MOTELX

Por Rafaela Andrade

03 de September de 2018

Festival Internacional de Cinema de Terror de Lisboa

12ª Edição. 4-9 Setembro 

Cinco dias, uma noite. Podia ser o nome de um filme, mas é só a estadia no festival de cinema mais aguardado do ano. Uma associação cultural sem fins lucrativos teve a coragem de transformar um género marginal num fenómeno que sobrevive há 12 anos. A rasgar Setembro, a atmosfera que Lisboa respira é terrivelmente convidativa: festas, workshops, concertos, jogos e sessões ao ar livre compõem o aquecimento para uma semana em que o amor pelo horror assombra a Avenida da Liberdade. Adicione umas pitadas de massacre no Teatro Tivoli BBVA a um delicioso pesadelo no Cinema São Jorge, e não ficará imune ao vírus MOTELX.

Jorrando cinema dos quatro cantos do mundo, o festival tem promovido o ecletismo do Terror, onde slashers partilham o quarto com o fantástico, dramas ou filmes eróticos. “Lobo Mau” é uma das secções no cardápio, em que até os mais novos podem brincar com os seus medos. Têm sido, também, contadas as várias versões do cinema português, onde pérolas ficaram perdidas na história; e esta edição, para além do mais recente desafio de microcurtas gravadas em smartphones e do mais avultado prémio de género para a melhor curta-metragem, vai ter a estreia muito especial de duas longas nacionais na competição Méliès d'Argent, disputada com outros sete filmes europeus. O festival tem sido um dos responsáveis por posicionar Portugal no mapa cultural, não só através do estímulo constante às nossas produções, mas também ao receber lendas como Tobe Hooper, George Romero, Dario Argento e Alejandro Jodorowsky, que nos têm brindado com masterclasses e com a exibição do seu percurso na sétima arte.

Os realizadores Paco Plaza ([REC]) e Pascal Laugier (Martyrs) vêm dissecar a emergência do terror espanhol e francês, e são só algumas das surpresas de uma edição que celebra os 200 anos de Frankenstein: a criação de Mary Shelley, numa era em que a cultura mutilava as mulheres. Outra novidade será a apresentação dos últimos contos do cósmico H.P. Lovecraft, através de um cine-concerto 3D protagonizado pelo tigerman Paulo Furtado e pelo cineasta Edgar Pêra – que já nos arrebataram no primeiro round da tríade de warm-up, à qual se juntaram o mítico Ghostbusters no largo da Trindade e um clássico drive-in à beira-rio para recordar Shaun of the Dead, com pipocas servidas por irresistíveis zombies em patins.

Se tem demónios para purgar ou simplesmente quer uma despedida excitante do Verão com o sangue a ferver, seja bem-vindo ao MOTELX.


Os directores do festival, Pedro Souto e João Monteiro, receberam a PLAYBOY numa sessão de retrospectivas sedentas de futuro, onde desvendaram alguns dos mistérios do seu motel.

Quando começaram a realizar esta saga, imaginavam que um festival de terror se pudesse tornar um fenómeno? Ou sempre foi aquele fascínio pelo risco de não saber se se vai sobreviver?

JOÃO MONTEIRO [risos] Passou por um teste para ver se conseguíamos fazer. Não consigo dizer que depois do primeiro ano estivéssemos a pensar nos próximos dez; pensámos se iríamos fazer o segundo e, a partir daí, foi um bocado aquela lógica do futebol do jogo a jogo. 

PEDRO SOUTO Viver um dia de cada vez. 

MONTEIRO A questão do fenómeno é um bocado relativa, mas sabemos que tem corrido bem, obviamente. Temos números e, principalmente, algum interesse mediático que tem sido essencial. E temos tido imensa sorte com as pessoas que conseguimos cá trazer. A diferença entre o que era o MOTELX em 2007 e o que é agora… digamos que é da feira para o centro comercial.

George A. Romero esteve na edição de 2010. Como é que numa fase ainda tão prematura do festival conseguiram um peso pesado do cinema? 

SOUTO Quando ainda éramos um cineclube, o CTLX, fizemos um ciclo na Cinemateca em 2005/06 dedicado aos zombies: começámos com o White Zombie e fomos até ao último do Romero. Portanto, ele esteve prestes a vir a Lisboa logo nessa altura. O festival foi crescendo, mais instituições se envolviam e isso permitia mais meios para continuarmos a acreditar. Apesar de em 2010 ser a quarta edição, acho que já estava a ser uma excelente montra do cinema de terror.

