Assou-Ekkoto que o diga. O internacional camaronês nunca escondeu que via o futebol apenas como um trabalho bem pago. Uma mudança para outra área não seria, por isso, uma surpresa. Redknapp tentou contratá-lo quando orientava o Birmingham, mas diz que se deparou com um obstáculo inesperado: “O único problema é que ele queria ser actor porno. Pensei que talvez conseguisse convencê-lo a jogar um ano antes de fazer essa mudança.” Ekkoto, que trabalhou com Redknapp no Tottenham e no Queens Park Rangers, não foi para Birmingham e desmentiu toda a história do técnico: “Desculpem, mas não me vou tornar actor porno na próxima época. Continuo a jogar e a gostar de futebol. Que grande história, funny Harry!”

Falhou Ekkoto, mas contratou muitos outros. Um dos momentos mais caricatos aconteceu com Amdy Faye. O defesa senegalês pertencia ao Auxerre e fez uma semana de treinos com o Portsmouth na pré-época de 2003/04. O técnico gostou do que viu e quis avançar para o negócio, mas foi avisado pelo agente do jogador que existiam outros clubes interessados. Dias depois, Redknapp soube que o jogador ia regressar a casa e conseguiu encontrá-lo no aeroporto: “Não, Amdy, não podes ir para casa. Precisas de assinar com o Portsmouth antes. Vem comigo, vem comigo”, forçou o técnico. Faye não percebia muito de inglês e acabou por ir para a casa de Redknapp. Quando chegou, ouviu cães ladrar: “Cães? Eu não gosto de cães”, reagiu. “Eles não são cães”, respondeu Redknapp. “São buldogues. Metade touro, metade cão. Se tentares escapar, eles arrancam-te o cu.” Faye ficou e assinou contrato.

Saída de Benjani para o City

Também no Portsmouth, o treinador viu-se perdido para convencer o avançado Benjani a sair para o Manchester City. “O dinheiro era demasiado para ser recusado. Ele trabalhava muito, mas atirava umas quantas bolas para a M27 [auto-estrada] quando tentava finalizar”, contou o técnico na sua biografia It Shouldn´t Happen to a Manager. “Dissemos ao Benji que o City estava interessado, mas ele não se mostrou impressionado. ‘Gosto de estar aqui. Sou feliz aqui.’ E nós ficámos: ‘Não, não, tu deves ir. Manchester, grande clube, grande oportunidade. Vais adorar.’ Quase que tivemos de empurrá-lo porta fora” Mas Benjani queria ficar e perdeu dois aviões. Redknapp, já desesperado, conseguiu convencê-lo a e transferência realizou-se um minuto antes de fechar o mercado. “Também gostaram muito dele no City. Era um tipo espectacular. Mas 9,5 milhões de libras! Só mesmo o Sven para pagar tanto por ele.” Sven-Goran Eriksson era então o técnico do City.

O adepto que até marcou um golo

Entre saídas e entradas, Redknapp sempre foi grande fã de concluir muitos negócios perto do prazo-limite da janela de transferências. O internacional inglês Jermaine Defoe foi um deles. Chegou ao Portsmouth a poucos minutos do mercado encerrar. E o velho Harry dispensou algumas formalidades. “Não te preocupes com os exames médicos. Estás em forma, assina. Vá lá, JD. Só tens de ir lá para dentro e marcar alguns golos. Não precisas de um médico para isso.”

Redknapp é um homem imprevisível. Quando estava no West Ham chegou a pôr um adepto a jogar durante um amigável contra o Oxford United, numa história que contámos na edição de Março de 2017 da Playboy: “Ele estava atrás do banco sempre a refilar e a dizer mal dos jogadores. Ao intervalo fiz três substituições e não tinha mais jogadores. No início da segunda parte, tive um lesionado e ficámos apenas com 10. Então, virei-me para esse adepto e perguntei-lhe: ‘Jogas tão bem quanto falas?’ Ele respondeu-me: ‘Jogo melhor do que esse Chapman.’ Entrou, marcou um golo [foi anulado por fora-de-jogo] e, para ser sincero, foi melhor do que o Chapman”, lembrou o treinador.

