O antigo guarda-redes alemão, agora com 45 anos, é o único jogador que alinhou profissionalmente em todas as confederações da FIFA. Ao longo de 21 anos de carreira, nos quais passou por 25 clubes, esteve em mais de 500 estádios nos seis continentes. Um verdadeiro nómada do futebol, sem espaço no passaporte, mas com muito para contar.
“Claro que a minha carreira foi um pouco diferente. Não joguei pelo Barcelona nem pelo Manchester United e na liga inglesa não passei do banco de suplentes. Sei que nunca fui um grande guarda-redes. Não acho que fosse um mau guarda-redes e até poderia ter jogado a um nível mais alto se não fosse tão... diferente”, contou ao Público em Abril do último ano.
E diferente, não há dúvida, é a melhor forma de resumir a vida de Pfannenstiel. O seu percurso começa logo de forma singular. Com apenas 17 anos representa o modesto FC Bad Kötzting, clube dos arredores de Munique, quando recusa um convite do colosso Bayern. Motivo: “Não queria ser o número 2 de Oli [Oliver Khan] ou de outro guarda-redes.
A minha vontade era apenas jogar”, revelou ao Guardian em 2015.
Arrependido? Nem por isso. “Se me garantissem 400 jogos por uma equipa de topo da Alemanha, ganhar uns quantos títulos e jogar pela selecção, então sim. Mas temos de ser realistas. Eu estaria ao nível de Khan ou Jens Lehmann? O mais provável era ter sido suplente num sítio qualquer e fazer alguns jogos quando a primeira escolha se lesionava.
Trocava isso pela carreira que tive? Claro que não.”
Em vez do Bayern opta pelo… Penang FC, da Malásia, onde assina o primeiro contrato profissional: 6 mil dólares mensais, aos quais acrescem bónus por cada vitória, carro e apartamento num hotel junto à praia. Mas, mais importante, a possibilidade de ser titular e poder aventurar-se noutra cultura. Está tudo relatado na autobiografia Unstoppable Keeper (sem edição portuguesa), onde conta, entre outros episódios, o momento em que esteve detido em Singapura, numa das prisões mais perigosas do mundo, por causa de uma acusação de resultados combinados.

101 Dias de Inferno
Em Janeiro de 2001, o germânico é sentenciado a cinco meses de prisão após ser acusado de ter feito um acordo verbal, relacionado com match-fixing, quando representa os singapurenses do Geyland United. Segundo a acusação, Pfannenstiel terá recolhido três somas de 7 mil dólares singapurenses para apostar nos jogos da sua equipa.
Acaba libertado 101 dias depois por falta de provas. Mais tarde é ilibado de tudo e não tem registo criminal. Diz-se inocente. Vítima de uma má decisão judicial. E nega qualquer envolvimento em jogos arranjados nessa ou noutra fase da carreira. Admite, porém, que o período passado na cadeia deixou marcas difíceis de ultrapassar: “Foi horrível. Ainda hoje tenho pesadelos. Quando acordas e estás ao lado de assassinos e violadores, sem pasta dos dentes ou papel higiénico, faz-te reavaliar a vida que tiveste antes. Cedo percebi que o futebol não era tudo.”

