Após dez anos longe dos holofotes, os Kalashnikov aceitaram o convite de Jel para o regresso num concerto único e para já irrepetível. Parece confuso mas é mesmo assim e tudo aconteceu no NOS Alive, onde em 2007 tinham actuado por uma das últimas vezes, no mesmo palco que viria a ser pisado pelos Rage Against The Machine: Jel é o criador e curador do Palco Comédia do festival, este ano com um fundo impressionante, criado por Bordalo II. Por lá passariam também na noite seguinte os Cebola Mol, nas primeiras aventuras musicais de um palco que Jel pretende que venha a ser muito mais que só Stand-Up. Mas voltemos ao que interessa, que a guerra não espera. “O meu irmão e o resto da banda já me andavam há três ou quatro anos a chatear e eu a adiar”, confessa Jel, aka Duro, nesta versão homem da guerra. Formação essa que permanece a mesma, sem baixas. “Temos tido sorte, não temos sido apanhados no fogo cruzado. Mas sim, continua a mesma formação, mais surdos contudo.” E nem necessitaram de voltar a aprender as músicas após tão longo hiato. “Isto é como andar de bicicleta, são experiências traumatizantes, é difícil esquecer.”

Uma década em que não tiveram grande descanso: “É uma banda que trabalha muito, sabes? Sobretudo no terceiro mundo, há sempre muito trabalho para os Kalashnikov. Síria, um sítio onde os Kalashnikov têm tocado muito, na Líbia também, África subsariana, Congo, Ruanda... É uma banda que não lhe faltam oportunidades.” E tudo isto com apenas um álbum na discografia, dez canções que fazem uma carreira. “Não precisam de muito, porque também quando se toca num cenário de guerra a maior parte do pessoal nem ouve. É meia bola e força.”

O que poderia ser considerado estranho à partida é que o convite para regressarem aconteça para um palco que tem comédia no nome, algo que aparentemente não perturba a banda. “É quase a Divina Comédia do Dante, era uma viagem ao inferno e os Kalashnikov também são dessa linha. Embora ache que, hoje em dia, o único palco onde os Kalashnikov fazem mesmo sentido é este. Está tudo muito literal. O mundo mudou bastante, as pessoas tornaram-se mais conservadoras e picuinhas. Às vezes tem que se explicar tudo, o pessoal anda sempre muito à procura de uma polémicazita, à procura de qualquer coisa para ‘ah, isto não pode ser’ e um tema como Kalashnikov, que é humor negro, a suprema ironia, acho que é bom estarmos no Palco Comédia, assim o pessoal pensa, ‘Isto é comédia, não vamos levar muito a sério’. É tudo muito literal, é muito difícil fazeres ironia. Hoje as pessoas não percebem, parece que tudo tem que vir com um aviso. Assim, já vais avisado.”

Uma das coisas que também mudaram nesta década foram os amigos da banda, pois George Bush e Bin Laden já não se encontram no activo, mas foram rapidamente substituídos. “São patrocinadores, no fundo. O Trump e o Putin estão para a guerra um bocadinho como a NOS está para o Alive.” Mais tarde seríamos presenteados com uma actualização do verso que menciona as figuras de antigamente, agora “Don Trump / Vlad Putin”, que continuam a ser One Love, One Family para a banda mais politicamente incorrecta de todas. “O politicamente correcto acaba por ser se calhar o novo fascismo, que não é imposto de cima para baixo, mas de baixo para cima. Depois é tudo muito rápido, há um temazinho, alguém se engana e isso soa um bocado a Auto da Fé, como se fazia antigamente com os bruxos, tudo ali à volta, tudo a queimar. E depois quando nos habituamos a esse ritual temos que estar sempre a mandar alguém para a fogueira.”

Apesar de considerar que se não fossem comédia, os Kalashnikov também eram demais, Jel recorda que isso nem sempre é assim tão óbvio e que durante a primeira passagem por Portugal chegaram a ser levados demasiado a sério, com malta que ia mesmo pela violência. “Nalguns concertos começava a olhar para o pessoal e a pensar que se calhar não estavam a perceber bem a ironia da coisa. Mas isso é um bocado inevitável. Nunca fui muito adepto da comédia pateta. Gosto que haja quem não perceba, porque isso faz-me rir a mim.”

Numa década muita coisa muda, até as redes sociais, onde o MySpace reinava no que tocava às bandas. “Tínhamos lá muitos seguidores e íamos ver os pontinhos: havia bué pessoal a ouvir-nos no Líbano, no Iraque e eu às vezes pensava assim, ‘Devemos ter mesmo fãs tipo gajos da guerra’. Uma vez recebemos um convite por lá de um grupo nacionalista da Bósnia, que nos adorava e queriam que fossemos lá tocar para eles. Isto é a comédia. Quando sai assim do contexto, sai um bocado do teu controlo, não é?”

Mesmo com a reacção eufórica do público, que apesar de ter chegado em cima da hora, encheu a tenda e exorcizou demónios guardados nestes dez anos, berrando todas as letras, entre muito mosh, algum crowd surfing (até por parte de elementos da banda) e dois ou três Wall of Death, promovidos pelo próprio Duro, sempre num espírito positivo de quem estava ali essencialmente para se divertir, “até porque isto não é a fuckin’ Síria”, Jel não se mostra tentado a trazer o projecto de volta. “Gosto muito dos Kalashnikov no mesmo sítio onde estão os Homens da Luta, um género de frigorífico que quando nos apetece podemos tirá-los de lá. As coisas têm um prazo de duração, sobretudo quando são personagens. Às vezes não é fácil saberes quando é que já estás a fazer demais. Voltar outra vez, dificilmente. Talvez os Homens da Luta, na próxima crise, que espero que ainda falte muito tempo. Daqui a 15, 20 anos, que isso é cíclico, é que se calhar faz sentido voltarem. Os Kalashnikov, como versam o tema da violência, tem que ser feito um bocadinho com pinças.”

Mais fácil é voltarmos a assistir a projectos dos manos Duarte. “A curto-médio prazo é possível. Quando foi no fim dos Homens da Luta estávamos um bocadinho cansados, foram muitos anos, muita exposição. Tanto eu como ele fizemos outras coisas e agora voltamos. Temos outra vez aquela pica do início, até é natural que nos próximos tempos criemos algumas coisas novas. Ainda nem sei bem o quê, porque funcionamos bem quando a criação é espontânea. Mas é natural que sim.”

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