Um pesadelo chamado Di Canio

Foi um dos jogadores mais temperamentais que passaram pela Premier League. O italiano Paolo Di Canio tinha tanto de craque como de conflituoso. Redknapp contratou-o em 1999 após o avançado ter cumprido uma suspensão, ao serviço do Sheffield Wednesday, por empurrar um árbitro. “Ele era de difícil manutenção, mas um génio”, admitiu o treinador. Por isso, Redknapp fazia tudo para manter o italiano feliz. “Nos treinos, colocava-o sempre numa equipa onde não houvesse ninguém que o magoasse, como Stuart Pearce, Nigel Winterburn ou Steve Lomas, tipos que gostavam de uma boa entrada. Se alguém lhe desse um toque mais forte, havia logo confusão. Fazia questão de o pôr na equipa certa.”

Mas nem com todos esses cuidados Di Canio deixava de ser uma dor de cabeça. Num jogo frente ao Bradford City, em 2000, o West Ham perdia por 4-2 e a sua grande figura teve três lances de pénalti negados pelo árbitro. Resultado: Di Canio fartou-se, sentou-se na linha lateral e exigiu a substituição. “Paolo, levanta-te”, gritou Redknapp. “Paolo, por favor, levanta-te. Estamos a perder.” Lá conseguiu convencer o italiano e tudo mudou. O West Ham venceu 5-4, com uma grande exibição de Di Canio. “Um génio”, disse Redknapp tantas vezes.

Futre, number 10

Apesar do feitio particular de Di Canio, talvez o episódio mais insólito da carreira de Redknapp tenha acontecido com um português. Neste caso, quando Paulo Futre representou o West Ham. “Juntou-se a nós em 1996 e a sua habilidade era impressionante”, lembra o técnico na sua biografia. “Os treinos paravam para o observarem a bater livres. Está entre os dez melhores que alguma vez vi.”

Mas a história começou mal. “Eusébio 10, Maradona 10, Pelé 10, Futre 10, não a porcaria do 16”, foi isto que Futre disse antes de um jogo com o Arsenal que era para ter sido a sua estreia. O português recusava-se a ficar com o número 16. “Ele atirou a camisola à cara de um dos meus adjuntos e depois também veio para cima de mim.” Redknapp tentou explicar gentilmente: “Paulo, não podemos mudar. O jogo está prestes a começar, já demos os números dos jogadores. E tu és o 16. Não fomos nós que escolhemos. Era o número que estava livre quando chegaste. Paulo, veste essa camisola, por favor. Temos um grande jogo.” Mas o internacional luso insistia: “Futre, 10. Número 10 no Milan, Atlético de Madrid, Porto, Sporting, Benfica. Futre 10.” Em desespero, Redknapp torna-se mais duro e faz uma ameaça: “Se não queres usar esse número, sais da equipa.” E Futre saiu mesmo. Redknapp não esperava essa reacção. Menos ainda o que aconteceu a seguir.

“Na segunda-feira seguinte, o Paulo apareceu com a sua equipa de advogados para negociar o número 10. Começámos por dizer-lhe que já tínhamos vendido muitas camisolas com a inscrição ‘Futre, 16’ nas costas, mas ele apanhou o nosso bluff: ‘Quantas? Eu pago 100 mil libras. Foi aí que percebemos que não podíamos ganhar aquela discussão. Futre estava disposto a gastar 100 mil libras apenas para ter o número 10.” Mas no final saiu muito mais barato. John Moncur, o detentor da camisola 10, adorava golfe. E foi assim que Futre conseguiu o que queria, como recordou Redknapp: “Em troca do número, o Paulo deixou-o ficar duas semanas na sua casa de férias do Algarve, com vista para o melhor campo de golfe da zona.”

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Luís Aguilar
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