1 - Terminar a ligação com a Red Bull foi uma decisão tua?

Terminei a relação com a equipa de Fórmula 1 da Red Bull Racing, mas em paralelo assinei um contrato de embaixador da marca com a Red Bull, a bebida mesmo. No fundo fiquei a ganhar, porque poupo cerca de 60 dias de trabalho, não tenho que ir à fábrica fazer simuladores, não me mandam para a China e para a Malásia, em plena época de DTM, para ser piloto de reserva de Fórmula 1... Esse tempo passou e teve que acabar, e pronto, dá-me mais tempo para me dedicar aos campeonatos em que me tenho de mostrar, como o DTM e a Formula E, a minha carreira vai vingar a partir de agora aí.

2 - Mas sentias orgulho quando um carro testado por ti se sagrava campeão do mundo, certo?

Claro, ainda por cima nas primeiras temporadas fiz mais de 170 dias de simulador por ano, testei o carro várias vezes, nos meus primeiros seis meses como piloto Red Bull testei os quatro carros campeões do mundo. Por exemplo, em 2013 fazia muito simulador e o Vettel ganhou para aí 14 corridas das 19, faz-nos sentir parte daquela equipa, daquele sucesso. Acho que vou sentir um bocadinho falta disso, mas faz parte.

3 - A Red Bull é um projecto de topo. Nas equipas mais pequenas de Fórmula 1 ainda conseguias entrar, se tivesses patrocinadores que pagassem o suficiente?

Consegues, vimos pilotos a entrar com 25, quase 30 anos, mas levam uma mala cheia de dinheiro. Acho que não devia ser assim, é a mesma coisa que se eu pagasse para jogar no Real Madrid ao lado do Cristiano Ronaldo, não faz sentido. O problema é que quando aceitam uma começam a aceitar outras e quando esta crise grande bateu, aí há cinco ou seis anos, muitas equipas viram-se em situações complicadas e obrigadas a aceitar esses pilotos. Mas nunca foi a minha filosofia de carreira, nem de vida, e prefiro não estar na Fórmula 1 do que estar lá a pagar. Sou um atleta, um piloto profissional e como dizia no meu contrato, no dia que me sentasse para fazer uma corrida de Fórmula 1 eles tinham que me pagar o salário. Acho que tem que ser assim.

4 - Houve algum pormenor na F1 que te fez pensar “aqui trabalha-se mesmo a sério”?

Muitos, por exemplo, na fábrica da Red Bull, para andarem dois carros Sábado e Domingo, semana sim, semana não, são empregadas 850 pessoas. A fábrica não pára, desliga duas semanas por ano, a semana do Natal e a primeira semana de Agosto, que é obrigatória para todas as equipas da Fórmula 1. De resto trabalha-se 24 horas por dia e é incrível, empregar 850 pessoas para fazer dois miúdos andarem às voltas.

5 - Com 24 anos ainda tens uma longa carreira pela frente?

Espero que sim, esse é o plano. Acho que estamos bem encaminhados, estar a representar uma marca mundialmente conhecida como a BMW, seja na China ou em Portugal é óptimo, há sempre uma garantia de futuro, dependendo de resultados, claro. Mas como atleta de alta competição preciso de ter essa pressão, de precisar de fazer boas performances para manter o lugar, sempre vivi bem com isso.

Fotografia Bernardo Coelho

6 - Vais continuar no DTM, onde a BMW tem quatro equipas e oito carros. As condições são iguais para todos?

São iguais para todos, a BMW nisso é muito justa, nalgumas os pilotos estão mais limitados, gostavam de fazer isto ou aquilo na afinação do carro e a casa-mãe não deixa. Nós somos aconselhados, “olha que não vás por aí, faz isto assim”, mas se eu quiser muito mudar uma coisa no carro e ir contra tudo e todos sou autorizado. Ainda não chegou a esse ponto. E ainda bem que não, felizmente não foi preciso. Vou ter um engenheiro novo que vem da Fórmula 1, da Sauber e temos que trabalhar bem na pré- época para ele se conseguir integrar ao máximo no DTM e depois evitarmos aqueles erros de rookie, que neste caso vai ser ele, um engenheiro com 40 e tal anos, muito experiente mas estreante no DTM.

7 - Foste o primeiro português a vencer no DTM. Este ano dá para mais?

Tem que dar, esse é o objectivo. O DTM é estranho, porque de um dia para o outro um carro bom torna-se um carro mau. É muito complicado, porque é tudo tão perto, tão ao detalhe que se falhamos um bocadinho na pressão dos pneus, ou na altura do carro porque o ar ficou mais denso, ou a aerodinâmica não está no ponto, já é suficiente para andarmos ali em 15º ou 20º. Este campeonato ganha-se por regularidade, por isso não podemos ter estas corridas de andar lá atrás, tem de se pontuar sempre, e esse é o grande objectivo deste ano, ir atrás da consistência.

