Piercing

Um homem casado, uma prostituta e uma viagem de negócios. O modo como estes três aperitivos se misturam é capaz de estar bem longe do que está a fantasiar. Christopher Abbott (The Sinner) veste a pele de Reed, que depois de uma manhã cor-de-rosa entre beijos na esposa e no bebé, planeia o assassinato de uma prostituta num quarto de hotel. Com estreia em Sundance e numa sessão exclusiva na passada edição do MOTELX, Piercing é uma adaptação do romance de culto de Ryu Murakami, trabalhado pelo olhar de Nicolas Pesce. Depois de Os Olhos da Minha Mãe, o emergente realizador volta a brilhar com um thriller Indie, que nos traz uma atmosfera lynchiana entre prazer e surrealismo. E justamente do País das Maravilhas, chega Mia Wasikowska no corpo da prostituta que irá revelar uma loucura engenhosa. Sexy e perturbante, o filme bebe o cinema nipónico, tanto na estética como nos laivos de humor acutilante, enquanto é abençoado pela marca splatstick do estilo Gore. Sangue a fluir de forma erótica, num sonho estranhamente anestesiante, que o vai fazer sentir tudo aquilo que queria – e não queria.

Greta

Um comboio pode ser o ponto de partida para infinitas narrativas possíveis. Aqui não é excepção, principalmente quando um malote é encontrado abandonado no banco, com o contacto da sua dona. O que é que faria? Terminava o dia com uma boa acção ou deixava essa missão para o próximo passageiro? O mundo precisa de gestos atenciosos – nem que seja para alimentar o crédito que se dá ao karma. A jovem Frances McCullen ao devolver a mala, depara-se com uma simpática viúva de meia-idade; constrói uma amizade singela, até ser manchada por um pequeno detalhe: o dia em que descobre que a mulher tinha mais uma dezena de malas exactamente iguais. Este dueto desenhado po Neil Jordan (Entrevista com o Vampiro, 1994) é interpretado por Chloë Grace Moretz e a musa do cinema francês, Isabelle Huppert, que mais uma vez imprime toda o seu magnetismo e negritude, e nos consegue seduzir, mesmo no papel de uma velha psicótica.

Nós

Somos o nosso pior inimigo. Porquê a frase feita? Porque há coisas que se forem levadas à letra, são mais perigosas do que aquilo que julga que sabe. Um casal refugia-se com os dois filhos na casa de praia para uns dias de descanso e diversão com os amigos. Este cenário de filme de Domingo à tarde dura pouco, uma vez que no cair da noite recebem as visitas mais improváveis que possa imaginar. Da mente do vencedor de um Óscar por melhor argumento original (Get Out, 2017) Jordan Peele, Nós traz-nos como protagonista outro talento reconhecido pela Academia, Lupita Nyong’o, e uma nova história de terror. Ver a queniano-mexicana neste registo é puro deleite, em duas horas pautadas por crescente tensão e desconforto – melhor ainda é tê-la ao lado de Elizabeth Moss, a estrela da aclamada série The Handmaid’s Tale.

Dumbo

Já que foi aqui relembrado um filme do universo Disney, sugerimos a mais recente pérola do mesmo autor, pelo eterno mestre das fantasias sombrias: Tim Burton. O dono de um circo degradado entrega a uma antiga estrela performativa e aos seus filhos um elefante marginalizado por ter umas enormes orelhas – que, afinal, não viriam a ser a sua única peculiaridade. Seja com Dreamland como nome do parque de diversões que esconde segredos terríveis, ou com uma trapezista interpretada pela Bond Girl Eva Green, já sabe que nada fica imaculado, nem mesmo a sua infância. Tim Burton volta a reinventar um conto, salpicando-o com os contornos que o têm definido em mais de três décadas de criação. Danny DeVito e Michael Keaton voam com Dumbo, numa aventura que cruza o imaginário circense com a decadência dos tempos.

Partilha isto: