Como é natural pelas suas dimensões gigantescas, a maior contribuição para este aumento aconteceu com o fim da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, que deu origem a quinze países, sendo que nem todos ficaram na UEFA: Quirguistão, Tajiquistão, Turquemenistão e Uzbequistão hoje pertencem à confederação asiática, sendo que apenas este último é presença habitual na Taça da Ásia. Na maioria dos casos, a história repete-se na parte europeia, com Estónia, Lituânia, Arménia, Azerbaijão, Bielorrússia, Geórgia, Cazaquistão e Moldávia sem qualquer participação em grandes competições. A Letónia esteve apenas no Euro 2004, sem deixar grandes recordações e mesmo a Ucrânia só foi a um Mundial em seis qualificações disputadas, chegando a uns respeitáveis quartos-de-final. Além disso, esteve nos dois últimos Europeus, mas também só se qualificou para um, porque no anterior era um dos organizadores. Mesmo assim ficou em ambos pela fase de grupos.

Uma das explicações para este fraco desempenho entre as restantes antigas repúblicas soviéticas será a escolha de alguns jogadores, como Andrei Kanchelskis, que após a separação preferiu jogar pela Rússia, apesar de ter nascido numa cidade agora ucraniana. O antigo jogador do Manchester United cumpriu 36 jogos pela selecção russa, entre 1992 e 1998, que teriam dado jeito a uma Ucrânia que se viu obrigada a começar praticamente do zero.

Só mesmo a Rússia, que mantém os registos históricos como herdeira da URSS, é que tem salvo a honra do antigo império. Esteve presente em quatro Mundiais, chegando aos quartos-de-final no último e desde 1996 apenas falhou o Euro 2000 no que toca a esta prova, destacando-se apenas um entre estes desempenhos, quando em 2008 foi derrotada nas meias-finais pela Espanha, futura campeã.

Mesmo assim ainda não chegou tão longe como a URSS, presença regular em fases finais e que em em Mundiais tem como melhor resultado um quarto lugar, em 1966, quando após ter sido afastada da final pela República Federal da Alemanha também acabou por perder com Portugal no jogo para o último lugar do pódio. A grande força do futebol soviético foi demonstrada nos Europeus, com um título vencido numa final frente à Jugoslávia, logo na edição inaugural, em 1960. Curiosamente, na eliminatória anterior à fase final, disputada apenas por quatro selecções, (formato de meias-finais e final que se manteve até 1976, altura em que alargou para dois grupos de quatro equipas), a URSS deveria ter enfrentado a selecção de Espanha, mas a recusa dos espanhóis em se deslocarem à União Soviética valeu aos adversários a qualificação directa. No Euro seguinte, em 1964, os soviéticos voltariam a chegar à final, onde sofreram a vingança dos espanhóis, que dessa vez até jogavam em casa. Em 1968, voltaria a acontecer algo invulgar, com a derrota nas meias-finais a chegar por moeda ao ar, após prolongamento. Quatro anos depois, a URSS voltou a estar pela quarta vez consecutiva nas meias-finais, onde ultrapassou a Hungria mas foi derrotada pela RFA no jogo do título. Seguiu-se uma ausência nos três Euros seguintes, mas em 1988 regressariam em grande nível. A União Soviética começa por vencer o grupo, onde também se qualifica a Holanda, com ambas a ultrapassarem nas meias-finais a Itália e a RFA, respectivamente. Na final, Gullit e Van Basten vingaram a derrota no jogo da primeira fase e conseguiram o único título da Laranja Mecânica.

No Europeu seguinte, em 1992, os soviéticos conseguiram a qualificação num grupo em que ficou de fora a Itália, mas a dissolução da URSS levou a que fosse criada a Comunidade de Estados Independentes, que apenas participou nessa fase final, onde foi eliminada logo na fase de grupos.

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O Euro ‘92 também deixou de fora a Jugoslávia, mas esta mesmo banida por o país não cumprir as sanções das Nações Unidas, o que levou à chamada em cima da hora da Dinamarca, que acabaria por se tornar campeã europeia, num dos momentos mais incríveis do futebol moderno.

Apesar de praticar um futebol que lhe chegou a valer a alcunha de brasileiros da Europa, a selecção jugoslava nunca chegou a vencer qualquer prova. Em Mundiais ficou duas vezes pelo quarto lugar, em 1930 e 1962, participando pela última vez numa grande competição em 1990, onde foi eliminada nos penalties pela Argentina de Maradona (que não conseguiu marcar o seu a Ivkovic), selecção que viria a ser finalista vencida.

Mas foi em Campeonatos da Europa que esteve mais perto da vitória, com duas finais perdidas: uma que já mencionámos, em 1960, frente à URSS e a segunda em 1968, contra a Itália, depois de nas meias-finais terem eliminado a campeã do Mundo Inglaterra. A final, disputada em Roma, terminou em empate após prolongamento, mas dois dias depois os jugoslavos não conseguiram resistir em novo jogo frente à anfitriã.

Entre as sucessoras, a Croácia é a mais bem sucedida. Desde 1996, só falhou um Mundial e um Europeu, com duas boas participações separadas por duas décadas: um terceiro lugar no França ‘98 e finalista vencida no Rússia 2018. Já a Sérvia falhou dois Mundiais e quatro Europeus, obtendo como melhores registos uns oitavos e uns quartos-de-final, respectivamente. Entre as restantes cinco nações ex-jugoslavas, apenas se destaca a Eslovénia, que marcou presença, sem grande sucesso, num Europeu e dois Mundiais. A Bósnia esteve apenas no Mundial 2014 e a Macedónia ainda não chegou a qualquer grande competição, tal como os mais recentes Montenegro (desde 2006) e Kosovo, que ainda só participou na qualificação para o Rússia 2018.