8 - Sabes se vai continuar a existir um carro da Playboy?

Não sei ao certo, já há anos e anos que existe. Espero que continue, porque várias vezes me qualifiquei ao lado dele, e na grelha é porreiro, tem sempre lá duas coelhinhas e dá para distrair um bocado naquela meia-hora antes da corrida. [risos]

9 - Também tiveste uma vitória marcante em Macau. Qual foi a que consideras mais importante da carreira?

Talvez essa, até porque foi assim um bocado de pára-quedas. Estava numa altura da minha carreira em que tudo saía bem, ganhava em todos os carros que andava e esse foi o ultimate test, quase. Meteram-me num Fórmula 3, em que não andava há um ano, e cheguei lá fiz a pole position, ganhei a corrida e foi inacreditável, saiu tudo bem. E logo em Macau, que ainda tem muita gente a falar português, foi quase como ganhar em casa, essa vai ficar na cabeça muito tempo. Macau é a minha pista preferida, a minha e a de muitos pilotos que estão na Fórmula 1. Com um Fórmula 3 é a combinação perfeita, podias lá pôr um Fórmula 1 que já não ia ser a mesma coisa. No ano passado fizeram-me novamente uma proposta, infelizmente não fui, mas estava doidinho para lá voltar.

10 - Também corres na Fórmula E. O futuro é eléctrico?

Sim e não. Como piloto adoro barulho, quanto mais vibrações e potência tenha o motor, melhor. A Formula E acaba por ser completamente o oposto, o carro tem muita potência, o que é giro, mas não há barulho, vai um bocadinho contra tudo aquilo que é o desporto automóvel. Se os biliões de pessoas que andam de carro todos os dias conduzissem carros eléctricos, se calhar o mundo daqui a cinquenta anos podia ser totalmente diferente do que vai ser. Acho que é importante a Formula E existir para colocar isso na cabeça das pessoas, e até ajudar no desenvolvimento. Mas como piloto sento-me num DTM e dá-me mais gozo.

11 - E o barulho, artificialmente dá para disfarçar?

Não é o objectivo. Eventualmente, depende das jogadas de marketing, todos os anos o marketing muda um bocadinho, mas nesta fase inicial é engraçado vermos os dois tipos de público, os fãs que chegam lá e dizem “pá, isto é inacreditável, isto é o futuro” e depois vemos aqueles fãs de Fórmula 1 de há 20 anos “isto não é um carro de corridas”. Eu próprio aprendi a lidar e a gostar da Fórmula E, sou sincero, ao início também não era o meu género.

12 - Uma das maiores curiosidades desse campeonato é o Fanboost. Explica-nos melhor como funciona e se fazes alguma coisa para tentares subir no ranking?

O Fanboost é um bocado uma máfia. A ideia essencial daquilo é que se pode votar uma vez por dia no piloto que queiras, num dos vinte, e os três mais votados têm 6 segundos de mais potência na corrida. Não vai ajudar a ganhar nem a perder uma corrida, mas é melhor ter do que não ter, quanto mais não seja para os outros não terem. Tem havido muita maradice com os votos, malta a comprar servidores e de repente, a cinco minutos da corrida, os votos de alguns dão um salto, por isso neste momento sou um bocado contra isso, não anuncio nem peço nada. Fizemos promoção na primeira deste ano, estive à frente da votação na semana toda e a cinco minutos da corrida caí para aí para sétimo, chateei-me com isso. Enquanto não for melhor controlado não vou voltar a pedir.

13 - Estiveste também pela segunda vez como convidado na corrida inaugural do Stock Car Brasil. Como é que aconteceu e porque fazem esta corrida de duplas?

Muitos campeonatos podiam aprender com esta iniciativa, é a mesma coisa que se na primeira corrida de DTM do ano fosse obrigatório cada piloto ter um convidado, em vez de uma hora de corrida cada um fazia meia-hora, e um país como o Brasil trazia ex-pilotos de Fórmula 1, acho que dá ali um grande boost ao campeonato e penso que na Europa se devia fazer mais coisas assim. Fiz com o Allam Khodair, muito rápido, chamam-lhe o japonês voador. É brasileiríssimo, só que tem olhos meio à japonês e anda muito depressa. Ele é colega de equipa do Rubens Barrichello e o Augusto Farfus, que é meu colega de equipa no DTM, foi o convidado do Barrichello, então temos ali um fim-de-semana engraçado, é uma corrida inacreditável, estamos na grelha com trinta e tal carros, bancada cheia, começa a dar o hino do Brasil, é giro.

Fotografia Bernardo Coelho

14 - É simples pegares num carro de qualquer tipo e correres?

Felizmente tenho guiado tantas coisas diferentes que hoje em dia saltar de carro em carro já não é tão complicado, até é uma coisa boa, uma mais valia. Estes pilotos que andam há dez ou quinze anos no DTM, garanto que sentas um deles num Fórmula E e vai ser complicado demonstrarem alguma competitividade naquele primeiro fim-de-semana. Na altura da World Series fazia GP3, Fórmula 1 e Fórmula 3, agora DTM, Stock Car, Fórmula E, guio um bocadinho de tudo e não me faz assim tanta confusão.

