01 - Nasceste em França e em 2001, ainda criança, vens para Portugal. Foi um grande choque?

Bastante, porque eu não queria. Só viemos porque o meu pai e o meu irmão queriam vir. Mas fui estudar no liceu Francês e isso suavizou a transição porque continuei a falar francês. Quase não falava português, aprendi a ler as placas a dizer Porto, Lisboa, Algarve. Mas ao fim de um ano já falava português. E sempre estive inserido na comunidade portuguesa em França, pelo que cedo me senti português.

02 - E nessa altura quais eram os teus “Sonhos de Menino”?

[risos] Em França queria ser médico mas percebi que não ia funcionar porque tenho pavor a sangue… vejo sangue e desmaio logo. Depois, quando vim para Portugal, rapidamente percebi que queria ser futebolista.

03 - E aos 10 anos as meninas como é que era? Já havia meninas à volta?

Havia à volta porque eu era o “amigo”. Eu era chubby [gordinho], mesmo muito chubby quando era puto! Então eu era o “amigo” delas, aquele que lhes dava um chocolate aqui, um ombro amigo ali… era o confidente. E depois, de mansinho, tentava ver se acontecia mais alguma coisa. Mas nessa altura as miúdas não me ligavam muito.

04 - Como é que lidas com a transição de um miúdo, que chega e não conhece ninguém, até a alguém que todos conhecem na rua?

Nunca pensei muito nisso. Também, por várias razões, eu não saio muito, o que ajuda. E quando saio e sou abordado por fãs, tento ser o mais simpático que consigo. Um cantor francês meu amigo sempre me disse: os fãs nunca vão perceber se tiveste um dia mau!

05 - Qual foi a maior loucura que viste uma fã fazer por ti?

Talvez uma miúda que vi ter tatuado na perna Haverá Sempre uma Música, que é um dos meus temas. Mas também já tive miúdas deitadas na minha cama de hotel, sem eu saber. Entras no quarto e lá estão elas! Tu só pensas “queres ver que me enganei no quarto?”. Mas tens a chave na mão e pensas “não, este é o meu quarto!”… WTF?

Fotografia Bernardo Coelho

06 - Foste jogador do Sporting CP. Mesmo que não te lesionasses, achas que acabarias,
da mesma forma, no mundo artístico?

Acho que nunca! Sempre que faço uma coisa vou ao limite. Queria o futebol e tentei de tudo até dizer “ok, não dá!”. Joguei no Sporting, no Real Massamá, no Atlético Clube de Portugal, estive no Fofó, no CAC da Pontinha… mas nada dava certo e tive que perceber que não era para mim.

07 - Em 2010 a tua vida começa a mudar verdadeiramente, em termos profissionais. Foi algo deliberado ou aconteceu naturalmente?

Acho que é um bocado dos dois. Eu entro no workshop dos Morangos com Açúcar para conhecer miúdas. Na altura pensei “as miúdas são lindas, eu posso beijá-las todas e no final vou à minha vida” [risos]. Aliás, até entrei como David Antunes. Mas o problema é que me seleccionaram. Ainda andei dias a pensar como dizer-lhes que não tinha grande interesse em representar. Mas acabei por fazer uma temporada, a pensar “depois paro e volto a estudar”. É durante esse ano que, por gozo, escrevo umas musiquitas que se tornam no meu primeiro álbum.

08 - E lanças o disco 1, um sucesso esmagador com produção da dupla Tefa e Blasta. Nessa altura tens a noção exacta do que seria o produto final?

Zero, de todo! Pensei mesmo “deixa cá ver até onde é que consigo levar isto”. O primeiro single sai e começa a correr bem e começamos a pensar no álbum. Tentei os produtores e colou. Foi tudo acontecendo. Não tinha grande vontade em ser mais um cantor na minha família, mas tudo estava a correr tão bem e eu estava a gostar tanto… o disco é platina logo à saída.

09 - Tens 12 milhões de visualizações no YouTube com o teu primeiro disco, um record. Aliás, são vários os records, uns a seguir aos outros. Não é suposto, pois não?

Nada! Quando me diziam “ah, o disco é dupla platina”, eu respondia “tranquilo”. Não estava nem aí. Depois habituei-me a que me chamassem Cantor. Mas sobretudo a partir do segundo álbum, quando comecei a perceber que queria escrever mais, é que percebi que queria dedicar-me à música a 100%.

10 - Em 2012 tens uma digressão pelo país e és visto por meio milhão de pessoas. No meio de tanta gente, há momentos de solidão?

Ya! Em 2012 foi quando lancei o segundo álbum, que na verdade não correu tão bem como o primeiro, apesar de ser disco de platina. Estava com muita gente mas sentia que era pelo primeiro álbum. Aí sentes a pressão de manter o sucesso e a desilusão de não estares a conseguir fazer melhor.

11 - Quando falamos do disco A Força Está em Nós, falamos de participações de Snoop Dogg, Anselmo Ralph, Boss AC. Sentiste que precisavas de reforços para te garantires ou foi uma necessidade de crescer como músico?