MONTEIRO Acho que o mais surpreendente até foi o Zé do Caixão, porque o Romero ia ser inevitável. E foi um bocado estranho, porque até foi ele que nos perguntou: “Então, ainda está disponível o convite?”. 

Isso quer dizer que um John Carpenter está mesmo aí à porta?

MONTEIRO Faço-te eu uma pergunta: para quem trouxe o Romero ao quarto ano, achas que não andamos a tentar o Carpenter há 20, ou há 50, ou desde que nascemos? [risos]

SOUTO O Carpenter é um bocado exclusivo e envolve uma operação muito concertada entre várias instituições. Ainda por cima, ele juntou agora a questão da música, portanto torna-se financeiramente um bocado complicado. Mas, temos andado a tentar por todos os meios. 

MONTEIRO Digamos que era como uma visita do Papa a Portugal. Teríamos que ter um calendário em que batesse tudo certo. Mas, os únicos que desistimos são aqueles que verdadeiramente já não podem cá estar – como o Wes Craven, que nos faltou, mas era alguém que já não ia a festivais há muito tempo. Mas, enquanto o Carpenter estiver vivo e em actividade, quiçá. 

SOUTO Acho que comparando com todos os outros, a obra dele tem filmes memoráveis e é muito extensa. 

MONTEIRO E há uma diferença entre um grande convidado e uma lenda. Uns são para cinéfilos, mas um Romero, um Dario Argento, um Jodorowsky, ou até um Zé do Caixão, são pessoas que movem multidões. É uma experiência religiosa. E o Carpenter é desse calibre. Podíamos encher as sessões todas desde que disséssemos que ele estava lá. [risos]

Também receberam o Tobe Hooper, Eli Roth, Hideo Nakata, Roger Corman, Ruggero Deodato, Mick Garris em dose dupla… Porque é que não fazem uma maior retrospectiva das obras quando vêm cá os convidados? 

MONTEIRO O Mick Garris é o convidado mais importante que alguma vez tivemos, só digo isto. Mas, é uma questão de espaço, essencialmente. Temos cinco dias em que queremos apostar em terror contemporâneo. Temos que jogar com estas limitações e fazer o mínimo aceitável para que as pessoas saibam mais ou menos que convidado é. Uma maior retrospectiva teríamos que fazer fora ou antes do festival. 

SOUTO Ou fazer menos cinema contemporâneo. A nossa ideia sempre foi mostrar a riqueza do género, nunca nos focámos só num tipo. Claro que também percebemos rapidamente que toda a gente tem um conceito subjectivo do que é terror, e ainda bem, porque foi isso que sentimos no nosso grupo e é isso que continuamos a procurar na programação. Mas, esta limitação dos dias acaba por ser uma vantagem e aquilo que dá personalidade ao festival. Temos cinco dias e uma noite, mas chegamos a ter catorze sessões por dia, o que não é comum. Isso dá uma intensidade à experiência bastante grande e uma variedade de escolha muito interessante. Só tem a desvantagem de as pessoas não poderem todas partilhar o mesmo filme. 

MONTEIRO A vida é feita de escolhas. Também há uma questão económica de passar estes filmes. Quando nós começámos, havia cinema como conhecíamos antigamente, películas, etc., e agora a maneira de ver cinema mudou radicalmente. Por exemplo, do Ruggero Deodato, só para arranjar quem tinha os direitos do Holocausto Canibal… e o Argento foi um pesadelo também; tudo o que é italianos é muito competitivo. Até com o Martin, havia problemas entre o produtor que tinha os direitos e o Romero, tivemos que ir à procura de um advogado em Nova Iorque. Quando pensamos em fazer uma retrospectiva, é um trauma. É sempre até à última. E, às vezes, pedem-nos valores ridículos.

Hoje têm um mediatismo nacional e internacional que já suplantou o icónico Fantasporto. Não está nos vossos planos expandir o número de salas e, consequentemente, de secções e filmes a exibir em cada edição? 

