se levam pelo facto de poderem estar no spotlight e depois têm muito pouco talento, zero de dedicação e o gosto é aquele que se vê… estão ali porque são amigos de algum RP ou porque são baratos e a casa não tem dinheiro. Daí a dedicação ser fundamental. Eu já ensinei e já fui júri de concursos de DJ e aquilo que tento sempre passar é a dedicação e o respeito pela profissão, que são fundamentais para que os DJ profissionais sejam levados a sério. Quando era miúdo os meus amigos iam para a praia e eu ia para uma cave (o antigo Deep Club em Cascais, do meu amigo Lúcio Monteiro) praticar com os meus discos. Tens de ter talento e de ter gosto musical, mas a dedicação tem igualmente que ser enorme. Eu só sou o DJ que sou hoje porque passei horas e horas a descobrir músicas, a praticar e melhorar as minhas capacidades. No fim de tudo isto, tens de respeitar o teu público e tocares para ele. Tens que encontrar o registo de cada público dentro do teu espectro musical e casá-los.

7 - Já alguma vez correu muito mal? Já alguma vez pensaste: onde é que eu me vim meter?

Já, várias vezes. Já me aconteceu estar num local e pensar: estas pessoas estão todas viradas para outro lado. Mas só de uma vez não tive capacidade de dar a volta. Foi numa casa mais a norte e a coisa não resultou mesmo. Nos outros casos consegui sempre abrir o espectro, sentir para onde estava a pista a “inclinar-se” e consegui ir buscá-los.

8 - Como surgiram as festas Sweet, agora R&B Sweet Sessions?

Eu saí em 2009 do Estado Líquido e tinha uma vontade enorme de ouvir a música que eu tocava chegar às grandes pistas, o que não acontecia. O R&B e Hip-Hop era visto como uma coisa de minorias, de bares pequenos, apesar de ver que as pessoas gostavam e que aquela música comunicava com massas. Havia espaço nas grandes casas para Rock e havia Música Electrónica. As festas Sweet começam no BBC para pôr o R&B e Hip-Hop precisamente nas grandes pistas de dança, acabando por se fundir com as R&B Sessions do meu amigo Miguel Galão (que aconteciam no Garage), originando as R&B Sweet Sessions. Foi, no fundo, uma fusão das duas marcas com o objectivo de levarmos o conceito para o Algarve. Hoje são a referência máxima das festas de R&B e Hip-Hop em Portugal, plagiadas vezes sem conta. E digo isto com regozijo. Se fazes bem vais ter outros a quererem fazer também. Só fico um pouco desiludido com a incapacidade de se introduzir elementos originais, em vez da pura e absoluta cópia.

9 - Já actuaste no NOS Clubbing e agora assumes a Curadoria. Estás mais ou menos nervoso?

Os dois são arrasadores para os nervos, mas este ano é talvez ainda mais, porque tens uma maior responsabilidade, não só pelo teu trabalho como pelos artistas que vais buscar. O ano passado foi fantástico. Poder participar no maior festival português e, ainda para mais, tendo duas slots foi maravilhoso. Acabei por criar dois momentos distintos que tiveram um sucesso fenomenal, com público a encher a tenda (e à volta dela aos milhares) e com milhares de comentários positivos nas redes sociais. A tarde foi muito engraçada porque cada música que eu passava tinha o artista original a cantar ao vivo, o que teve um efeito tremendo. À noite já puxei por um set mais entre o Hip-Hop e o Electrónico. A coisa correu tão bem que me convidaram este ano para ter uma curadoria totalmente programada por mim. No fundo e como falávamos, o Hip-Hop tem espaço.

10 - Mas gostas de puxar pelo panorama nacional…

Sempre. Não é por acaso que dei o nome à minha curadoria de Nós e os Nossos. Temos artistas com enormíssimo talento nesta área e a prova disso foi a forma como, no ano passado, um público repleto de estrangeiros ficou colado a ver a actuação da tarde e dos artistas que iam por lá passando comigo. Estamos a falar de cerca de 10 mil a verem o AGIR, o Virgul, o Sam… foram tantos e tão bons que tornou a tarde mágica. Aliás, chegaram a dizer-me que parecia um número de magia, sempre a tirar coelhos da cartola! [Risos]

11 - Passaste já por grandes ambientes. Qual foi o mais esmagador? Tens um estilo favorito de música? O Hip-Hop é o teu “bebé”?

A música é o meu bebé. O que me move é o SoulFull. Eu tanto toco Hip-Hop, como também toco R&B, como vou ao Soul, ao Disco, ao House, ao DeepHouse ou ao Drum&Bass e Reggae… Essa é a minha identidade. Gosto de começar, por exemplo no Hip- -Hop e acabar no Drum&Bass. Daí ter tanto respeito pelos DJ residentes. Eles têm de fazer uma pista sobreviver horas a fio. Eu sou do tempo de ir ao Bauhaus e haver hora para entrar o Rock e hora para o Tecno, tendo eu amigos que esperavam no bar pela hora da sua música favorita. Esta é a minha génese e é isso que eu tento: dar música variada a todos os que ali estão.

12 - E qual foi a proposta mais atrevida que já tiveste? E a mais divertida?

Não haja dúvida que aquele posto de DJ te dá uma enorme exposição, daí surgirem agora tantos novos pretendentes a DJ, mas tenho tantas histórias para contar seguramente como qualquer barman ou porteiro. A história mais especial que te posso contar é que foi à noite, a pôr música, que conheci a minha mulher. Essa é, sem a mínima dúvida, a mais especial. Ela foi-me apresentada por um amigo, achou-me graça a pôr música e eu também lhe achei graça… até hoje. Mais especial é difícil.

