e ainda tivemos mais uma ocasião, em 2009/10, em que Braga e Benfica terminaram a primeira metade da Liga com os mesmos pontos, com as águias a acabarem por vencer o título. Ou seja, em 70 a 80% dos casos (dependendo de considerarmos que o Braga tinha vantagem nesse confronto directo), o campeão de Inverno repetiu o sucesso no final.

Continuando a observar os últimos dez anos, sem esquecer o mítico mercado de Inverno do Sporting em 2000, com a chegada de André Cruz, César Prates e Mbo Mpenza a contribuir bastante para esse título, vamos então recuar até 2008/09, época em que o FC Porto era líder em Janeiro e se manteve na frente até final. Os azuis e brancos fizeram duas contratações, acertando em cheio numa delas: Aly Cissokho, que não só fez 22 jogos a titular no resto da época, como custou tostões (cerca de 300 mil euros pagos ao V. Setúbal) e ao fim de meio ano estava a sair para o Lyon por 16 milhões.

Muitas das vezes, o melhor que se consegue é que um jogador faça meia dúzia de jogos a titular e ainda venha a acabar a época fora do onze, como Marat Izmailov, quando em 2013 chegou às Antas. E isso pode muito bem bastar a quem já liderava a prova no Inverno. Liedson fez-lhe companhia e jogou um total de 67 minutos na Liga, resumindo-se tudo bem espremido a algo que acabou por dar um título: o passe para Kelvin no histórico golo que ajoelhou Jesus. Muito mais raros são os reforços como Jardel, que apesar de não ter sido suficiente para ajudar o Benfica a ultrapassar o FC Porto em 2010/11, se veio a afirmar como peça importante até aos dias de hoje. A mesma sorte não teve o Sporting com Cristiano, que nessa mesma janela chegou do PAOK, para fazer apenas cinco jogos de verde e branco.

Essencialmente o que interessa é começar a época com o plantel já bem estruturado: em 2013/14, o Benfica nem precisaria de qualquer reforço para ganhar a prova, que já liderava em Janeiro. E isto frente a um FC Porto reforçado com Quaresma, que terminaria em terceiro, atrás do Sporting: Héldon, Elias e Shikabala não deram para mais do que ficar a sete pontos do Mestre da Táctica. E na época seguinte poderíamos dizer que se passou o mesmo, pois apesar dos dois reforços de Inverno, basta analisar que Hany Mukhtar e Jonathan Rodríguez jogaram 16 e 4 minutos, respectivamente: o Benfica já liderava e conquistou outro campeonato.

Mesmo quando a liderança muda após o final da primeira volta, habitualmente tal não se deve aos reforços. Vamos pegar então na tal época de 2009/10, a da liderança dividida no Inverno, que o Benfica acabaria com mais cinco pontos que o Braga, vantagem totalmente adquirida na segunda volta, que teve início exactamente a meio da janela de transferências de Inverno. Os reforços do Benfica foram Alan Kardec, Éder Luís e Airton, que todos juntos somaram apenas cinco jogos a titular na Liga portuguesa, sendo que apenas Airton chegou a completar por uma vez os noventa minutos. Éder Luís ainda abriu um marcador, na goleada ao Leixões em Matosinhos, por quatro bolas a zero, com hat-trick de Di María, enquanto que Kardec só facturou uma vez nessa época, mas na Liga Europa, onde entrou aos 86 minutos em Marselha, ainda a tempo de dar a vitória aos encarnados.

Em relação aos outros eternos candidatos, o Sporting acertou com João Pereira, contratou também o já veterano Pedro Mendes e desperdiçou imenso dinheiro em Florent Sinama-Pongolle, certamente no pódio das piores contratações da história leonina. Já o FC Porto, ficou-se apenas por Rúben Micael.

Claro que há excepções, como 2011/12, quando a liderança também voltou a mudar, desta vez passando do Benfica para o FC Porto, e aqui os reforços foram importantes, com o pinheiro austríaco Marc Janko a assumir-se como titular no ataque, contribuindo com quatro golos na Liga, bem como Lucho González, que após dois anos e meio em Marselha regressava aos dragões para tomar conta do meio-campo, só dispensando a titularidade na última jornada. Outro reforço, então ainda com relativamente pouca relevância, foi o brasileiro Danilo, que aproveitou para ir fazendo os primeiros minutos de azul e branco. Tudo isto foi suficiente para que o Porto de Vítor Pereira, que ficou com a criança nas mãos após a partida inesperada de Villas-Boas, acabasse o campeonato com mais seis pontos que o Benfica, que se reforçou com Yannick Djaló. Isto para nem falar do Sporting, que terminou em quarto, após as chegadas de Xandão, Sebastián Ribas e o regresso do emprestado Renato Neto.

Em 2015/16, a história foi diferente e, como tem sido habitual, terminou mal para os lados de Alvalade. Era o primeiro ano de Jorge Jesus no Sporting, que liderava a classificação no final da primeira volta e ainda se reforçou com Marvin Zeegelaar, Coates, Bruno César, Barcos e Schelotto. Mesmo assim, não chegou para aguentar até ao fim à frente de Rui Vitória, que só tinha visto chegar Grimaldo, apenas utilizado duas vezes até final desse campeonato, e Luka Jovic, que entrou uma vez aos 85 minutos, mas curiosamente ainda deverá valer uma verba considerável ao Benfica, fruto das atenções que tem chamado com o seu desempenho nesta época pelo Eintracht Frankfurt. Foi também aqui que Marega chegou ao Dragão, na companhia de Suk, ambos sem muito sucesso nesta segunda metade de época.

Curiosamente, outra das peças importantes do actual ataque portista, Soares, também chegaria durante o Inverno, já na época seguinte (2016/17), onde o Benfica não deu hipótese, apesar de só se ter reforçado com Hermes, Filipe Augusto e Pedro Pereira. Já o Sporting desta vez ficou-se por regressos a casa dos jovens emprestados Palhinha, Wallyson, Chico Geraldes e Podence.

Na última época, a história mais comum voltou a repetir-se: liderança de Inverno a manter-se no final e reforços que não serviram para grande coisa. O Benfica não fez aquisições, o Sporting contratou Wendel, Misic, Lumor, Rúben Ribeiro e Montero, apenas com este último a dar algum contributo menos intermitente, e o próprio FC Porto não usufruiu muito dos contributos dos seus reforços, todos eles já fora do clube ao fim de seis meses: Yordan Osorio, Paulinho, Majeed Waris e Gonçalo Paciência, com destaque pela negativa para os dois últimos, que apesar das oportunidades no ataque não marcaram qualquer golo.

Claro que uma janela de mercado, mesmo a de Inverno, é sempre interessante, mas fixe a data de 12 de Janeiro. É para este dia que está marcado o final da primeira volta e quem estiver à frente tem muitas probabilidades de vir a ser campeão lá para Maio. Quanto aos reforços do seu clube, não lhes peça muito para já. Com sorte, podem vir a dar umas alegrias nas temporadas que se seguem.

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