SOUTO Nunca foi o nosso objectivo entrar em qualquer tipo de competição. Houve sempre essa comparação, porque o Fantas nasceu como um festival de terror, mas mesmo depois de se ter tornado generalista com uma componente bastante forte de fantástico, continua a existir por parte dos fãs esse desejo de associação. Para nós, sendo dedicados exclusivamente ao terror, isso ainda faz menos sentido. De qualquer maneira, este conceito está um pouco relacionado com o nome «motel», por ser uma estadia curta e intensa. Existem muitos filmes que não conseguimos passar, e [expandir] podia ser uma oportunidade para retrospectivas, etc, mas temos feito o máximo e o impossível com o pouco dinheiro que temos. Já dá para fazer uma excelente edição, mas, como a maior parte dos eventos culturais, dependemos muito da participação de outros parceiros. A única maneira agora para crescer com salas e outras coisas é mesmo mais dinheiro. 

MONTEIRO O problema de Portugal é o mercado que não existe. Nós temos pouco acesso a grandes filmes. Temos cada vez menos população a ir ao cinema, os festivais são a excepção. Mas, eu acho que neste momento não faz sentido sair da nossa lógica, porque não iríamos ganhar mais público, iríamos até dividi-lo todo, provavelmente. Se estivéssemos em Espanha, claro que se justificavam 10 dias. Mas, o sucesso do festival passa também por esta aproximação minimalista. Temos o Tivoli que é um espaço mítico e é o tipo de extensão que para nós faz sentido. 

Em 2007, 5 mil espectadores; 3 anos depois, o dobro; e agora já estão quase nos 20 mil. Com uma Lisboa cada vez mais recheada, quais são as expectativas para esta edição?

MONTEIRO Manter. Convém sempre as expectativas serem baixas, uma pessoa pode ficar feliz no fim. No ano do Argento, houve uma das maiores manifestações em Portugal num sábado, portanto de tarde esteve às moscas e à noite veio tudo vê-lo. Há sempre o futebol… e este ano vamos calhar na festa do Avante. 18 mil é um número bastante aceitável para nós. 

SOUTO Se tu trabalhares para crescer todos os anos, a probabilidade de pelo menos manteres é muito maior. 

MONTEIRO Em doze anos de festival, já tiveste um público que entretanto cresceu, teve filhos e mudou os hábitos. Agora temos que atrair novas gerações.

SOUTO Temos de nos manter relevantes para os mais novos. E há uma particularidade nos festivais de cinema, que continua a ser muito uma coisa de sessões avulso: ou tu crias um passe tipo festival de música que custa 150 euros e aí até consegues ser rentável, ou até podes planear com antecedência, mas decides na hora; até podes comprar o bilhete e, como não é assim tão caro, depois nem vais. Hoje há coisas que não existiam de todo quando começámos. 

E, no futuro, não haverá margem para crescer para fora da capital?

MONTEIRO Sim, pensamos mais em fazer uma tournée, do que aumentar drasticamente em Lisboa. 

SOUTO Lisboa é uma cidade super excitante, mas para quem faz eventos culturais, hoje em dia, é um desafio constante. Queremos manter-nos em Setembro porque é um mês que deu uma certa personalidade ao festival, mas tem muitas desvantagens a nível de calendário internacional para conseguir filmes e convidados. Só que não há grande alternativa, porque o São Jorge já tem milhares de eventos programados – e não vamos sair de lá porque é o sítio perfeito, tem aquele charme de ser uma cena com história. 

MONTEIRO Temos um público localizado entre a grande Lisboa e devemos ter pequenos fenómenos como o Algarve e o Norte; vejo isto pelas curtas a concurso e a proveniência delas. A única forma de nos notabilizarmos nestes sítios é irmos lá. Estamos a tentar criar um roteiro de terror anual.

SOUTO Já fizemos algumas experiências que correram bastante bem, e tentámos incluir, com bastante sucesso, cinema português, nomeadamente a nível de curtas-metragens. E isso dá outro significado, podemos ir à procura dos cineastas, realizadores, produtores e, também, do público.

Já exibiram filmes como a Centopeia Humana ou Kuso, portanto não haverá limites para a vossa festa. Nestes 12 anos, entre desmaios, sangue, gritos (e motins), qual foi o momento que mais vos arrepiou?

SOUTO [risos] Nós temos os melhores momentos enquanto organizadores, mas há uma parte que nós não temos muito que é a experiência. Por exemplo, eu ouvi dizer que a sessão do Martyrs foi mítica, houve pessoas que me disseram "eu nunca mais volto a este festival” ou “garanto que nunca mais vou esquecer aquele filme", ou seja, aquele misto de amor-ódio. Acho que é para isso que um festival de terror existe, o cinema está presente enquanto arte bastante potente para o nosso cérebro. Tu queres emoções fortes e deixar essas marcas de deslumbramento, ou de choque, ou de medo. 

MONTEIRO As coisas mais memoráveis são aquelas que correm mal, em todos os cenários possíveis. Mas, já vi a reacção do público noutros festivais, em filmes sem legendas ou curtas portuguesas em que fazem “BUUUU!”, e já nos aconteceram certas situações que eu até pensei "isto vai ser o fim do festival" – e a verdade é que o nosso público tem sido bastante paciente. Tentamos sempre compensá-lo e aprender com os nossos erros, mas vão sempre acontecendo. Mas, o que dá gozo é pensar "como é que conseguimos passar incólumes desta situação?" [risos] O motim foi interessante, mas não foi provocado pelo público do festival. E tentamos sempre oferecer bilhetes e compensar ao máximo as pessoas, porque também somos espectadores e já passámos por essas situações.

SOUTO Há uma boa onda no festival. São tantas sessões que a probabilidade de um filme encravar ou o projector queimar em sessões lotadas… 

MONTEIRO Houve uma situação que foi a mais marcante de sempre. 

SOUTO E houve uma empatia incrível com o que estava a acontecer, não só do público, mas também do realizador que estava presente. Ele nunca mais se vai esquecer de nós. [risos] A meio do filme, tínhamos que tomar uma decisão: no fim, entrámos e o pessoal ficou mesmo impressionado, não só com a coragem do realizador, mas também com a nossa de irmos com aquilo para a frente. Isso foi uma memória agridoce. 

O Kim Newman, moderador do Jodorowsky na passada edição, disse que o terror tem uma vida mais longa do que muitos filmes mainstream, porque existe uma espécie de redenção: marginalizados no início, e depois tornam-se uma masterpiece. Vêem isto reflectir-se no público entusiasta do MOTELX ou acham que tem muito do factor hype de hoje?

MONTEIRO Eu acho que há mesmo um amor. O Terror foi um género para homens durante quase 100 anos, a nível da produção e da recepção. Agora, até são mais os homens que me dizem “não vejo porque tenho medo", do que mulheres – adolescentes – que me perguntam quais são os filmes mais horríveis para ver este ano. Eu acho que há até um novo público do MOTELX. E esse crescimento do público feminino acaba por também se verificar na realização de filmes. Claro que como é um género marginal, filmes de terror feitos por mulheres são art house, assim como os filmes para Óscares são “thrillers de crime”. Hoje, tens uma geração de fãs a fazer filmes que parece que já viste 50 vezes porque estão a ir buscar as referências. E, também, é dos únicos géneros com convenções próprias e que alimenta muito a indústria da nostalgia: todos nós começámos pelos clubes de vídeo e crescíamos a ver filmes do Carpenter, por isso, obviamente, que se o conhecesse era muito bom. Mas, de resto, por exemplo, o Martyrs é um fenómeno do festival, não do cinema. O ano passado o maior sucesso foi a sessão de encerramento com o It, que esgotou logo, e terá sido mais por causa do hype. Eu acho que esses fenómenos saltaram cá para fora, fazem muito dinheiro outra vez. Há a forma como os filmes são comunicados, os trailers e as Comic Con’s, que fazem grandes campanhas porque sabem qual é o público que hoje alimenta tudo. Os It’s e os Get Out’s fazem com que até seja difícil para nós conseguir os filmes chamados de culto. E há os outros festivais em Portugal que também passam filmes de terror. 

SOUTO São ciclos comerciais. Às vezes, falamos com distribuidoras e elas dizem-nos "agora o terror não está a dar nada”. Também é uma oportunidade para nós passarmos coisas mais independentes, que não têm distribuição, o que é interessante para o público.

O MOTELX tem-se destacado pelo apoio às criações portuguesas, como o prémio para a melhor curta, masterclasses de cinema low-budget e até micro-curtas gravadas com smartphones ou tablets. Sentem-se como uma escola de cinema?