15 - É pelo gozo, dinheiro, experiência, ou todas as anteriores?

Gozo acima de tudo, só aquela sensação de ver aquelas pessoas todas, aquela competitividade. Obviamente isto é a minha vida, é o meu ganha pão, estou a trabalhar para a velhice, se tudo correr bem aos 40 anos ainda posso estar a correr, mas hei-de estar a parar, num mundo perfeito seria essa a idade. Depois é complicado continuarmos a nossa carreira, há malta que vai comentar para a televisão. O dinheiro é importante como tudo na vida, toda a gente acorda de manhã para ir trabalhar e construir a sua estabilidade. Eu faço o mesmo, mas tenho a sorte de fazer o que mais gosto na vida, não acordo a torcer o nariz ou seja o que for, até acordo contente, por isso sei que sou um sortudo.

16 - Há alguma categoria em que não te vias, por exemplo camiões?

Camiões não, mas gostava de ir para o Dakar. Ando de mota na terra desde puto e adorava fazer um Dakar, principalmente de mota. Só que desconfio que me matava, por isso tinha de ser de jipe ou de carro. Mas gostava de num futuro próximo, até daqui a dois ou três anos, conseguir fazer um Dakar.

17 - Existem pormenores no automobilismo de que não gostas?

Então não há, isto não são só coisas boas, temos muitas coisas más, muitos dias fora de casa. Quando estava a começar, ainda não era ninguém e vivi numa oficina em Itália. Vivia mesmo numa oficina, com quatro paredes, tinha uma cama, uma cozinha, uma casa-de-banho, abria a porta estava na oficina, com 16 anos, a viver sozinho em Itália. Ia almoçar a casa da avó de um mecânico. No ano passado apanhei 180 voos, não são só coisas boas, é complicado termos a nossa vida aqui em Portugal, manter a forma física, comer sempre bem, com estas viagens todas, as horas a trocarem. E não é fácil agradar a toda a gente, sendo contratado pela BMW, Fórmula E e equipa da Fórmula 1, com as três a tentarem exigir o máximo. “Olha preciso de ti 10 dias aqui”, depois outra “Preciso de ti 20 dias aqui”, “olha agora tens de voar...”. Depois da corrida no Brasil tive que vir um dia a Munique, porque a BMW queria que lá estivesse nessa segunda-feira e na terça-feira voltei para o México, onde tinha a corrida da Fórmula E, quando podia ter ido directo do Brasil para o México, por isso não são só coisas fáceis.

18 - Com isto tudo, onde vives actualmente?

Consegui mudar-me aqui para Portugal outra vez. Tive um intervalo de três anos onde vivi em Inglaterra, ao lado da fábrica da Red Bull, mas mal percebi que não ia entrar na Fórmula 1, agarrei nas malas e no dia a seguir apanhei um voo para Portugal. Aqui é uma qualidade de vida completamente diferente, Portugal é Portugal. E Lisboa hoje em dia tem um dos aeroportos mais internacionais, no máximo uma escala em Londres ou na Alemanha leva-me a todo o lado, por isso não é complicado.

19 - Quem é a nova promessa portuguesa?

Eu tive uma sorte em ter uma família que acreditava quase mais que eu, e num momento difícil era “vamos tentar outra vez”, e vi pilotos com muito talento na minha geração, que tinham mais corrida até e que era “vá, vai mas é estudar, vamos parar”. Obviamente que é um desporto caro, é preciso alguma estabilidade financeira, pelo menos para dar o empurrão inicial, e depois pronto, é acreditar. Neste momento temos aí dois ou três miúdos que acho que conseguem se safar, um deles o Henrique Chaves, que passou agora para os Fórmulas, vai este ano disputar o campeonato da Europa de Fórmula Renault, e vai ser um bocadinho o ano do vai ou racha para a carreira dele, porque pronto, tem de se provar, é o ano em que ele tem de mostrar resultados. Acho que ele é capaz, tem talento para isso, mas estive com ele há pouco tempo e disse-lhe que se não for Fórmula 1, há muita carreira além disso. Felizmente vou conseguir viver disto nos próximos dez ou quinze anos, se tudo correr bem. Obviamente a Fórmula 1 é o objectivo de três mil miúdos que andam para aí a correr e só há lugar para vinte. E com a política de hoje em dia, com as crises e não sei quê, é um mundo quase impossível para um português, sem querer desmotivar ninguém, acho que se tem de acreditar.

20 - Onde é que te vês daqui a dez anos?

Com um campeonato de DTM no palmarés, um de Fórmula E, casado, com filhos e tenho que ter ido pelo menos a uma festa na Playboy Mansion. [risos]

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