01 - Qual foi o primeiro disco que compraste?

Sabes que eu tenho um pai Disc Jockey que sempre colecionou vinis o que significa que, eu a vida inteira, cresci rodeado de vinis que acabei por herdar. Mas lembro-me que o primeiro disco que comprei, que não foi um mas foram dois, foram o Unplugged do Eric Clapton e o Human Touch do Bruce Springsteen. Juntei dinheiro de propósito para isso e depois ouvi-os tanto que viciei os discos até riscarem!

02 - Quando é que percebeste que a tua vida ia ser a música?

Ainda hoje me questiono se vou ou não conseguir viver disto… [sorriso] Mas pelos 16 ou 17 anos recebi uma mesa de mistura que me deixou de tal forma enamorado que a minha mãe, ex-mulher de um DJ, apreendeu ao final de uma semana. Foi provavelmente a decisão mais importante da minha educação! No final da licenciatura levou-me ao banco e avalizou a compra de um crédito para uma mesa nova, pratos e CDs. No final paguei tudo com o meu trabalho. Bati à porta de um bar e perguntei se não queriam que fosse lá meter música. Gostaram e a coisa arrancou!

03 - E se o teu filho, ainda com 3 anos, tivesse idade para te perguntar o que fazes, dizias-lhe que és locutor de rádio que põe música na noite, ou és mais um DJ que trabalha na rádio durante o dia?

Acho que respondia que o pai é um entertainer de manhã à noite. Mas claramente te digo — e sem menosprezo pela profissão de DJ — que sou muito mais animador de rádio e hei-de provavelmente falecer sentado ao microfone. Comecei na Mega, estou na RFM e hei-de passar para a Renascença.

Fotografia Pau Storch

04 - Como é que explicas o fenómeno da rádio que ganhou uma dimensão brutal, com toda a gente a ouvir e comentar?

É giro ver o fenómeno, depois de terem começado a dizer que a rádio ia morrer nos anos 70. A verdade é que, enquanto na televisão vemos uma guerra de audiências com um declínio claro na qualidade, com uma maioria de reality shows em prime-time, a rádio continua fiel aos seus princípios. É honesta, é íntima… sou eu e tu num carro. E a isso adicionámos imagem e plataformas digitais. A maior vitória da rádio foi saber reinventar-se sem nunca perder a essência.

05 - E como é que se prepara um programa como o da manhã?

Com muito trabalho. Aprendi logo no início que o melhor improviso é aquele que está escrito. Não temos tudo escrito, óbvio, mas a emissão do Café da Manhã é preparada de véspera, e esse é o caminho. Ao início é estranho. Chamam-te, sentam-te com uma série de outras pessoas e dizem-te “durante os próximos anos vão trabalhar todos juntos e vão ter de ser incríveis”! É uma transição estranha este ‘casamento’ entre animadores e produtores. Mas ao fim de algum tempo tudo começa a fluir e — no nosso caso — muito bem. A minha personalidade com as da Joana, da Mariana, do Nilton e do Salvador vão criando uma dinâmica única e muito real, e o ouvinte compreende isso e acompanha com entusiasmo.

06 - Houve algum momento, alguma parte do programa que fizeste em que tenhas dito “epá, grande pinta, fiz uma coisa que faz a diferença”?

Ao longo destes 14 anos já fiz vários momentos de rádio que me emocionaram e disse “foi provavelmente o meu melhor momento de rádio”. O que mais impacto teve foi, há muito pouco tempo, o vídeo de um dia especial que fizemos para a Sandra, a miúda que distribuía jornais. A alegria com que trabalha todos os dias tocou-nos e é reconfortante passar a mensagem de que “há sempre alguém a reparar em ti e no teu trabalho”. Teve uma amplificação gigante e acabou por chegar a muita gente.

07 - E já alguma vez tiveste um momento em que pensaste “estou farto, isto não é para mim, vou mudar de vida”?

Há uma vez por semana. Nunca disse “isto não é para mim, vou mudar de vida” à rádio, porque sou completamente apaixonado por aquilo. Mas já disse várias vezes, quando me levanto da cama, uns quantos palavrões para o ar. Acordo a minha mulher e digo-lhe “que raio de horário este que eu fui escolher!” esse sim, nunca a profissão mas o horário.E eu que sempre achei que ia ser um criativo, que só ia acordar às horas que queria… saí da Católica para as Mega Manhãs (na Mega FM) e depois Café da Manhã (na RFM). São 14 anos de castigo!

08 - Como é que funcionam os teus horários, és basicamente ao contrário?

Durmo pouco, o que me provoca um défice de sono constante! [risos] Ou seja, a qualquer momento, se tiver uma hora livre, deito-me e durmo essa hora. Se tenho um gig à noite organizo-me de forma a dormir um pouco e lá estar uma hora antes. E como sempre fiz manhãs, tenho o relógio biológico à velho: vou de férias, deito-me à meia-noite e às 6 da manhã estou acordado e não consigo dormir mais.

09 - Um dos momentos mais vistos da tua carreira é, curiosamente, aquele em que a Jessica Athayde te rapa um bigode de 5 anos. Não pondo em causa a escolha da Jessica (também seria a minha escolha!) como é que se chega a esta encruzilhada?

Conhecia a Jessica através do Café da Manhã e porque ela ia muitas vezes dançar ao Rádio-Hotel, onde ponho música. Uma noite ela diz “um dia ainda te rapo esse bigode” e aquilo ficou. Uma segunda cheguei ao programa e disse “olhem, acho que está na altura de rapar o bigode”! Na realidade estava cansado dele e a frase “a Jessica Athaide quer-me rapar o bigode em directo” foi aprovada de imediato. Foi um gozo incrível e acho que lhe deu mais gozo a ela do que a mim!