MONTEIRO Nós dizemos sempre que somos um workshop. E, além da componente pedagógica, de trazer profissionais que façam masterclasses práticas ou teóricas, obviamente que o prémio é a parte mais importante, porque o filme tem um sítio onde pode passar e ganha uma vida após o festival. Até mesmo a nível da história do cinema português, há só uma versão, muitos filmes ficaram perdidos. E, consequentemente, uma história do cinema de género existe e nunca foi feita. Temos essa obrigação também, não é só despejar filmes e esperar que as pessoas venham comprar bilhetes. Sempre levámos essa componente a sério, tanto que este ano vamos estrear dois filmes portugueses e vão entrar na competição. Portanto, não sei se somos os principais responsáveis, mas temos ajudado. Não há mercado, mas há uma facilidade em fazer filmes como nunca houve antes. As pessoas precisam simplesmente de chegar a um público e é por isso que aqui estamos. 

SOUTO E tentamos fazer algumas pontes lá para fora, através das nossas relações internacionais com a Federação Europeia de Festivais de Cinema Fantástico e com a FIAPF. Acho que ainda se pode fazer muita coisa cá dentro, mas lá fora também. Ainda no ano passado, tivemos uma sessão que correu mesmo muito bem com curtas portuguesas na Cinemateca em Paris e queremos muito continuar esta ideia. A novidade das duas longas é excelente, portanto esperemos que o público adira. 

MONTEIRO Era uma das directrizes que criámos para justificar o festival no início e confesso que achava a mais difícil de conseguir. Era mais fácil trazer o Romero, do que trazer uma longa portuguesa assumidamente de terror. Sempre houve, mas tinham medo de dizer que era de terror. Agora as coisas estão a mudar, felizmente. Está tudo a sair do armário. [risos]

Os eventos de warm-up de cada edição têm cada vez mais adesão – os concertos, as sessões ao ar livre, etc. Não será já o MOTELX uma marca que pode viver ao longo do ano e quiçá associarem-se a serviços de streaming, ou preferem posicionar o festival na esfera do culto? 

MONTEIRO Hum, isso é uma pergunta interessante… Nós temos sido abordados. 

SOUTO Já houve assim umas propostas muito comerciais. Eu acho que é muito importante que a marca ganhe notoriedade, porque o público é uma percentagem do orçamento. Nós queremos que o festival continue a acontecer, por isso temos que continuar a defendê-lo e vendê-lo para envolver parceiros, porque é uma maneira de crescer e inovar; se formos sempre os mesmos, pode começar a ser difícil ter ideias novas. 

MONTEIRO É difícil tomar um tipo de decisão porque essas flutuações do mercado estão sempre a mudar. Ainda não percebi de que forma esta coisa do streaming e do video on demand poderia ter vantagens para nós enquanto marca. Ainda defendemos este lado artesanal de fazer festivais de cinema e de mostrar filmes. Não quer dizer que estejamos fechados ou cegos com o que se passa à volta, porque os festivais já não sobrevivem só com filmes; sobrevivem com outros universos, como videojogos, literatura ou realidade virtual.

SOUTO Eu acho é que nós temos construído toda a produção com este objectivo principal de fazer o festival propriamente dito em Setembro, em Lisboa. Durante essa semana, temos uma equipa muito maior – temos pessoal para dar apoio aos convidados, pessoal para gestão de cópias, muitos voluntários, e durante o ano ficamos reduzidos a meia dúzia de pessoas ou menos. O nosso handicap é mesmo a estrutura ainda não ser não só estável, mas não ter o número mínimo ideal para passarmos a outras ideias. Eu não estou a fugir à pergunta, mas acho que para a marca estar envolvida com outras coisas implica um trabalho diferente e, em alguns anos, isso não tem sido possível. Mas tem potencial, mesmo não se descaracterizando. Acho que conseguimos na boa associar a marca a coisas que realmente podem ter interesse e impacto. Sentimos que é uma love brand, como alguns dizem. O conceito do festival e da associação que o organiza é ser sem fins lucrativos, portanto tens sempre aquela ideia cultural, aquele desejo de programar sem limites.

MONTEIRO Pelo amor da arte…

SOUTO [risos] Pelo amor do cinema.


“What's your favourite scary movie?”... Se ainda não souber a resposta e não quiser ser perseguido por um serial killer, o MOTELX sugere-lhe alguns filmes a não perder nesta 12ª edição.

