Matthew McConaughey

Por Playboy Portugal

11 de April de 2018

ENTREVISTA STEPHEN REBELLO | FOTOGRAFIA DE ANDREAS LASZLO KONRATH


A começar pelo grande sucesso em A Time to Kill em 1996 e pelos períodos de comédias românticas ao longo da década de 2000, ficaste famoso por andares sem camisa. Mas no Gold, interpretas um garimpeiro de meia-idade com uma barriga que cai sobre o cinto, um cabelo que só existe na parte de trás da nuca e uns dentes curiosos.

[Risos] Queres dizer que o público deve ter reagido do tipo “olha para aquela morsa”?

Bem, tipo isso. O teu Kenny Wells bebe cerveja e fuma charros. O teu aspecto no filme é uma piscadela de olho para os críticos e jornalistas que te satirizavam pela tua preocupação com o físico?

Aquilo era peso real, não próteses. Eu adorei a sujidade e vitalidade que sentia quando estava com o peso que tinha no Dallas Buyers Club. Mas o Gold fez-me pensar no meu pai. Tal como o Kenny, ele adorava comer, beber e receber as pessoas. Ele era o Capitão Divertimento, agia como se todos os dias fossem sábado, mesmo que estivesse a bater no fundo. Antes de começarmos a filmar, tive alguns meses para me dedicar. Se houvesse algo que eu quisesse comer, respondia que sim. Se tivesse dúvidas, tinha que comer o dobro. Até hoje, o pai favorito dos meus filhos era quando eu estava a encarnar o Kenny, porque em vez da pizza de sexta à noite, era em qualquer noite.

O que é que a tua esposa, Camila, achava desse Capitão?

Ela adorava. Eu era tão divertido. Eu dizia que sim a todos os desejos – sem arriscar o meu casamento.

Depois de décadas de golfe, corrida e surf, como é que os meses de compulsão te fizeram sentir?

O meu corpo sentia-se óptimo. Tudo estava fisiologicamente melhor. Se tu viveres em dieta por 4 anos, vais sentir-te letárgico. Eu percebi: o que te faz ficar farto quando estás a comer compulsivamente é a vontade de desistir. Mas, eu acordava segunda de manhã e dizia “mais uma cerveja e um hambúrguer!”. Nunca me cansava disto, então tornou-se mais divertido ganhar aqueles quilos do que perdê-los. Mas depois, tens de transpirar uma hora por dia, seja a fazer musculação, a correr ou a dançar.

Quando é que sentiste a maré a virar a teu favor, o nascimento do “McConaissance” [Renascimento]?

Depois de cerca de um ano e meio fora do ecrã, recebi um telefonema de William Friedkin, que me queria para o Killer Joe. Eu não acho que dois anos antes isso aconteceria. Steven Soderbergh telefonou-me com a proposta para o Magic Mike. Ele fez imensa coisa em que eu poderia ter entrado, mas nunca me chamou antes. Jeff Nichols tinha escrito o Mude queria que eu o fizesse. Fiz o The Paperboy com o Lee Daniels. E aí foi do tipo: ”Foda-se o dinheiro pá, vou pela experiência”. Depois fiz o True Detective e o Dallas Buyers Club. O tempo que estive afastado deu às pessoas uma oportunidade de se lembrarem do trabalho que tinha feito antes. Eu não criei uma nova marca nesses 18 meses; eu fiquei sem marca. Tornei-me na nova boa ideia para algumas pessoas. O público fala dos anos de comédias românticas como se eu fosse outra pessoa, outro actor. Era o mesmo carro, o mesmo motor, o mesmo eu. Apenas mudei para outra engrenagem.

Como é que vês o Dallas Buyers Club?

Esse eu transportei comigo durante anos. Eu queria divulgar a história de Ron Woodruff. Mergulhei nele durante seis meses, cinco horas por dia – transcrições, diários, tudo. Eu conhecia a sua linguagem, aquele humor anárquico. O Ron até no seu modo de sobrevivência foi anárquico. Não havia sentimento, nada de bom na maneira como a história é contada. Ron era um traficante de drogas do mercado negro  drogas que a FDA não tinha aprovado e que mantinham as pessoas vivas. Recebemos 130 rejeições ao longo de 20 anos a tentar fazê-lo. Foi um filme independente com um papel anti-herói, e isso ajudou-me a mudar o modo como algumas pessoas me viam. Gostando ou não, há uma identidade real. Um filme independente sobre a SIDA vai ser importante. Não precisava de ter muito entretenimento, mas acho que conseguimos fazer isso também. Tem humor – humor chocante. E nós fizemos isso por 4,9 milhões de dólares, em cerca de 25 dias. Funcionou.

Claramente. Rendeu-te um Óscar.

Isso nunca foi algo que surgiu na minha lista de desejos. Uma nomeação já me teria deixado extremamente orgulhoso do trabalho que fizemos, e feliz também. Gostei bastante do filme  a experiência de o fazer. Isso já foi uma grande vitória.