10 - Se hoje ainda o tivesses, quem é que gostavas que te rapasse o bigode?

Quem é a tua playmate? [risos] Gostava que me rapasse a minha mulher… ela trata tanto, tanto, tanto de mim que merecia também tratar do meu bigode!

11 - És daquelas pessoas que toda a gente gosta, sempre afável e bem disposto, uma espécie de “bom-rapaz”. Houve aquela altura da tua vida em que eras um malandro de primeira? Ou ainda és um malandro e disfarças bem?

[Risos] Sou por natureza bem disposto e tento ser simpático com todos e todas. Sempre gostei de ser atrevido e tenho muito mais amigas que amigos. Já fui obviamente muito malandro, mas agora sou pai de família, casado e com um filho. E por ter sido mais malandro sei bem onde está a linha e não a piso!

Fotografia Pau Storch

12 - Como é estar em frente a milhares de pessoas num festival Marés Vivas ou na primeira parte de um concerto no MEO Arena (Alicia Keys, Miley Cyrus, Anselmo Ralph)?

Antes de mais podes escrever: “É do caralho!” É provavelmente das sensações mais fortes de uma vida. É uma sensação absolutamente incrível quando tu cresces o suficiente enquanto artista para poderes enfrentar um palco desses e, cada vez que o enfrentas, achas que foste melhor que na anterior. Preparo todos os gigs de forma séria, mas estes são especiais.

13 - Consegues sentir solidão num gig com milhares de pessoas?

Sim. Profunda solidão! Começo por ficar mais nervoso na semana que o antecede. Depois, 2 ou 3 dias antes, começo a falar menos e fico mais introspectivo. Em seguida vem a parte mais difícil de todas. Fazes o soundcheck duas horas antes e vais esperar para o camarim. E essa espera é realmente um momento de enorme solidão. És tu, um espelho, um relógio e a tua ansiedade. No fim chamam-te e carregas pela primeira vez no play a tremer como varas verdes mas, lá pela segunda ou terceira música, já estás em alta rotação. Adoro tocar para milhares de pessoas!

14 - Como é que se prepara um gig deste tamanho? Levas o alinhamento todo?

Levo um pré-alinhamento feito e cerca de 90% das vezes vai ao ar. Como podes imaginar, tenho milhares de músicas no computador e quando vais para um concerto do Enrique Iglesias ele é claramente diferente do da Alicia Keys, ou seja, olho como um publicitário olha para um produto: tenho este target, tenho “aquele” público, tenho “aquele” segmento. Depois é diverti-los sem desvirtuar muito aquilo que eu sou.

15 - Achas que o André Henriques vale porque tem um vasto conhecimento musical, capaz de se enquadrar em qualquer registo?

Acho que sim, acho que o André Henriques vale muito para os promotores porque, antes de figura pública que põe música, é um DJ que faz a festa em qualquer circunstância, e por acaso também é figura pública que se diverte imenso!

16 - E como é depois voltar à terra e pôr música para algumas dezenas de pessoas, no Rádio-Hotel?

Olha numa semana fiz o Somnii e na semana a seguir fui abrir o Bliss. Ia no carro para a segunda e ainda estava a receber mensagens de parabéns do primeiro, que para mim já tinha sido. Há uma antecipação e uma expectativa. Depois cumpres, gozas umas horas aquele momento e passas a pensar no próximo. É bom não ficares muito preso naquilo, não há coisa pior do que ouvir outros DJs que tiveram um gig bom há 3 anos, e todas as noite falam “o dia em que eu…”.

Fotografia Pau Storch

17 - Foste colega do Vasco Palmeirim que, ironicamente, está à mesma hora na maior concorrente da RFM. Isto é uma espécie de Benfica-Sporting diário… Qual é o sentimento?

Fui colega do Vasco durante a faculdade e sou um gigante amigo do Vasco. Desde que fui para o Café da Manhã começámos a comunicar cada vez menos. Neste momento lutamos pela liderança os dois e quase não falamos. É normal, para não haver “deslizes” de estratégias ou estados de espírito. Mas não estamos afastados de coração. Acompanho a carreira dele e fico feliz com o que ele tem feito, especialmente na televisão. É um rapaz com um talento inacreditável e um comunicador com muita piada.

18 - E vês-te a fazer televisão também?

Sim, mas não sei nem quando nem como. Nunca tivemos grande paixão um pelo outro. A verdade é que, ao contrário da rádio, na televisão estou horas à espera para entrar 2 ou 3 minutos no ar, a papaguear textos de outros. Não és tu quem está ali. Gosto de ter o controlo sobre o que faço e digo. Gostava de fazer um talk show, sim, mas onde também assumisse a produção. Pode ser que as coisas em televisão venham a acontecer, mas será a seu tempo, naturalmente.

19 - Fazes rádio, farás televisão (eventualmente), tens uma empresa… quando fores mais velhote, por onde achas que irás acabar?

Pela rádio, gostava de um dia ser director da RFM! [sorriso] Sei que o meu Director está a ler isto, mas gostava de um dia estar no lugar dele. Tenho de me esforçar para isso, estudar mais, mas também acho que o meu caminho é esse… gostava muito de ser director da RFM.

20 - Já tens preparada a iniciação do teu filho à música?

O meu filho já é absolutamente viciado em música. É claro que é cedo para dizer muito, mas a música é aquilo que mais o entusiasma: seja a cantar, seja a ouvir, seja a dançar, seja a tentar tocar a bateria, piano, ou guitarra. E na escola todos dizem “nós não sabemos, isto ainda pode mudar muita coisa, mas ele é completo com música”.

Fotografia Pau Storch
Partilha isto: