Linda Martini

Por Hugo Vinagre e Rafaela Andrade

15 de March de 2018

1. Fecharam as gravações do disco há três meses e meio. Como é que se vive este período até ele chegar a toda a gente?

HÉLIO MORAIS Com ansiedade. Aos poucos os discos foram chegando, e cada uma dessas peças acaba por ser mais um tijolo da casa que vamos construindo e eu acho que culmina no Lux.

PEDRO GERALDES Quando chega às pessoas sentimos mesmo como uma casa aberta e protegida, para poder receberquem quiser vir. Acho que há muita expectativa sempre. O processo é muito intenso na composição e depois na gravação. E a vontade é muita de que as pessoas oiçam e saber como é recebido.

CLÁUDIA GUERREIRO O disco para nós, pelo menos para mim,é como se já tivesse saído assim que acabámos de o misturar e masterizar. Aquilo para mim foi o dia de lançamento do disco. Mas tens que esperar não sei quantos meses até realmente sair e as pessoas ouvirem, e isso às vezes é um bocadinho desesperante.


2. Porquê irem vocês todos para a Catalunha, em vez de trazerem o produtor para trabalhar cá?

ANDRÉ HENRIQUES A razão de termos ido para a Catalunha foi pela escolha do produtor, o Santi Garcia. Assim que começámos afazer algumas pré-produções ainda aqui em Portugal, começámos a perceber que o disco era muito a cara dele e que era a pessoa ideal para traduzir a nossa visão. Se estivesse na China, se calhar não iríamos ter com ele. Mas a grande diferença deste disco, e indo à boleia da questão, é o processo de composição. Nós, desta vez, quisemos mesmo sair das nossas rotinas de Lisboa; porque, entretanto, há pais e mães dentro da banda, com outras responsabilidades, e tornava-se cada vez mais difícil dedicar dias inteiros à composição. E então aí, deliberadamente, começámos por dois retiros, um em Amares e depois outro na Arrábida, e aí fizemos o esqueleto daquilo que é o disco. O Sirumba, o disco anterior, tínhamos gravado aqui no HAUS. Mas este último decidimos que não, pelo Santi e porque percebemos que resulta esta forma de trabalhar.


3. Já levam ideias definidas do caminho que vão explorar ou nasce tudo em sessões?

PEDRO As residências servem para trabalhar de uma forma mais intensa, estamos dias seguidos em que só pensamos naquilo. Não nos limitamos a chegar lá e ter a folha em branco, e começar a desenhar ou a escrever. O nosso trabalho também passa muito por ideias que individualmente cada um de nós vai tendo. Mesmo no início das músicas, normalmente passa por um riff, por um beat ou por alguma coisa que achamos que tem potencial, e depois então trabalhamos juntos. Nós aqui temos os ensaios que são dois, três por semana, mas quando se está muito tempo seguido a tocar, há uma diferença muito grande.

HÉLIO Essencialmente,não deixas cair tanto as ideias. Porque quando estamos neste registo contínuo, tudo é gravado, então acabas por explorar mais todas as ideias que tens.

CLÁUDIA E quando estás no ensaio e já não sabes o que fazer, aqui optas só por te ir embora; e lá fora não, porque temos mesmo que aproveitar o tempo e voltar a pegar nas ideias.

HÉLIO E falas disso ao jantar, ao pequeno-almoço…

CLÁUDIA Podemos ser mais OCD com as coisas.


4. E quando uma ideia criada por um elemento é recebida pelos outros três, a versão final que ouvimos vem com uma roupagem nascida da fusão de todos?

HÉLIO Por exemplo, o Se me Agiganto é uma música que o André tinha feito inicialmente como um fado. Mas depois, sentimos necessidade de ter um momento daqueles com uma carga emocional um bocado mais forte. Mesmo à última hora, é que definimos exactamente como é que iríamos gravar as baterias e outras gravações extra, com gritos, sons de bancos, coisas a ranger… o primeiro estúdio onde gravámos tinha lá um poço com uma sonoridade bastante interessante. E por isso, o final não tem nada que ver com a versão que a Ana Moura ouviu. E isso sim, é trabalho dos quatro. Ainda que a ideia possa subsistir sozinha, quando chega aqui a esta mesa acaba por tomar um rumo, muitas vezes, bastante diferente da ideia inicial.


5. Sempre foram assim tão organizados, como se de um emprego se tratasse?

ANDRÉ Só com o Sirumba é que todos ficámos mais dedicados a nível profissional à banda. Portanto, só aí conseguimos ter essa clareza de espírito e essa agenda mais organizada, porque de resto, era sempre muito esta lógica de teres um ensaio ou dois por semana, ires compondo, e o processo demorava muito mais tempo. Imagina com um full-time, a entrares às 9h e a chegares às 21h a casa, tinhas o fim-de-semana, ou o final do dia para compor. Neste disco e no anterior, já estávamos mais focados e isso reflecte-se também nas próprias escolhas que tomamos, porque esta ideia que falávamos de ir para fora tem exactamente que ver com as nossas vidas também estarem diferentes.


6. Onde é que entra a inspiração?

ANDRÉ A inspiração entra sempre. Todos os dias.

HÉLIO Tenta-se forçar a que ela exista, tem que haver trabalho, porque se tu estiveres à espera que uma ideia brilhante te venha iluminar o espírito, se calhar ela não vai chegar. Acho que isso nós já aprendemos há muito tempo, mas o facto de nos conseguirmos motivar a fazer música juntos é que depois leva ao apurar das ideias que chegamao take final e que são gravadas no disco.

PEDRO E como somos quatro, também fica mais fácil, porque pode estar só um inspirado, que já conseguimos fazer qualquer coisa. [risos]

CLÁUDIA Um músico sozinho está lixado sempre. Quando fica encravado numa coisa, é muita difícil desencravar.

ANDRÉ Até porque às vezes, mais do que um “surgiu-me esta beleza extrema”, a inspiração passa muito pelas tomadas de decisão. É mais acreditar que tem potencial e a ligação que existe entre os quatro também ajuda. A ideia do outro complementa a tua.

HÉLIO Isso é o principal, trabalhar. Esta ideia de estarmos sentados e as músicas nos caíremno colo para mim é mito. Às vezes cai, mas porque já trabalhaste 30 dias antes. Eu lembro-me que no Sirumba, havia dias que estávamos aí a empinar o dia todo e saías daqui meio frustrado; depois no dia a seguir, numa hora resolvias duas músicas. A criatividade também se espevita e isso espevita-se com trabalho.


A não perder 20 perguntas aos Linda Martini na revista de Março. Já nas bancas.

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