Em 2008, recusaste 15 milhões de dólares para figurar num grande remake da série televisiva Magnum P.I.. Mais recentemente, recebeste grandes papéis de super-heróis, incluindo o herói em Doctor Strange e o vilão em Guardians of the Galaxy Vol. 2. Falava-se em interpretares o detective trapaceiro Travis McGee, em The Deep Blue Good-By. Mas agarraste o The Dark Tower, baseado na série de romances do Stephen King, na qual interpretas um destruidor de mundos bem vestido.

Eu gosto do Guardians of the Galaxy, mas o que vi foi: “É bem sucedido, e agora podemos ter um papel colorido para outro actor de renome”. Eu iria sentir-me como uma alternativa. O guião d’A Torre Negrafoi bem escrito, gosto do realizador, e posso ser o criador, o autor do Homem de Negro – ou o Diabo –, na minha versão deste romance. É um thriller fantástico que ocorre num universo alternativo. Eu gostava de abordar a minha personagem como se eu fosse o Diabo a passar um bom momento, a ficar entusiasmado com a exposição da hipocrisia humana.

Não é de surpreender que este “McConaissance” tenha provocado algum retrocesso. Alguns dos teus filmes recentes, como o The Sea of Treese o Free State of Jones colidiram com a opinião dos críticos. Os teus anúncios televisivos cheios de estilo para a Lincoln – que ajudaram a aumentar as vendas em cerca de 25% – foram parodiados na TV pelo Jim Carrey e a Ellen DeGeneres.

Eu simplesmente, às vezes, não quero trabalhar tão arduamente para fazer algo que quero fazer. Algumas pessoas perguntam: “Como é que foste fazer o True Detective em televisão, depois do Dallas Buyers Club?”. Que se foda isso. A escrita é óptima, a personagem é óptima – essa decisão tomei-a em oito segundos. Eu estou no modo de não pedir permissão. Eu quero a experiência. A publicidade da Lincoln? Bom dinheiro, eu acho que são pequenas peças de arte interessantes e gostei de as fazer. Também fui o director de criação da Wild Turkey. Eles tinham-me convidado para ser o rosto da campanha, mas eu realizei o primeiro anúncio e fiquei responsável por tudo. Isso deu-me uma nova perspectiva sobre mim mesmo, e adorei.

Mas claramente a tua escolha de projectos passou por uma mudança muito grande. Em que altura é que após filmes como Ghosts of Girlfriends Past, pensaste que já chegava de comédias românticas?

Lembro-me de ler mais um desses guiões, rir e dizer: “Porra, eu posso fazer isto amanhã”. Aquilo era algo automático e estava mesmo ali. Não queria um Hamlet, mas debati-me bastante: percebi que alguma coisa estava a acontecer. Porque pensava: “Eu gosto de fazer estes filmes. Eles pagam bem. Porque é que ao ler isto fiquei assustado?”. E foi aí que percebi que minha vida era mais excitante do que o meu trabalho. Decidi tentar conseguir um trabalho que pudesse pelo menos competir com a vitalidade, alegria, amor, dor, esperança e estado de espírito que eu estava a sentir naquele momento. Eu tinha a minha epifania mesmo à minha frente: o meu filho Livingston. A minha esposa e eu tínhamo-nos casado naquele ano, e isso também me deu um novo sentido a cada dia que passava. Eu estava de regresso ao Texas, sem aparecer nos ecrãs e na Page Six em tronco nu na praia. Aquele tipo de coisas como “o McConaughey é um gajo com bom aspecto, surfa todos os dias, e tem uma namorada toda boa” vinha acompanhado de “ele faz apenas aqueles fimes românticos leves e divertidos”. Algumas pessoas pensavam que era fixe, mas outras pessoas ficavam tipo: “Ele que se foda”.

Vamos voltar à tua infância. Tu nasceste em Uvalde, no Texas, e cresceste com os teus pais e os teus dois irmãos mais velhos em Longview. Qual é aquela experiência que ainda hoje tens cicatrizes e o que é que preferias ter deixado para trás?

Houve tantas coisas incríveis, como os meus irmãos e o meu pai serem melhores amigos. A minha mãe e o meu pai divorciaram-se duas vezes e casaram três vezes. Eles eram loucos, foram umas marés muito turbulentas. Eles foram bem mais além do que levantar a voz um ao outro. Os dedos da minha mãe partiram-se quatro vezes por bater na testa do meu pai até ele finalmente se passar. Ela é a primeira a dizer “Eu estava a pedi-las. Eu precisava daquilo para comunicar.” O meu pai era um bruta-montes, mas também tinha umas mãos mágicas. A minha mãe estava sempre com enxaquecas; qualquer comprimido que tomasse, eram as mãos do meu pai que a faziam sentir bem. Eu tinha dores de ouvido, podia colocar gotas, mas eram as mãos dele que me aliviavam. Durante o segundo divórcio, que eu não percebia o que era na altura, eu vivia num parque de campismo com o meu pai. Nós tínhamos um periquito e uma vez chegámos à autocaravana e ele estava a afogar-se na sanita. Eu lembro-me de o meu pai bater nos joelhos, com as lágrimas a caírem-lhe, e colocar a cabeça do pássaro na boca para lhe mandar ar para os pulmões. Ai não se aquele pássaro não voltou à vida. Viveu mais cinco anos.



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