Porque em menino, quando jogava, não tinha os dentes da frente e era irrequieto, como um pequeno diabo. Cresceu, tornou-se um jogador de topo, foi campeão do Mundo em 2002 pelo Brasil, mas nunca perdeu o espírito demoníaco. Um brincalhão por natureza. Amante da boa vida. E de um bom vinho. Até mesmo um vinho proibido. Ronaldo, o Fenómeno, que o diga.

“O Ronaldo era azarado, perseguido por lesões durante toda a temporada. Passava muito tempo no Brasil para recuperar. Quando fui para o Inter de Milão vivi na casa dele, num bloco de apartamentos com muitos brasileiros, como Dida ou Roque Júnior [jogavam no rival AC Milan]. Certa noite fui buscar uma garrafa de vinho à cozinha. Experimentei e estava azedo. Mais tarde ele disse que a garrafa tinha sido oferecida pelo Papa João Paulo II numa viagem ao Vaticano. Ainda hoje ele fica ‘puto’ comigo por causa desse dia.”

Mas o vinho era assim tão mau? Ronaldo diz que o problema era a forma de degustação do amigo: “O Vampeta é brincadeira. Abriu todas as garrafas de vinho que tinha lá. O pior é que ele bebia tudo em copo de plástico, colocava gelo no vinho e achava que era ruim.” E a garrafa, claro, ficou por pagar. Até porque vinho sagrado não tem preço: “O Ronaldo me cobra até hoje. Eu não paguei quando jogava, imagina agora que eu não jogo mais...”, brincou Vampeta já depois de terminar a carreira.

Com Ronaldo, em Itália, as noites eram loucas. Havia espaço para mulheres a sério e outras com brinde: “Essa história dos travestis é muito simples. Ele convidou-me para jantar. Estavam lá cinco mulheres. Quando cheguei já tinham bebido umas boas três ou quatro caipirinhas. Perguntei quem eram as senhoras e quem eram os travestis, porque só queria estar perto de mulheres. Só nessa altura é que ele percebeu.” Mas Vampeta, apesar dos enganos de Ronaldo, é um homem sem preconceitos: “A minha irmã é lésbica, por isso não tenho nada contra. Respeito todas as pessoas e a sua orientação sexual.” E não são apenas palavras. Vampeta vai aos actos. Em 1999, quando jogava no Corinthians, posou nu para a revista gay G. “Durante uma conversa, disseram que um jogador de futebol jamais teria coragem para isso. Na mesma hora falei: ‘Me dá 50 ou 80 mil reais que eu saio na hora.’ Aí, veio um cara que era dono, ou amigo do dono da revista, agarrou no livro de cheques e deu-me. Peguei na hora, pois era três vezes mais do que eu ganhava por mês no Corinthians.” A revista foi um sucesso de vendas e esgotou em quase todo o país.

Fingem que pagam, fingimos que jogamos

Homem de área, sempre à procura do golo, só não respeita quem não cumpre com os salários. E não esquece aqueles que o enganaram. Da passagem pelo Flamengo, em 2001, guarda más recordações e ressentimento: “Eles fingem que pagam e a gente finge que joga”, uma frase clássica do futebol criada por Vampeta nessa altura. “A única coisa que recebi lá foi o dinheiro das figurinhas [cromos de caderneta].”

Fez muitos amigos no futebol. Edílson, avançado que passou pelo Benfica em 1994/95, é um dos mais importantes. Mas também teve inimigos a quem nunca deu descanso. Nos tempos de Corinthians, o São Paulo era o seu ódio de estimação. Por causa dessa rivalidade, passou o tempo a trocar farpas com o médio Souza, outro que não leva desaforos para casa. Nos clássicos havia sempre lugar a provocações. Em 2007, Vampeta desceu de divisão com o Timão, mas ganhou ao São Paulo, depois de um jejum de quatro anos sem vencer o rival. Após o jogo, atacou o seu adversário: “O Souza é um otário com sorte. Ele tem sorte porque é um jogador fraco ao lado de grandes jogadores. Mas também é otário por vestir a camisa do São Paulo.” Souza respondeu: “Vampeta é um otário sem sorte.” Enterraram os machados de guerra quando deixaram de jogar? Não. Ainda hoje trocam galhardetes.

As “primas” da Copa

O maior feito da carreira de Vampeta aconteceu em 2002. Foi convocado por Scolari para o Mundial Coreia/Japão e jogou 18 minutos frente à Turquia. O suficiente para inscrever o seu nome na lista de pentacampeões. De regresso ao Brasil, a equipa foi homenageada pelo então presidente Fernando Henrique Cardoso. Quando se ouviu o nome de Vampeta, este desceu a rampa toda às cambalhotas: “Lógico que eu estava bêbado. A gente bebe sem ganhar nada, imagina sendo campeão do Mundo. Eu estava para lá de Bagdad.”

Outra história da Ásia. Durante um programa de rádio, em que recordavam episódios do Mundial, Vampeta estava com Luizão, avançado que também foi pentacampeão, e não resistiu a denunciar este em directo: “O Ronaldo levou a família e o Luizão levou o pai, mas só na final. Só que alguns elementos da CBF [federação brasileira] levaram um camião para quem quisesse. E elas não eram da família. Estavam lá umas oito “primas” à disposição e havia uns sabidos que eu não vou dizer o nome, e que eram casados na altura, que aproveitaram bem. Mas eu não vou entregar. Não vou, não posso. Pronto… está aqui ao meu lado. Não foi, Luizão?” Vampeta, um homem a quem nunca se confia um segredo.

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Luís Aguilar
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