Piruka

Por Hugo Vinagre e Rafaela Andrade

31 de July de 2018

Na semana em que se preparava para lançar os dois primeiros singles do próximo álbum, o rapper dos muitos milhões no YouTube e dos muitos milhares a cantarem as suas letras em frente a cada palco arranjou espaço na sua agenda preenchida para visitar os nossos escritórios e falar com o coração aberto, sempre pela sua cabeça.


1. O teu primeiro grande sucesso tem um refrão em crioulo. Quando escolheste essa música achavas que tinha hipótese de passar em algum lado?

Sinceramente, não. Sabia que o som tinha potencial, mas não sonhei que ia para as rádios e isso tudo. É uma música mais rua, mais bairrista, mais “o nosso ser”. Sabia que ia bater na rua, mas não que ia passar como passou. Antes do Ca Bu Fla Ma Nau já tinha o meu trabalho, já andava na estrada, mas depois também lancei o meu álbum e rebentou. Andamos a viver assim.

 

2. Quando é que percebeste que não eras um fenómeno descartável e havia mais vida além de Ca Bu Fla Ma Nau?

As pessoas vêem como aquela explosão e eu vejo um crescimento gradual. Não acho que tenha sido boom-boom, de um dia para o outro, eu escrevo há dez anos, percebes? Gravo há pelo menos cinco. Tenho a minha gana, mas nunca fui com aquela euforia, por isso não tenho 200 músicas no meu canal, tenho quarenta ou cinquenta. Milhões de visualizações já tinha. Não tinha era dez milhões, nem quinze milhões, nem dezoito milhões, mas milhões já tinha. Tinha cinco, seis, sete.  

 

3. Mas essa subida podia ser temporária e depois voltares a descer. 

Acho que é por fases, para todos. A minha fase é agora, vou rebentar isto. Sei que isto é de altos e baixos, sei que o meu nome está na história do rap, digam o que disserem. Fui o primeiro a ganhar não sei quantos singles de ouro, de platina, fui o primeiro a passar a barreira dos dez e quinze milhões em Portugal, onde somos onze milhões, estás a ver? Não é num som, são vários. Acho que a minha equipa, a minha turma, o nome Piruka está na história do rap nacional. Quem gosta de nós, apoia-nos, quem não gosta, não apoia. 

 

3. Quantos singles de ouro e platina é que já tens? 

Por acaso não sei ao certo. Para aí sete de ouro e três de platina, estava aqui o meu agente a dizer. É à volta disso.  

 

4. Apesar de já seres gigante dentro de uma faixa de público, ainda és relativamente desconhecido de uma larga faixa mais mainstream. Sentes-te confortável assim e o plano é continuares independente?

Mano, eu acho que não preciso de assinar por alguém para ir para o mainstream, aí discordo um bocadinho. Tenho as novelas a pedir a minha música, tenho a rádio a pedir a minha música, os meus agentes se quisessem metiam-me fácil em todas essas plataformas, portanto acho que nós já batemos no mainstream. A minha estratégia... não é estratégia, é seguir o meu caminho. Nunca achei que precisasse de uma editora, portanto se não foi antes de chegar ou de conseguir dar mais uns passos, se antes disso nunca achei que precisasse de editora, não é agora que vou achar, não é? Quero é que as editoras sigam o trabalho delas, que eu sigo o meu com a minha família.

 

5. Sendo que o Dillaz também é da tua zona, o que é que a Madorna tem para saírem dois nomes tão grandes de um local relativamente pequeno?

Tem vida. É o que posso dizer, mano. Não falo pela cabeça dos outros, essa pergunta tens que fazer também ao Dillaz. Eu posso dizer é como é que saí de lá, foi derivado à minha vida. Mas cada um tem a sua vida, a minha não é igual à do Bernardo, não é igual à do JêPê, não é igual à do Dillaz. Cada um tem as suas vivências e as suas aprendizagens. No meu ver a Madorna ensinou-me, lá está, a vida. Foi o que fui obrigado a ver, obrigado a viver, obrigado a assistir. Fez-me ter a mentalidade que tenho. Ser a pessoa que sou. Escrever da maneira que escrevo. A Madorna tem vida, é um bairro lindo. 

 

6. Já revelaste que a alcunha nasce em criança, num Carnaval em que te mascaraste de D’Artagnan e usaste uma peruca. Achavas que uma carreira como este nome podia mesmo correr bem?

Sempre me disseram que não, que Piruka era um nome parvo. É como estava a dizer, nunca tive esse mindsetde editoras, de ir por aqui ou por ali para bater. Isto não é aquele papo cliché, é real: eu cantava para os meus amigos, para quem estava comigo. Portanto ia dizer o quê, “Olhem, eu não sou o Piruka, sou o Alfredo da Costa”? E como foi gradual, meti um vídeo que teve um milhãozinho, depois meti outro que já teve dois ou três, depois meti outro e já teve três ou quatro, não achei que mudar de nome, não achei que fosse por aí que ia bater. Não é pelo teu nome. Acho que a imagem hoje em dia conta muito. 
O que fazer e o que não fazer, no palco, na rua, não é o nome que define a pessoa que és. Tu podes chamar-te Magnata e ser um borra-botas que não diz uma palavra de jeito. Ei, disse isto e calma, há um Magnata na minha zona que é um grande patrão, disse o nome mesmo à toa. O nome não significa a pessoa que és. É o produto ser bom, caíres no goto das pessoas.

 

7. Hoje um artista faz-se online ou ao vivo? 

Acho que é uma coisa paralela. Para viveres da música, tens que te afirmar online, mas para comeres tens que cantar, tens que fazer concertos. Tu não tens uma vida estável, tal como eu graças a Deus tenho, em que consigo dar estabilidade a umas quantas pessoas, só com a Internet, achas? Aí passava fome. 


Lê a entrevista completa a Piruka na revista de Agosto. Já nas bancas.

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