Porquê? Não é um tutorial de motivação! Muitos dos artigos que são mais partilhados baseiam-se numa espécie de indicações vagas mas infalíveis para uma vida perfeita. Vocês conhecem: “5 Tipos De Caspa Que Não Podes Levar Para Uma Entrevista de Emprego”, “9 Maneiras De Gerir Pessoas Utilizando Um Taser” ou até “7 Alimentos Que Te Vão Fazer Gostar Mais Do Teu Pai”. Partimos do princípio de que basta ter uma ideia leviana sobre como melhorar cada um dos aspectos deprimentes da nossa vida, que isso acabará por efectivamente acontecer no longo prazo. Esquecemo-nos é de que o primeiro aspecto deprimente da nossa vida é passarmos tempo em demasia idolatrando o smartphone, na sanita, prolongando uma necessidade fisiológica que poderia ser resolvida mais diligentemente, saltando de artigo inócuo em artigo inócuo. Scrolling in the deep, como cantaria a Adele em busca de motivação pós-break-up no Buzzfeed.

Igualmente, este artigo também não é porrada! A recompensa de um conteúdo visual é muito mais imediata do que um conteúdo escrito e é isso que procuramos quando carregamos uma ligação que nos berra ao ouvido “VOCÊ NÃO VAI ACREDITAR COMO UM ANÃO URUGUAIO ESPANCOU DOZE MARINES DO FUTURO NUMA ESTÂNCIA DE LUXO!!!!!!”. No entanto, uma das características destes artigos que consumimos é serem apresentados com um título mais enganador do que as calças push-up da Salsa. Reproduzimos o vídeo e não há espancamento, mas sim um tabefe. Zero anões uruguaios, o sucedido é protagonizado por um algarvio com uma camisola do Maxi Pereira. Ao invés de doze marines do futuro, observamos três estivadores ingleses com calça caqui. Nada é verdadeiro em relação à estância de luxo, na medida em que a acção se desenrola em Quarteira. Tudo isto numa peça audiovisual com dois píxeis que o próprio Nilton teria descartado no K7 Pirata. Inqualificável estoiro de dados móveis.

Como se não bastasse, nem mamas há na thumbnail desta crónica! Uma das razões mais fortes para não quereres ler este artigo prende-se com o facto de figurar um pussy de óculos com a barba de um ex-guerrilheiro timorense na fotografia de apresentação, ao invés de umas tits-gourmet-impossible-not-to-bilhar-de-bolso. Aliás, uma das variantes que mais mexe com as nossas escolhas na internet é o IPMA. Atenção, não é o IPMA que vocês conhecerão: aquele a que recorremos para saber se é necessário levar protector factor 50 para a Fonte da Telha ou se a Praça de Espanha vai voltar a metamorfosear-se no Bangladesh em época de monções. Falo antes do IPMA – Indicador de Protuberância de Mamilo Aliciante. É simples, quanto mais visível for a protuberância, mais o cibernauta será aliciado a carregar a página. É meteorologia para o comportamento do rebarbado, alicerçada em credíveis previsões de preguiça intelectual. Por exemplo, uma Kate Upton numa wett-shirt tem um IPMA muito alto, ao contrário de um Válter Hugo mãe de gola alta, que apresenta um IPMA baixíssimo, um dos mais reduzidos desde a cataclísmica Grande Seca Achas Mesmo Que Vou Ler Isto Tudo Até Ao Fim. Nem vale a pena abrir.

Finalmente, isto nem sequer é uma lista! Na senda do ludíbrio característico dos artigos do género, ao contrário do que o título prometia, desiludi-vos e não expus as razões de forma enumerada. Sacrilégio! Todos concordamos: é assustador informar-nos acerca do descontrolo do autoproclamado Estado Islâmico e dá muito trabalho investigar o que realmente está em causa nas alterações à lei da Interrupção Voluntária da Gravidez, quando é muito mais satisfatório receber a recompensa imediata de “5 Barbudos Do ISIS Tão Sexy Que Lhes Vais Querer Fazer Waterboarding”ou mesmo “17 Truques Para Abortar A Tempo De Ires Ao Sudoeste”. O leitor da internet, estandardizado a partir do calão da turma que pedia para fazer as composições por tópicos, não consegue processar informação se ela não consistir numa síntese inequivocamente categorizada, defeituosa de tão superficial. Pegue-se no exemplo do “4 Factos Que Já Devias Saber Sobre O Caralhinho Que Ta Foda”: nós, os leitores, só queremos mesmo saber quatro factos, nem mais um. Seja administrada uma dose mais substancial de conhecimento e entramos todos em colapso. Não há saco para mais.

Felizmente a internet tem também conteúdo muito valioso, mas esbarramos demasiadas vezes em sites desesperados por cliques. Os que nos fazem acreditar que ler um texto com 22 trivialidades no imperativo nos conduz a sucesso profissional meteórico. Aqueles que denunciam uma situação buérelatable e cuja punchline é um GIF da série Friends. Outros que lançam o isco das celebridades femininas que se descuidam a sair de limousines,link partilhado inadvertidamente no mural por um insuspeito tio, como que tornando do domínio público a sua satisfação em relação ao pipi que observou.

Esse desespero por cliques torna os autores dos textos nos predadores sexuais da escrita, montando armadilhas para caçar leituras não-consentidas. Ou sê-lo-ão, na verdade? Talvez o problema seja que nós, consumidores de conteúdo, nos tenhamos tornado em bonecas insufláveis do espírito crítico, talhados para nos sujeitarmos à penetração na posição missionário publicitário (aquela que colhe, segundo a sexóloga da Regiões TV, melhores resultados na fecundação do product placement) e sedentos de receber, sorridentemente, torrenciais ejaculações de banalidades.

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Manuel Cardoso
Manuel Cardoso
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