Nesse álbum eu só quis cantar com as pessoas que me tinham marcado musicalmente. O Snoop, por exemplo, marcou-me completamente porque foi das primeiras coisas que ouvi quando era miúdo. O Boss AC, a nível de rap português, também. Então foi mais um partilhar.

12 - Em 2013 fazes um concerto no Coliseu dos Recreios. O Coliseu dá medo?

Não, nessa altura ainda estava tipo “Ya, vamos curtir!” [risos] Não pensava nada nisso. Foi mesmo a partir dos dois Coliseus, quando faço Porto e Lisboa em 2014, que comecei a perceber a importância daquilo. Até porque aí já tinha passado pela desilusão do segundo álbum. Lembro-me que no primeiro Coliseu faltava-me três, quatro meses para lançar o segundo álbum.

13 - No terceiro disco manténs colaborações com outros músicos (Ana Free, Plutónio e C4 Pedro) mas o que mais marca o álbum é uma grande história de amor. Como é que surgiu isto?

Nunca começo por pensar o conceito do álbum. Faço várias músicas e depois o conceito vai surgindo sozinho. Foi o que aconteceu aqui. Já tínhamos quase todas as músicas e fui começando a perceber um fio condutor para todas elas. Daí partimos para a ideia de oito músicas, todas com vídeo, e todas interligadas. Quero sempre arriscar um pouco mais e aqui tenho A Dama do Business, uma cena forte, adulta e para um público adulto. Para maiores de 18! Até a capa do CD é mais ousada. Quero ser sempre o mesmo mas distanciar-me do conforto de fazer sempre o mesmo. Quero arriscar como já tinha começado a fazer na Primeira Dama.

14 - Tens uma estreita ligação com o digital. A Primeira Dama, por exemplo, já passou os 6 milhões de visualizações. Achas que para um artista da tua geração é essencial esta ligação ao digital, às redes sociais?

Sim, sem dúvida. Acho que é essencial ter a ligação ao digital mas, para teres uma carreira, é essencial teres uma ligação com o mundo “físico”. Amanhã as visualizações desaparecem, porque são virtuais. O disco de Platina, é físico. Está na parede. Não desaparece nunca. Eu digo que tenho milhões de visualizações e o meu pai responde-me “e eu sou tripla Platina!” É como se ele jogasse na Champions League e eu num campeonato de segunda.

Fotografia Bernardo Coelho

15 - E daqui a cinco anos? Não poderá acontecer que, sendo tão forte no digital, popularizes as músicas por esse meio e saltes o processo da venda do disco, directamente para os concertos?

Acho que não. Inicialmente na minha carreira tinha mais força no físico, pouco a pouco é que fui ganhando mais força no digital mas sempre tive, graças a Deus, força no físico. O primeiro álbum foi dupla platina, o segundo platina, o terceiro estamos a chegar a platina brevemente. O disco é sempre aquela cena…

16 - Quer dizer que apesar de tudo a métrica de sucesso continua a ser os discos vendidos?

É, porque as visualizações, quando o YouTube acabar, acabam também. São virtuais. Mas o galardão é sempre o lado institucional… não pões o YouTube na parede. Podes vir a ter um dia mais receitas no digital, mas com os discos estás noutro nível, no “recreio dos grandes”, como dizem os franceses.

17 - Não gostas de aviões, de ir ao ginásio e de falar ao telefone. Se pudesses acabar com uma destas coisas, qual seria?

Ginásio! Sem dúvida! O bom era um gajo ter o corpo como se vê nas revistas mas sem treinar. Era um comprimido e… pum! Odeio injecções, mas se levasses uma injecção e ficasses em forma a poder comer toda a “porcaria” que quisesses… acho que levava. É que não é só o que treinas, mas é também o que não comes, o que é estúpido: devias treinar para poder comer tudo!

18 - Como é que é um jantar em casa dos Carreira? Hoje vendi mais discos que tu?

Não. Juntamo-nos à volta do meu pai, que é quem cozinha — ainda que eu esteja a tornar-me num óptimo cozinheiro também, e falamos um pouco de tudo. Depois, quando o ambiente está calmo, eu tento destabilizar tudo, brincar com eles e só paro quando já armei alguma confusão! [sorriso]

19 - Qual foi o grande conselho, ou ensinamento, que os teus pais te deram e que um dia gostavas de passar aos teus filhos?

O meu pai disse-me sempre, toda a vida, que antes de ser meu pai queria ser o meu melhor amigo. Acho que isso é mesmo muito importante. Gostava de passar isso a um filho.

20 - Achas que um dia o teu pai vai ser, simplesmente “aquele senhor é o pai do David Carreira”?

Sabes que isso já acontece, em França. Aliás, o meu pai goza muito com isso a dizer “estou farto que me digam que sou o pai do David”. Sabes, ele vai aos programas de televisão em França e a malta diz “temos aqui o pai do David Carreira”. É engraçado mas ele já se resignou e vai-me dizendo “tens que voltar a lançar um álbum em França. As pessoas estão à espera…”

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