Um desafio à lógica, uma finta à razão, um golo ao destino. Algo que acontecia, mas não devia. Porque não era para ser assim. Porque não podia ser assim. Mas ali estava ele. O jogador improvável. O génio incontestável. Pegava na bola e parecia voar. Quase como um anjo. “O Anjo das Pernas Tortas”, outra das suas alcunhas.

Para muitos, “o ponta-direita mais extraordinário que o futebol já conheceu”, como escreveu o L’Equipe. Driblador infernal, pesadelo de adversários, delícia para os adeptos. Mané Garrincha era felicidade. A dele, dentro do campo, a de todos os outros, cá fora, que assistiam, vibravam, e pediam mais. Ele dava. Entregava tudo. De mão beijada. Uma e outra vez. Sem pensar na dimensão daquilo que fazia.
O jogar por jogar em estado puro. Com a expressão traquina e ingénua que nunca o abandonou. Nem mesmo nos piores momentos. Na sua cabeça, não havia diferença entre os grandes estádios e os campos pelados da vila de Pau Grande, distrito do Rio de Janeiro, onde nasceu e começou a sua relação com o futebol. Transportou a rua para o campo e nunca quis que fosse de outra forma.

Certo dia, em 1957, no México, inventou o “olé”. Isso mesmo. Aquele grito de troça que significa a superioridade em relação ao adversário começou com ele. O Botafogo fez um amigável contra o River Plate, no Estádio Universitário, e Garrincha abriu o livro. Vairo, o seu marcador directo, foi quem sofreu mais, como lembra João Saldanha, técnico da equipa brasileira nessa altura, no seu livro Histórias do Futebol: “De todas as vezes que o Mané parava na frente do Vairo, os espectadores mantinham-se em silêncio. Quando o Mané fazia aquele seu famoso drible e deixava o Vairo no chão, um coro de cem mil pessoas exclamava: ‘Ô ô ô ô ô ô-lê!’ As notícias chegaram ao Rio e a torcida carioca consagrou o ‘olé’.”

Vairo não terminou o jogo. O seu treinador teve a bondade de o substituir. O argentino saiu do campo conformado e a sorrir. “Não há nada a fazer. Impossível”, terá dito antes de se dirigir ao companheiro que o substituiu: “Boa sorte, amigo. Mas antes aconselho-te a escreveres algo para a tua mãe.” Como lembrou Saldanha, é justo que o grito tauromáquico no futebol tenha sido inspirado em Mané. “O Garrincha é o próprio ‘olé’. Dentro e fora do campo, jamais vi alguém tão desconcertante, tão driblador. É impossível adivinhar o lado por onde ele vai sair da enrascada. Foi a coisa mais justa do mundo.”

Soco no estômago e um João qualquer

Os adversários imploravam pela mãe. Com os colegas de equipa não era muito diferente. Antes do Mundial de 1958, Nílton Santos era o defesa-direito titular do Brasil, mas estava com 33 anos e tinha o lugar em risco. Sabia o que era sofrer com Garrincha nos treinos do Botafogo. E pensou que podia pará-lo na selecção. Uma boa forma de mostrar serviço ao seleccionador Vicente Feola. Só que não... Garrincha agarrava na bola e brindava-o com um, dois, três, quatro dribles. Nílton não aguentou e pediu ajuda a outro jogador do Botafogo: “Didi, fala com ele para não fazer mais isso!” E Didi tentou convencer Garrincha: “Poxa, Mané, não faz isso. O Nílton é do Botafogo e teu chapa.” Garrincha ouviu e tentou abrandar para não prejudicar o colega de equipa. Mas o seu jogo era instintivo. Não conseguia controlar-se e voltou a destruir um dos melhores laterais brasileiros daquela época.

Era mais forte do que ele. Apelidava os adversários de joões. Ou seja: um João qualquer que o tentava marcar, pensava saber o que ele ia fazer, mas era sempre ludibriado. Foi assim no primeiro jogo que fez no Mundial de 1958, na Suécia. O Brasil podia ser eliminado contra a União Soviética e Feola lançou Garrincha a titular. Boris Kuznetov, lateral-esquerdo soviético, foi o João daquele dia. E logo assim que o jogo começou. O jornalista francês Gabriel Hanot definiu aquele início como “os três melhores minutos da história do futebol”. Tudo graças a Garrincha. Destroçou os russos ao lado de Pelé. Juntos nunca perderam um jogo pela selecção e escreveram algumas das páginas mais belas do futebol brasileiro. Foram campeões do mundo em 1958 e repetiram o feito, no Chile, quatro anos depois, no Mundial em que Garrincha seria a grande figura. Pelé lesionou-se logo no segundo jogo e coube ao astro do Botafogo levar o Brasil à vitória final. “Sem Pelé, tem Mané”, diziam os adeptos.

O atleta e o artista

É uma das discussões mais apaixonantes do futebol brasileiro. Qual foi o maior craque do país? Para Eusébio não havia dúvidas: “Houve um melhor do que Pelé. Era Garrincha. Tinha uma perna torta, e a outra esticada, normal. Como fazia aquilo tudo com essa dificuldade? Era um paralítico! E como jogou! Muito melhor do que todos nós! Mas como era do povo, e gostava de outra bebida que não água, ficou marginalizado.”

O Anjo das Pernas Tortas personifica o herói trágico-cómico da sociedade brasileira. Magia e alegria nos dribles estonteantes dentro de campo. Desleixo e irresponsabilidade fora dele. Um homem que cilindrava adversários à mesma velocidade com que despejava uma garrafa de cachaça. Muito diferente de Pelé. Em quase tudo. O “Rei” entrava para ganhar. Mané, o tal homem do povo lembrado por Eusébio, jogava para se divertir.

Génios opostos que também provocam reacções distintas. Garrincha, até pelo fim prematuro e os vícios fora de campo, alcançou uma aura mítica junto do adepto brasileiro. Os defeitos e imperfeições dão-lhe uma condição mais humana ao contrário da carreira quase perfeita de Pelé. Tal como resumiu o Le Monde: “Pelé marcou a história, Garrincha os corações.” Morreu aos 49 anos. Sozinho, na miséria, consumido pelo álcool. Quase esquecido. Antes disso, porém, foi alegria. A alegria do povo.

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Luís Aguilar
Luís Aguilar
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