Os verões dos vintes não são os verões dos quinzes, em que podias desperdiçar os três meses de férias sentado na mesma cadeira, do mesmo café, com os mesmos amigos, bebendo sorrateiramente da mesma garrafa de vinho carrascão, comprada na mesma mercearia de sempre, falando da mesma miúda, mesmo boa, mesmo que tivesse mais gordinha, iam lá na mesma.
Depois desse tempo áureo, todos os anos virá a mesma proposta. “Pessoal, temos de passar férias todos juntos outra vez!”. Cria-se um grupo no Whatsapp com antecedência e planeia-se tudo ao pormenor.

Expectativa Seis Meses Antes!

“OK, malta, temos de nos organizar para a viagem. Vai ser épico! Em princípio somos vinte e seis, tudo gajos! Partimos dia 2 de Agosto para Amesterdão!”

“Vamos para lá de autocaravana, de acordo? Chegamos lá, fumar uma de Kush, casa da Anne Frank, fica despachado. De Amesterdão, arrancamos logo para a Bélgica. Bélgica, vamos ao festival Tomorrowland, loucura! Ainda não temos os bilhetes, o Pedro acha que estão esgotados. Mas bom, ou arranjamos na candonga, ou do lado de fora também se ouve. O importante é estarmos juntos.”

“Bom, depois da Bélgica, já que estamos perto, vamos para Helsínquia. Tenho um tio que vive lá, ele disse que era tranquilo ficarmos lá os 26. É um T0 com kitchenette, mas um gajo arranja-se, sacos-cama e tal, não há stress. Não ficamos muito tempo em Helsínquia, porque é caro. Apanhamos logo táxi para Moscovo, está bom?”

“Em Moscovo é importante, muito importante, comprarmos logo o bilhete para o Intrarrail na Sibéria! Digo-vos, é um must-do. Os gajos têm lá uma reserva de comunistas dissidentes bebés, onde dá para tirar fotos, dar-lhes festinhas, eles tocam “A Internacional” em xilofone. É interactivo e dá likes no Instagram.”

“A seguir, não podemos perder muito tempo. Apanhamos logo boleia até Bagdade. Bagdade, vou ser sincero, é mais para relaxar a meio da viagem. Pode haver minas no chão? Pode. Mas digo já que levo os meus sapatos para o peixe-aranha e não empresto a ninguém. Mas é para estar no chill… passear um pouco, ver as gatinhas a passar.”

“De Bagdade, apanhamos teleférico para o Golfo Pérsico. Daí, apanhamos um cruzeiro para Miami. Para mim é chato que enjoo, mas também é só um mês. Em Miami, dirigimo-nos para as instalações da NASA. Não tem nada que saber, candidatamo-nos a ser os primeiros turistas em Saturno. A partir daí é cada um por si, que um gajo também se cansa de ver sempre as mesmas caras.”

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Manuel Cardoso
Manuel Cardoso
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