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Outra separação, esta apenas em duas partes, foi a da Checoslováquia. Presente em duas finais de Campeonatos do Mundo, começou logo a chegar longe no segundo a ser disputado, em que foi derrotada apenas no jogo decisivo pela equipa da casa, a Itália. Em 1962, repetiu a dose, desta vez no Chile e com o Brasil a servir de carrasco na final. O seu maior feito foi vencer o Euro em 1976, o último a ser disputado como final four. A Jugoslávia foi a anfitriã e nenhum dos quatro jogos foi decidido no tempo regulamentar, com os checos primeiro a vencerem a Holanda no prolongamento, derrotando depois a RFA na final, após grandes penalidades, com o tal penalty de Panenka a dar aos checos o único título da sua história.

Também a República Checa teve a sua maior aventura num Europeu, logo na estreia, em 1996, quando passou por Portugal, através do célebre chapéu de Poborsky a Vítor Baía, eliminando depois a França e perdendo na final frente à Alemanha, com um Golo de Ouro de Bierhoff, aos cinco minutos do prolongamento, no que se tornou a principal competição a ser decidida por esta regra, que terminava o jogo assim que alguém marcasse no prolongamento. Até agora a Rep. Checa participou em todos os Euros, mas em relação a Mundiais apenas se qualificou para um, em seis tentativas, não passando sequer a fase de grupos nesse Alemanha 2006. Já a Eslováquia tem um registo bem pior, marcando presença apenas num Mundial e num Europeu desde que se começou a tentar qualificar, também para o Euro ‘96.

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Como nem só as separações levam ao desaparecimento de selecções, é obrigatório recordar também a Alemanha, que se dividia em República Federal e República Democrática. Se para a RFA tudo se manteve dentro da normalidade, vencendo três Mundiais e dois Europeus antes de a Alemanha se reunificar, já a RDA, entre 1952 e 1990, apenas participou num Campeonato do Mundo. Foi em 1974, e logo na Alemanha Ocidental, com as duas Alemanhas a ficarem no mesmo grupo. Surpreendentemente, os homens de Leste também conseguiram a qualificação para a fase seguinte, vencendo a RFA, já qualificada, no jogo decisivo e deixando pelo caminho Chile e Austrália. Curiosamente, essa passagem da Alemanha de Leste em primeiro lugar do grupo levou-os para o caminho mais complicado, numa segunda fase de grupos (era assim na altura) com Brasil, Argentina e Holanda, por oposição ao outro grupo com Polónia, Suécia e Jugoslávia. Um empate frente à Argentina foi o melhor que conseguiram, enquanto que a Alemanha Ocidental… foi campeã do Mundo.

Mas durante seis anos, entre 1950 e 1956, ainda existiu uma terceira selecção alemã. A França opunha-se à inclusão do Sarre na Alemanha Ocidental, então o Protectorado foi aceite na FIFA e disputou mesmo a qualificação para o Mundial de 1954. Como a vida tem destas coisas, claro que calhou no grupo da República Federal da Alemanha. Com a Noruega já eliminada, o último jogo entre as duas selecções alemãs decidia quem iria participar no torneio disputado na Suíça. O Sarre precisava de vencer em casa, mas perdeu por 3-1 e a RFA não só se qualificou… como foi campeã do Mundo. Em 1957, o Protectorado foi integrado na RFA e a situação ficou resolvida para sempre.

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Desde a Irlanda, formada em 1882 e que se viria a tornar Irlanda do Norte, separando-se da República da Irlanda, foram muitas as selecções que deixaram de existir, isto sem falar das que simplesmente mudaram de nome. Em quarenta anos vimos o Europeu aumentar de 4 para 24 selecções e o Mundial passar de 16 para 48 equipas em prova a partir de 2026. O futebol nunca mais foi ou mesmo, mas a história… fica para a história.


E OS CLUBES, PÁ?

Antes da separação, os clubes da URSS tinham vencido três competições europeias, curiosamente sempre a Taça das Taças e através de clubes de fora do que é hoje a Rússia: Dinamo Kiev (1975 e 1986), da actual Ucrânia, e Dinamo Tbilisi (1981), que agora faz parte da Geórgia. Desde então, os clubes efectivamente russos venceram por duas vezes a Taça UEFA, o CSKA Moscovo em 2005 e o Zenit em 2008. No ano seguinte foi a vez dos ucranianos do Shakhtar vencerem a prova, a última antes de passar a Liga Europa.

Em relação aos outros países nunca mais houve qualquer sucesso, sendo que na verdade já antes das mudanças não havia muito. Foi uma Taça das Taças para os actualmente eslovacos do Slovan Bratislava, em 1969, outra para os alemães de Leste do Magdeburgo, em 1974, com o grande destaque a ir para os jugoslavos do Estrela Vermelha, campeões europeus em 1991.

Para se perceber como o futebol mudou desde que os campeões nacionais deixaram de ter acesso garantido à prova, os actualmente sérvios do Estrela Vermelha só se estrearam na Liga dos Campeões esta época, ao fim de 27 edições. Usando Portugal e as 49 participações dos seus clubes na Champions como referência, é fácil perceber que desde que a prova privilegiou os milhões em vez dos campeões, só a Rússia (37 participações) e a Ucrânia (29) continuam a ser presença assídua, com média superior a uma participação por edição. De resto temos a República Checa com 11, Croácia com 7, Bielorrússia com 5, com três Eslováquia, Sérvia e Eslováquia, e apenas uma para Azerbaijão e Cazaquistão.

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