Vim à minha terra, Porto de Mós, perto de Leiria. E isto foi basicamente andar de rojo de arraial em arraial. A vomitar em cada quermesse que apanhava, porque aquilo tem lá vasos que parece que foram mesmo feitos para um gajo lá largar a náusea. Posto isto, esta experiência empírica no chamado arraial ou baile, vou-vos deixar aqui com um top 5 do tipo de pessoas que podem encontrar num arraial de verão.

A emigrantona – É filha de emigrantes (quem diria?). Está na faixa etária entre os vinte e os trinta. Procura genitália, quizomba e bebidas brancas marteladas. É facilmente identificável pelas leggings tigreza, aquela tatuagem marota ao fundo da costa e a maneira como dança sozinha o Morena Kuduro. Nota-se pelo jogo de anca que procura mais festa do que a festa que está a haver. Normalmente traz uma ou duas amigas, que não têm ligações a Portugal e estranham muito tudo até estarem minadas.Por norma, acabam a noite no banco de trás de um Fiat Stilo de 2004 ou no sótão da casa dos pais do nosso amigo que mora na terra. No dia a seguir há instagram com #trésjolie ou #jenesaispas.

A gaja da banda pimba – Saca grande pernaça. É feia mas sabe disfarçar com maquilhagem. É a musa de todas as danças dos bêbados. Veste muito pouco. No corpo tem dois trapos e na cara tem dois dentes. Mas sabe mexer o rabo e com as luzes os velhos ficam logo de meia canjola, e eu também, às vezes. É pro no karaoke e inimitável em backvocals. Todos os seus movimentos corporais parecem uma sevilhana com trissomia, ainda assim, consegue despertar tesões no mais bêbado dos bêbados. São os Singer Glasses. Por norma, acaba a noite a arrumar a bateria na carrinha com dois ou três gajos a perguntar-lhe se ela não quer descansar um bocado em casa deles e depois ir até Idanha-a-Nova onde é o próximo show.

Os velhos amorosos – São velhos. São amorosos. Nasceram com a dança no corpo. Dançam juntos como casal eterno e feliz para sempre. Há ali amor. Partem quizomba, partem slows, partem pimba. Nada os pára e a pista é deles. Normalmente acaba quando o velho tem um AVC ou o marido da velha aparece.

Os irónicos – É aquela malta que está lá com o carrapito no cabelo ou com camisolas dos Radiohead ou dos Smiths. Ou então só com aquela cara e barba muito deles. Estão a curtir o baile ironicamente. A fazer aquela dança muito embaraçosa, mas que eles pensam que passa uma imagem de “agarra o teu Verão”. É gente que é superior. Homo sapiens sapiens sapiens sapiens sapiens. Costumam ler Focault e passar tempo em galerias de arte. Saem à noite para os sítios mais alternativos. Saem de dia só quando a luz está boa para tirar fotos. Saem de casa porque os pais não os percebem. Saem de Portugal porque não aguentam mais a tacanhez. Saem de sítios onde se fuma porque está muito fumo. Saem de sítios onde não se fuma porque está pouco fumo. Só não saem é do armário porque dá muita cana.

A Dolores Aveiro – Têm uma pochete Michael Kors da feira e aproveita para trazer todo o ouro que tem em casa. É similar à velha dos “velhos amorosos” em alguns pontos. Está muito solta e traz sempre uma criança ao colo. Criança essa que tem duas pulseiras de ouro em cada pulso e ainda o fio do baptismo oferecido pelo padrinho da América. É a criança ideal para ser roubada pelos ciganos. Ela e o neto/filho/mostruário vêm com todas as jóias que há em casa e mesmo no carro. Para ela o conceito “depilação a laser” é uma cena de Star Wars, então apresenta-se sempre com aquele sovaco piscina. Cabelo normalmente pintado de vermelho ou derivações. Em vez de disfarçar as rugas com maquilhagem, disfarça a maquilhagem com as rugas. Por norma, ao fim da noite, deixa o puto ao cuidado da cunhada e fica a falar com o senhor que toca órgão. Diz-lhe que o filho tirou licenciatura em Coimbra e que ela já lá foi. Ao filho e ao senhor do órgão.

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Pedro Durão
Pedro Durão
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