13 - O que é mais difícil: surpreender o público todos os fins-de-semana como DJ ou conquistar a noite lisboeta com duas casas como o Bosq e o Rádio-Hotel?

É incomparavelmente mais difícil conduzir as duas casas. Toma muito mais de ti o teres de pensar na identidade de uma casa (decoração, música, público), gerires staff, gerires RP, gerires comunicação… é muito complicado e consome muito mais tempo. Não que seja fácil ser DJ, ainda para mais com a quantidade de datas que — felizmente — tenho. Mas estes dois projectos são muito complicados, até porque não quero que sejam projectos fugazes, de dois ou três anos. O Rádio-Hotel já está no seu quarto ano e o objectivo é que ambos perdurem por muito e bom tempo.

14 - E qual é o segredo destas duas casas que tomaram conta das nossas noites?

Não há uma fórmula secreta. Se calhar posso-te confidenciar dois ou três pormenores que podem ajudar a perceber o resto. Quer um quer outro partem do pressuposto de faltar na noite projectos de inegável qualidade (e não quantidade). Nós trabalhamos para um público acima dos 25, que procura um ambiente confortável, com boa música e um bom serviço. Preocupo-me mais em saber se as pessoas tiveram uma noite bem passada, de forma divertida e se têm vontade de voltar; do que se a casa estava cheia até ao tecto e quanto facturei. É um pouco romântico, bem sei, mas a minha preocupação é dar às pessoas a garantia que vão ter uma excelente noite, dentro destas premissas. Se é este o segredo ou não.. não sei. Mas é seguramente diferenciador. E há, claro, as minhas equipas.

15 - A noite é extremamente exigente para a vida de casal. Como é que uma relação sobrevive?

Para nós é muito fácil. Eu não conheço a minha mulher há dois dias. Nós estamos juntos há 14 anos. O eu ser DJ não é uma novidade para ela. Ela ser figura pública não é novidade para mim. Nós crescemos juntos neste ambiente e estamos muito confortáveis com as vicissitudes das nossas vidas profissionais. E agora, com um filho, até ajuda termos os horários trocados porque quando eu estou a dormir a Vanessa (Oliveira) está acordada e vice-versa. Portanto, é tranquilo.

Fotografia Arlindo Camacho / Wam

16 - O nascimento do teu filho mudou-te muito?

Eu mentiria se dissesse que não. O meu filho foi bem planeado e muito querido. [pausa] Eu duvido que qualquer pessoa que tenha um filho torne a olhar para a vida da mesma forma. Mantenho a forma de ver e estar na vida, mas a minha prioridade passou a ser aquela amostra de gente que dá pelo nome de André. A verdade é que está nas minhas mãos o futuro daquela criança que eu tanto amo… por isso, é impossível estar a dizer que não mudou.

17 - E achas que ele vai dar um bom DJ, um bom Empresário ou um bom Apresentador de TV?

Eu acho que ele vai ser feliz naquilo que quiser fazer. Como te dizia antes, o meu pai dizia-me que não era importante se eu fosse Presidente da República ou Varredor de Ruas. O que importava era que fosse o melhor. Daí os valores que passava e que eu retive da dedicação e do trabalho. Em relação ao André é também o que eu espero dele: escolhendo o que o faz feliz, que se dedique e trabalhe para ser sempre o melhor.

18 - E ainda tens tempo para o Brown Sugar na Rádio Cidade. É o oposto do que fazes, a ver os olhos das pessoas… é uma espécie de “tubo de ensaio”?

Não, vejo essencialmente esta parceria com a Rádio Cidade como uma forma de levar a minha música a um maior número de pessoas. Eu tenho atenção em perceber como conjugar aquilo que toco, com o público daquela rádio. Curiosamente, o claim da Cidade passou a ser “Pop, Hip-Hop e R&B” o que mostra bem o peso que começa a ter em Portugal, como no mundo. O Brown Sugar é um veículo para eu poder apresentar o que de mais recente se anda a fazer no Hip-Hop, o que me deixa extremamente feliz. Muito mais do que uma função lúdica, aqui tenho uma função didática.

19 - Estavas à espera da “explosão” de popularidade que teve esta tua mais recente parceria com o AGIR no tema Ela é Boa?

Não e sim. É um NÃO, porque ninguém está à espera de lançar um vídeo no YouTube e ter meio milhão de visualizações ao fim de apenas uma semana. Ninguém está à espera de ter a música a tocar nos concertos do AGIR e o público cantar em coro o refrão. Ainda mais sendo algo tão despretensioso como é o caso deste Ela é Boa, que apenas brinca com o estereótipo da mulher fatal, que demonstra bem o poder viral da Internet. Mas ao mesmo tempo é um SIM, porque quando se trabalha com um génio como o AGIR, tudo pode acontecer. De resto, este tema é apenas a primeira pedra de um novo projecto que estou a construir com ele e que deverá envolver outros artistas, mas para primeira pedra não está nada mal…

20 - Para finalizar, porquê o número 23?

[risos] Ora aí está uma pergunta que nunca me fizeram. É simples: eu sempre fiz desporto e o ir tocar com uma jersey própria sempre fez sentido, sendo que o número 23 sempre foi o que envergava o meu ídolo, o Michael Jordan.

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