1 - Como é que começaste no MMA?

O meu pai convidou-me para ir de férias com ele para o Algarve e eu conheci lá o meu primeiro treinador de MMA. Experimentei o desporto e apaixonei-me. Já fazia boxe, o meu pai ensinou-me desde pequeno, nunca levei a sério mas desde essa altura que mexo as mãos.

2 - Saíste daqui sozinho para a América?

Saí daqui sozinho para a América para tentar entrar para o The Ultimate Fighter [reality show produzido pelo UFC], mas não consegui. Depois estava irritado, no fundo não perdi mas também não ganhei, e fui tentar entrar para o American Kickboxing Academy.

3 - Presumo que sejas amigo de alguns lutadores. É fácil querer bater-lhes nos treinos? Consegues abstrair-te?

Na luta não faz qualquer tipo de confusão porque é o meu trabalho, e se não for eu a bater ele vai-me bater. Sou demasiado competitivo, estou lá para ganhar. Mas no treino nós não batemos com maldade, às vezes é forte para caraças e saímos mesmo... Mas não nunca chegamos a bater com maldade.

4 - É como nos videojogos, tens uma lista mental de golpes preferidos entre os quais vais alternando, submissões e isso tudo?

Sim, claro que tenho, não é uma lista mas claro que sim, tenho os meus golpes favoritos, submissões favoritas, takedowns favoritos. É como se fosse xadrez, ele joga a peça daqui e eu jogo a peça dali, mediante o que ele faz eu vou fazendo. Tenho sempre varias alternativas, mas tenho coisas que prefiro fazer, obviamente.

5 - Já tiveste lesões graves?

Tive quando jogava à bola, estive 18 meses parado por causa do joelho. E tive mais uns problemazitos mas não, nunca nada grave. A lutar ainda não.

Fotografia Bernardo Coelho

6 - Optaste por perder ou aumentar peso para encaixar numa das classes que achasses mais favorável para ti?

Sim, sem dúvida, quando treinava aqui em Portugal o meu treinador dizia que o meu peso era 70 quilos, mas ao perder 15 quilos quase morri. Ia acabar por perder a paixão pelo desporto porque cada vez que me dissessem que tinha luta ia ficar “vou ter de passar por aquilo outra vez”, sofria imenso para manter o peso. Tenho 22 anos, ainda estou a crescer e agora faço 77 kg e vou fazer os 84 kg, vou fazer os dois pesos. Quero ser campeão do mundo dessas duas divisões.

7 - O estilo de luta é diferente entre duas as divisões?

Claro que tenho de mudar a minha estratégia se o adversário for maior ou mais baixo que eu, mas a única coisa que quero é sentir-me bem, independentemente da estratégia que vou ter que usar porque isso vou ter em qualquer divisão. Desde que me sinta bem não interessa quem é que está à minha frente, tal como disse é xadrez, vou arranjar maneira de ganhar.

8 - Há um plano de quantas vezes vais lutar por ano ou vai acontecendo?

Vão surgindo e acontecendo mas tenho sempre um ideal, quero lutar três a quatro vezes por ano e este ano acho que vou lutar quatro vezes, se calhar cinco, vamos ver.

9 - A esta distancia não sabes quem é o teu próximo adversário. Se soubesses também era indiferente?

Exactamente. Não sei mas estou disposto a lutar contra qualquer um. Só gosto de ver e saber para o que é que vou e o que é que tenho de treinar mais especificamente, mas luto contra qualquer um.

10 - Recebes apenas quando lutas?

Do Bellator só recebo quando luto e de alguns patrocínios também. Depois posso ter outros patrocinadores mensais, trimestrais ou anuais, neste momento só tenho dois mensais.

11 - Como é que entraste logo para o Bellator?

O Javier Mendez, que é o Head Coach do American Kickboxing Academy é um grande amigo do Scott Coker, que é o presidente do Bellator e quando lá apareci para ir tentar entrar para a equipa ele mostrou o meu perfil ao Scott, que gostou e decidiu ir ver pessoalmente, para perceber se eu tinha talento ou não para entrar no Bellator. Foi ver e disse que me ia querer no Bellator.

12 - No Bellator é bem aceite que os lutadores queiram um dia chegar ao UFC?

Não, claro que não, há sempre aquela rivalidade, o Bellator quer chegar ao mesmo nível do UFC e nem se fala do UFC. Cá em Portugal há pessoas que não sabem o que é o MMA, sabem o que é o UFC, dizem todos para eu chegar ao UFC, mas neste momento eu tenho contrato é com o Bellator e é com eles que vou fazer negócio. Quero ser campeão do mundo de duas divisões no Bellator, mas não posso mentir, quero ser o melhor de todos os tempos e neste momento a melhor organização é o UFC. Não sei se daqui a dois anos vai continuar a ser, mas se continuar eu quero ser o melhor da melhor.

13 - Ganhaste quase todos os combates por KO e TKO. É uma estratégia que já vai definida?

Não, algo está dentro de mim, entro para finalizar, não entro para os pontinhos, para jogar. Não, eu tenho aquele killer instinct. Não gosto de submissão, nem de jogar aos pontos, gosto é de pôr a malta a dormir.

14 - Estás preparado mentalmente para perder?

Acho que sim, a parte mental sempre foi o meu forte mas a derrota é algo que nunca me passa pela cabeça, nem entra sequer, não é uma opção. Nem quando sonho, e passo a vida a sonhar, acordado até, é algo que nunca entra nas opções.

15 - Quando há um acidente fatal, como lidas com a preocupação da família e amigos?

Para morrer basta estar vivo, posso ir a andar no passeio, tropeçar, bater com a cabeça e morrer, posso ir a atravessar a estrada e ser atropelado, pode dar-me um ataque de coração, qualquer coisa. O que tento explicar é que estou a fazer o que gosto, prefiro morrer a fazer o que gosto do que ser infeliz fazendo o que não gosto só para poder viver mais, acho que não faz muito sentido.

Fotografia Bernardo Coelho

16 - Já sabes o que queres fazer quando um dia deixares de lutar?

Quero ajudar a tornar este mundo melhor, não sei bem, tenho algumas ideias e planos mas neste momento estou focado em ser o melhor lutador de todos os tempos.

17 - E os americanos, gostam de ti ou não acham piada a estrangeiros?

Gostam, gostam. Mesmo muito. Adoram! Sou o único português e sou miúdo, todos gostam de mim e também há lá uma grande comunidade de portugueses. Eles chamam-me “The Portuguese”. [risos]

18 - É um desporto relativamente novo: achas que os miúdos que já crescem a vê-lo na tv e começam a treinar logo especificamente para MMA vão levar isto tudo para outro nível?

Sem dúvida, o MMA está em expansão e todos os anos cresce e sim acredito que os miúdos cada vez começam a treinar mais novos para este tipo de desporto, acho que sim, vai dar um grande salto.

19 - O que é que falta para sermos visitados pelo Bellator?

Nada. [sorriso] Falto eu, eu vou trazer o Bellator a Portugal.

20 - E quando é que te voltamos a ver em acção?

Setembro, Outubro, por volta dessa data, espero.

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