Ressuscitar em Inglaterra
O trauma ainda lá está, as memórias de terror podem assaltar-lhe o sono durante a noite, mas Pfannenstiel não deixa que o cérebro e o coração continuem presos em Singapura. E continua a sua viagem. Quando fica em liberdade, o germânico regressa ao país natal e decide partir para novas aventuras. Num dos muitos destinos, veste a camisola do Bradford Park Avenue do sétimo escalão inglês. Neste clube, em dia de boxing day, logo a seguir ao Natal, “morre” em campo. Um choque com o avançado Clayton Donaldson, do Harrogate Town, faz com que o alemão tenha um colapso pulmonar que o leva a ser pronunciado clinicamente morto.
É reanimado ainda em campo pelo fisioterapeuta da equipa.
Pfannenstiel lembra-se do choque e de acordar no hospital: “Não houve nada de maldoso na entrada do Clayton. Ele tentou chegar à bola e acabou por chocar no meu peito. No início não me apercebi de quão grave aquilo tinha sido.” Quando abre os olhos, começa a gritar com os médicos e as enfermeiras porque quer voltar ao jogo. Dizem-lhe para se acalmar porque tinha estado morto. Duas ou três horas depois percebe, finalmente, o que lhe acontecera. Mas não espera muito até calçar as luvas: “Uma semana depois já estava a jogar. Os médicos disseram-me para não fazê-lo e, provavelmente, fui irresponsável. Mas se esperasse uns meses, o mais certo era ficar muito assustado para regressar. Tinha de voltar ao campo o mais rápido possível.”

Um Pinguim na Banheira
Nada o pára, nada o demove. Seja a prisão ou a morte. Mas este coração que parece inquebrável também é capaz de se derreter com um animal de estimação. Um diferente, porém, como não poderia deixar de ser. No período em que joga no Dunedin Technical, da Nova Zelândia, o presidente do clube leva a equipa a uma colónia de pinguins. Pfannenstiel volta para casa e fica a pensar como seria bom ter um pinguim ou passeá-lo na rua, como se fosse um cão. Sem mais demoras, veste roupas escuras, regressa ao sítio e leva um pinguim. “Depois tive de improvisar”, revelou ao Público. “Peguei em vários sacos de gelo, água, pedras e meti tudo na banheira.” No dia seguinte, o presidente vai almoçar a sua casa e… “Quando o viu na banheira, passou-se. Disse-me que era uma espécie protegida, que se a polícia me apanhasse com o pinguim expulsavam-me do país.” Passadas 24 horas o pinguim foi devolvido. “Não tive escolha”, lamentou o alemão.
Hoje, já sem o pinguim, vive na Alemanha. Divide o tempo entre o departamento técnico do Hoffenheim, comentários televisivos e a Global United FC, uma ONG de protecção ambiental, fundada pelo próprio, que o levou a dormir num iglu durante quatro dias seguidos. “Foi muito difícil. Mas foi ideia minha, tinha de fazê-lo. Não podia dizer que queria sair porque estava com frio. Correu tudo bem, sobrevivi.” Mais uma vez…

Os Clubes de Lutz Pfannenstiel

  • Alemanha - FC Bad Kötzting
  • Malásia - Penang FA
  • Inglaterra - Wimbledon
  • Itália - Milan
  • Inglaterra - Nottingham Forest
  • Bélgica - Saint-Truiden
  • Malta - Hamrum Spartans
  • Singapura - Sembawang Rangers
  • África do Sul - Orlando Pirates
  • Inglaterra - Nottingham
  • Finlândia - TPV
  • Finlândia - FC Haka
  • Inglaterra - Nottingham
  • Alemanha - Wacker Burghausen
  • Singapura - Geyland Internacional
  • Nova Zelândia - Dunedin Technica
  • Inglaterra - Bradford Park Avenue
  • Inglaterra - Huddersfield Town
  • Nova Zelândia - Dunedin Technical
  • Alemanha - ASV Cham
  • Inglaterra - Bradford Park Avenue
  • Nova Zelândia - Dunedin Technical
  • Noruega - Bærum SK
  • Canadá - Calgary Mustangs
  • Nova Zelândia - Southern United
  • Albânia - Vllaznia Shkodër
  • Arménia - FC Bentonit Ijevan
  • Noruega - Bærum SK
  • Canadá - Vancouver Whitecaps
  • Brasil - Atlético H. Aichinger
  • Noruega - Floya
  • Noruega - Floy IL
  • Noruega - Manglerud Star Oslo
  • Namíbia - Ramblers F.C.



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