Comida/ Food Porn

Não há tempo a perder: pára de seguir páginas de comida deliciosa.

Então, tudo o que tens em casa é uma lata de cavala e fusili em fim de pacote e queres continuar a deprimir a olhar para uma fotografia de Chicken Quesadilla Chipotle w/ Jalapeños in Selena Gomez’s Ass Cheeks, é isso?

É suposto que essas páginas te motivem como chef? Não enganas ninguém, tu não sabes cozinhar. Ou não te lembras da vez em que prometeste fazer uma refeição romântica à tua namorada e no final de contas estavas indeciso entre mandar vir entremeada com guarnição e requentar uns nuggets do LIDL que a tua mãe tinha feito nas férias? Mesmo que até sejas uma versão mais asneirenta do Ramsey, tem cuidado com a forma: essas páginas só mostram comida com mais calorias do que um guisado de Manuel Serrão em cama de João Gobernsautée. É para esquecer.

A característica mais irritante destas páginas é terem Nutella por todo o lado. A internet tenta convencer-nos que só podemos apreciar verdadeiramente a gastronomia se sempre que estivermos a comer formos assolados por um tsunami desse creme de avelã, caso contrário tudo é insípido. Nutella com tudo. Pão com Nutella; gelado de Nutella; brownie de Nutella; kebab de Nutella; cogumelos Shitake com Nutella; entrecôteau Nutella; filetes de peixe galo em tártaro de Nutella; showcooking de sushi em que o sushiman tem um boião gigante de Nutella na cabeça para esconder que não é japonês, mas sim um brasileiro de Florianópolis. Não se aguenta.

Viagens/ Lifestyle

És um sonhador, não é? Dizes aos teus amigos que o Mundo é o teu quintal, mas já passaram dois anos desde aquele arrojado mochilão em Ayamonte, não é? Vais ter de acabar com a ilusão e começar a trabalhar para os teus objectivos. Não é a seguir páginas de destinos paradisíacos que vais cair de repente num resort em Phuket na Tailândia onde levas com um upgrade e ficas alojado à beira mar numa cabana feita de ex-prepúcios de actuais ladyboys.

Tu conheces essas páginas, tipo “Awesome Destinations”, que postam fotografias paradisíacas com mais filtros do que a rede de distribuição de água no Ruanda. A foto: um casal a andar de burro em Santorini. A legenda: “tag someone you love”, a pressionar para marcares a tua namorada, iludindo-a que não és um teso preguiçoso que não a consegue levar a almoçar ao Samouco. Chega de mentiras: vais ter de lhe dizer que o único Island hopping que vão fazer este ano é na Berlenga e é se não estiver farrusco.

Deixa de seguir essas páginas o quanto antes. Tendo em conta que a frase que define a tua situação económica é “Ainda dá para trocar notas de escudo?”, a tua miúda vai perceber mais tarde ou mais cedo que é triste que a tenhas marcado numa paisagem de um fiorde norueguês quando a única coisa escandinava que tu trazes para a vida dela é o bacalhau à Brás do Minipreço.

Tem cuidado com a gestão das expectativas, caso contrário o único backpacking que vais fazer é de volta para casa da tua mãe.

Queres evitar desiludir-te com a tua vida e enganar a tua dama? Pára de seguir páginas que te seduzem com a Polinésia Francesa e vai à procura de uma conta de Instagram que dê o valor merecido ao Parque de Campismo de Olhão. Tipo @riaformosabackpacking ou @bigeyewanderlust ou @campinggazlovers. Estão a ver? #QuechuaIsLife #ODucheNãoTemPressãoSuficiente #EsgotaramOsPensosHigiénicosNoMini-Mercado #DeusMeLivreDeComerNoodlesOutraVez #LifeGoalDormirAoLadodeCiganos. Muito mais realista.

Pitas/ Pseudo-modelos

Tens de deixar de seguir adolescentes pseudo-modelos com milhares de seguidores. Estás a enganar-te a ti e a elas. A ti, porque achas que vais safar um miminho daqueles com um like; a elas porque vão continuar iludidas de que são a Emily Ratajtowksy de Telheiras e que podem anular Geometria Descritiva à vontade, porque lhes basta apostar na elíptica e ser RPs no Manta Beach para vingar na vida.

Sim, seu rebarbado. Achas que se fizeres gostos em vinte fotografias, tiradas há 125 semanas, ela vai querer casar contigo? “Fiquei encantada com o facto de gostares dos 20% de mama que exibi numa sessão fotográfica no Portinho da Arrábida, senti uma conexão que há muito não sentia, bora pinar?”. Não vai acontecer.

Pitas com 26 000 seguidores. 26 000 rebarbados na demanda de um vislumbre de bagas. Sabem o que são 26 000 pessoas? É casa cheia no estádio AXA! É a totalidade dos habitantes de Tavira! É trinta vezes a população do Vaticano! Sim, há trinta vezes mais bardajões a idolatrar a fisga de uma pita do secundário do que eclesiásticos entusiastas de sacos escrotais pré-adolescentes.

O problema é que não só segues estes catálogos pessoais de carne adolescente, como também acabas por seguir as páginas das marcas de fatos-de-banho para quem estas pitam posam. Vocês sabem, aqueles triquinis florais, tipo equipamento de luta greco-romana meets ejaculação do Jardim Botânico. ´

Percebe uma coisa: em primeiro lugar, as modelos não são para o teu bico. Tens de ser mais realista. No máximo, podes almejar bater o couro às clientes que vão lá comentar “Entregam no Cacém? Têm em XL?”. Depois, continuas a insistir que segues essas páginas por causa das gajas, mas aquilo cobre-lhes o corpo quase todo. Levas-nos a pensar que tens um fetiche e que desejas descer a Almirante Reis com um triquíni daqueles posto. Um Borat nasce no Intendente.

A sério, há razões para seguir estas miúdas? É para efeitos de masturbação? Impressiona-me como o rebarbado do século XXI, com terabites e terabites de pornografia e erotismo feitos com meios e dedicação ao seu dispor, continua a procurar motivos de erecção em catálogos de moda. Percebam uma coisa: a pívea não é o core business do Instagram. Se a sociedade se mantiver neste caminho, pouco faltará para estarmos à espera do 735 e a paragem ser invadida por jogadores de League of Legends que interromperam uma sessão para virem à rua auto-satisfazerem-se à custa da nova campanha da Calzedonia com a Sara Sampaio. Enfim, um pouco de respeito para com a Playboy.

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Manuel Cardoso
Manuel Cardoso
Stand-up comedian com óculos CONTACTOS PROFISSIONAIS francisco@bunchofproductions.com