The Nun – A Freira Maldita

Segundo spin-off do universo partilhado de The Conjuring, a abertura das hostilidades da edição deste ano está a cargo da personagem-título introduzida no segundo filme da saga. A freira maldita convida-nos a descobrir as suas origens numa história escrita por James Wan, o mentor da saga, e realizada por Corin Hardy, que segue um padre com um conturbado passado e uma noviça prestes a realizar os seus votos finais. Enviados pelo Vaticano para uma remota abadia na Roménia, iniciam a investigação do misterioso suicídio ali cometido por uma jovem freira. Filmado em castelos romenos autênticos, The Nun promete evocar a estética e atmosfera góticas da cinematografia clássica de terror, particularmente a dos filmes produzidos pela britânica Hammer nas décadas de 50 e 60. Junte a tudo isto, como é óbvio, as habituais doses de possessões demoníacas e insistentes sustos de gelar a espinha.

Mutant Blast

Um dos maiores destaques da edição de 2018 é esta primeira longa-metragem de Fernando Alle, um dos quatro elementos do colectivo Clones, que deixou a sua marca splatstick no panorama do cinema de terror português entre 2008 e 2012, graças a pérolas sob a forma de curtas-metragens como Papá Wrestling ou Banana Motherfucker. Co-produzido pela Troma – o bebé do mestre Lloyd Kaufman e talvez a mais provocadora casa de cinema low-budget ainda em actividade –, Mutant Blast guia-nos por entre as ruínas de um apocalipse zombie, à medida que acompanhamos a jornada de sobrevivência de três personagens muito peculiares. Estão reunidos ingredientes de sobra para a celebração de um verdadeiro acontecimento: a estreia de um novo filme de género português, ainda para mais em competição pelo prémio de Melhor Longa de Terror Europeia.

Mandy

Ambientado no deserto californiano do início dos anos 80, este segundo filme do italo-canadiano Panos Cosmatos (depois do admirável Beyond the Black Rainbow) - narra-nos a história de Red – Nicolas Cage, em mais uma deliciosamente frenética interpretação –, um lenhador perdidamente apaixonado pela encantadora Mandy (Andrea Riseborough), que se vê súbita e tragicamente forçado a vingar a morte desta quando um grupo de fanáticos religiosos põe um violento fim ao êxtase em que o casal vivia. Thriller onírico e hipnótico, cuja atmosfera sobrenatural parece desafiar quaisquer noções de tempo e espaço, Mandy deambula no seu universo sangrento muito próprio, onde assustadoras criaturas coabitam com os seus homólogos humanos. Prepare-se para uma experiência arrebatadora, com contornos de culto imediato.

Upgrade

Escrito e realizado por Leigh Whannell, autor dos argumentos de Saw e Insidious, Upgrade inspira-se no imaginário retro-futurista de filmes como Robocop ou The Terminator para moldar a sua distopia. A premissa narrativa – perfeitamente encaixável num episódio de Black Mirror – gira em torno de Grey Trace (Logan Marshall Green), um tecnofóbico que fica paralisado na sequência de um brutal assalto, durante o qual a sua mulher é assassinada. É então que um inventor bilionário o aborda, prometendo-lhe uma cura experimental e perigosa: um implante de inteligência artificial que lhe confere predicados físicos extraordinários, e a subsequente capacidade de se vingar dos agressores. Para além da pertinência do tema de fundo, Upgrade é também uma divertida e engenhosa incursão pelo universo da série B de ficção-científica, proporcionando momentos de sublime satisfação visceral.

Morto Não Fala

Outra assinalável entrada no MOTELX deste ano cabe a Dennison Ramalho – presença regular no festival ao longo dos anos -, que com Morto Não Fala assina a sua primeira longa-metragem e dá nova prova da vitalidade do cinema de terror brasileiro actual. Tensa e crepuscular, é ancorada no quotidiano de Stênio, um funcionário de uma morgue abençoado com o dom de comunicar com os cadáveres. Deste modo, o filme assume-se igualmente como uma parábola sobre a criminalidade e violência nas metrópoles brasileiras. Por entre corpos mutilados, salas apertadas e ruas apinhadas de gente, percorremos um Brasil mórbido e angustiante, como que incapaz de esconder os sintomas do profundo mal-estar em que está submerso.

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