PAUS

Por Playboy Portugal

10 de July de 2018

POR HUGO VINAGRE E RAFAELA ANDRADE

FOTOGRAFIA  TOMÁS BRICE ERITA UMBELINO


1. Lideraram o top nacional de venda de álbuns com Madeira. Acham que esta simbiose entre o exótico e o experimental acaba por ser algo mais orelhudo?

HÉLIO: Nem sei. Se calhar houve muitas bandas a vender poucos discos nessa semana. [risos] Mas acho que ficámos à frente dos Thirty Seconds to Mars. 

MAKOTO: Não sei se é a palavra “orelhudo” que mais se encaixa aqui, mas é menos instrumental em termos de estrutura. 

HÉLIO: Acho é que as vozes estão mais próximas das pessoas. E, por exemplo, até sinto que o Mitra era mais verso-refrão. 

MAKOTO: Não era tão especial. 

HÉLIO: Não sei se este foi influenciado pela Madeira, até porque quando começámos a fazer o disco, não tínhamos a certeza que íamos para lá. Mas, se calhar, deixámo-nos levar pela ideia da ilha.


2. Não estavam lá no momento da composição, mas souberam que iam estar numa residência no Funchal quando iam compor o arranjo final. Deu um twist significativo ao disco ou foi apenas um complemento?

MAKOTO: O twist foi fulcral na parte visual e conceptual. O nome das músicas e o conceito foi todo feito lá. 

HÉLIO: Mas mesmo as letras também. Já lá tínhamos tido algumas experiências, portanto, também nos deixámos influenciar pelo que conhecíamos e imaginávamos. É sempre uma visão enviesada a que tu tens, o que as pessoas te mostram não é necessariamente a visão que tu terás quando lá fores. 


3. Este flirt com a Madeira resultou num vídeo-disco e num documentário. Já era um formato que tinham pensado para álbuns anteriores ou aqui foi porque houve o chamamento da poncha?

MAKOTO: Sim, a poncha falou mais alto. [risos] Se já tínhamos pensado? Sim, naquele cenário hipotético que era fixe. 

HÉLIO: Nunca há budget para isso. Ou é a banda que investe, ou sai do marketing que a editora aloca ao disco e não é suficiente. Com muito boa vontade fazes três vídeos no máximo, se tiveres alguns amigos que percebam da coisa e te façam uma borla. 

MAKOTO: Depois sentes-te mal porque estás a pedir uma borla. 

HÉLIO: Neste caso, havia este convite para fazer a residência – que, inicialmente, era só para aprendermos a tocar as músicas e fazermos o primeiro concerto da tour na Madeira. Mas depois adiámos o disco para 2018 e tivemos que encontrar aqui outro contexto. Falámos com o pessoal do Festival Aleste e prepusemos-lhe esta ideia, sem sequer pensarmos que seria viável. Isto implicava viagens dos PAUS e dos técnicos, o transporte do nosso material, viagens e cachet da equipa de filmagens… É uma operação complicada a nível logístico e monetário. O festival conseguiu encontrar os parceiros indicados dentro da Madeira e a coisa fez-se. 


4. Explica melhor essa parte de terem que aprender a tocar as músicas. 

MAKOTO: Basicamente, nós não sabemos tocar as músicas. Aprendemos quando temos que nos apresentar ao vivo. Vamos compondo e gravando directamente aqui no estúdio. Editamos, cortamos, montamos. Aprendi a tocar algumas músicas seis meses depois. Já havia gravações e vídeos feitos, e eu não sabia tocar a malha. 

HÉLIO: Nós fazemos quase como música eletrónica. Gravamo-la toda orgânica, mas construímos de uma forma muito digital. Às vezes, parece que estamos a fazer um puzzle no computador. 

MAKOTO: Isso dá bué cunho à assinatura de PAUS porque é tudo muito editado. Com os grooves e a forma como passam, dá uma característica mesmo sem nos apercebermos. 

HÉLIO: A primeira vez que o fizemos foi um acaso. 

MAKOTO: Não tínhamos muito tempo, entrámos em estúdio e vimos resultados. Eu já experimentei fazer isto com outras pessoas e não consegui. Eu curto deste processo, é muito mais imediato e faz com que não haja grandes triagens. O que nasce é PAUS. 

HÉLIO: Acho que resulta connosco por três factores: somos práticos, somos todos muito confiantes naquilo que fazemos e, por outro lado, nenhum tem um ego desmesurado. Quando um está a compor, todos estão a opinar. Se tu tens insegurança ou um grande ego, fica difícil de aceitar. E temos um equilíbrio fixe nesse sentido. Acho que estamos todos muito confortáveis individualmente, o que faz com que estejamos bem em grupo. 


5. Sendo amigos, isso faz com que em digressão se chateiem mais ou menos que outra banda qualquer?

HÉLIO: Normalmente, na estrada até é onde nós nos damos melhor. Onde ferve tudo um pouco mais é nas vozes. Instrumentalmente, eu sei que se treinar um bocadinho mais consigo fazer melhor. Mas o meu timbre é o meu timbre. 

MAKOTO: Cantamos muito pior do que tocamos. É muito mais simples dizer “não curto desse baixo” e passado dois minutos sai outra coisa qualquer. Com a voz, temos muito menos ferramentas. Mas este disco correu bueda bem. 

HÉLIO: Se calhar é por isso que está tão bem-disposto. 


6. Disseram que o som do Madeira acaba por ser um cruzamento entre África, Europa e América do Sul. Mas essa topologia e a ideia de marginalidade de uma ilha poderá simbolizar também um triângulo amoroso entre os PAUS, Lisboa e os subúrbios?

HÉLIO: Acho que sim. Todos nós crescemos na periferia. A linha de Sintra tem muitos retornados, refugiados, uma multiculturalidade muito fixe. E quando éramos putos do hardcore ouvíamos bandas de Washington, mas também levávamos com kizombas e hip-hop. E chega uma altura que acabas mesmo, inconscientemente, por as incorporar. Os meus pais são angolanos, mas mesmo que não tivesse essa ascendência, teria tido acesso a estas coisas todas. Sendo do subúrbio de Lisboa, há esta diversidade toda que é muito boa. 


7. A ideia de viajarem sempre em casa traduz-se aqui mesmo no vosso HAUS. Com 3 anos de idade, já sabem o que ele é? A tal missão de aliar rendimento e expressão comunitária cumpriu-se?

HÉLIO: Vai-se cumprindo. Enquanto eu estou no escritório a trabalhar o booking, o Makoto e o Fábio estão no estúdio de gravação.

MAKOTO: O Fábio está mais na bricolage. [risos]

HÉLIO: E, de repente, tens aqui os Dead Combo a ensaiar, tens os Maus Lençóis que são road managers de uma série de bandas, portanto é frequente os artistas deles virem cá; e cria-se aqui uma comunidade, mesmo que não seja uma cena definida. 

MAKOTO: Vamos fazendo isto como a nossa profissão, pagamos as contas assim. E vai dando para ir buscar um puto que toca bateria, se o gajo também está a precisar de guita, baza lá; precisamos de um roadie, chamamos. No outro dia estavam aqui cerca de 40 pessoas. 

HÉLIO: Eu nessas alturas fujo. 

MAKOTO: Estava o AGIR, o Charlie Brown e people a entrar para entrevistas. Mas é muito fixe sentires a comoção e a vida aqui. O objectivo agora é furarmos este lado todo até Marvila e furarmos aquele até ao Cais do Sodré. [risos]


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