“É bastante confuso. No outro dia o boss tentou explicar-nos da melhor forma que podia. Acho que ele agora já domina o tema, mas foi preciso estudá-lo bastante. Para nós jogadores, vamos para cada jogo para tentar vencer e ver onde isto nos leva. Por isso logo vemos depois do jogo.” As palavras são de Harry Maguire, defesa do Leicester, falando aqui na qualidade de internacional inglês, a quem o boss Gareth Southgate tentou explicar o conceito da UEFA Nations League (em todas as comunicações oficiais, independentemente da língua, a prova aparece sempre designada em inglês). Para já, Maguire admite que não percebe o formato do torneio e acredita que o mesmo se aplica aos seus colegas de equipa.

Por esta altura, quase sem prestarmos muita atenção, um terço da Liga das Nações já foi disputado nos jogos de Setembro (depois há uma fase final para quatro equipas, já lá chegamos), mas nada como começar pelo início e tentar dar a mão a todos os que, como o colega de Adrien Silva no Leicester, não percebem bem o que se está a passar.

Comecemos pelo início: a prova foi criada essencialmente para diminuir de uma forma drástica os amigáveis entre selecções europeias, também conhecidos como os jogos mais desinteressantes do universo, pois amigáveis de clubes ainda servem para tentar perceber se os reforços jogam alguma coisa. Estes nem isso. Depois também há a parte dos direitos televisivos centralizados, que podem dar mais alguns lucros às federações de países que não recebiam convites para disputar jogos com cachets interessantes, mas ao contrário da Champions, isso aqui nem será dos pontos mais importantes.

A Liga das Nações consiste em quatro divisões, com a Liga A a ser formada pelas 12 selecções melhor classificadas no ranking da UEFA após a conclusão da fase de qualificação para o último Mundial. Portugal, que se encontrava então em segundo lugar do top europeu, ficou colocado nesta primeira divisão, o que lhe permitiu ainda ser cabeça-de-série. Estas 12 selecções foram depois sorteadas em quatro grupos diferentes, onde serão disputados jogos em casa e fora de cada uma das três selecções. A primeira classificada de cada grupo qualifica-se para a fase final e a terceira e última desce para a Liga B. “Então e a que fica em segundo lugar?”, pergunta o leitor. Bem visto: não lhe acontece nada, fica na mesma divisão à espera da próxima edição, que se disputará daqui a dois anos. E tudo funciona de forma semelhante para as descidas e subidas entre as divisões seguintes.

Trata-se portanto de uma prova curta, com 55 selecções a disputarem quatro jogos cada, frente a dois adversários, ao longo de três paragens dos campeonatos, em Setembro, Outubro e Novembro. A tal fase final será disputada em Junho, apenas entre as quatro vencedoras dos grupos da divisão A, com meias-finais e final. O anfitrião será um dos quatro países finalistas.

Na prática, tudo isto significa que, entre Espanha, Alemanha e Croácia, uma vai descer de divisão e em 2020, porque a prova se disputa de duas em duas temporadas, andará a jogar contra Áustria, Turquia, Irlanda ou Ucrânia, dependendo de quem sobe e desce de divisão nesta edição inaugural. O mesmo acontecerá a uma de outras três selecções fortes, França, Alemanha e Holanda. Nós ficámos entretidos com Itália e Polónia e já agora não vamos deixar de nomear o grupo que falta entre as teoricamente mais fortes, que estão a disputar este primeiro título: tratam-se de Suíça, Bélgica e Islândia.

E como com 55 selecções em disputa seria complicado conseguir conta certa, na segunda divisão vamos ter à mesma 12 países em prova, mas na terceira e quarta já serão 15 e 16, respectivamente. Se as estamos a referir é porque também haverá interesse nessas lutas, além das promoções e despromoções: quem vencer cada grupo disputará um dos quatro lugares de acesso ao Euro 2020, um por divisão, reservados para os participantes da Taça das Nações que não se tenham qualificado pela via tradicional, que desta vez terá início apenas em Março de 2019, seis meses depois do que era habitual antes da introdução desta prova.

Isso significa que até mesmo uma das selecções da divisão D, as 16 piores do ranking da UEFA, estará no Euro 2020. Para se ter uma ideia, a melhor classificada desse pelotão na altura do sorteio era o Azerbaijão, acompanhado por concorrentes como Gibraltar, Kosovo ou Malta.

Com um troféu e quatro vagas para o Euro em disputa (vamos recordar que, apesar do alargamento recente, uma selecção como a Holanda falhou a qualificação para o de 2016), é fácil perceber que a Taça das Nações tem mais interesse do que aparenta à partida, mesmo sem sequer precisarmos de a comparar com os jogos amigáveis que substitui.

Mas talvez Harry Maguire tenha razão, o que interessa é ir ganhando os jogos e logo se vê o que vai acontecendo, até à final marcada para 9 de Junho do próximo ano.

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