Guilherme Duarte

Por Playboy Portugal

17 de April de 2018

POR HUGO VINAGRE E RAFAELA ANDRADE | FOTOGRAFIA  RITA UMBELINO


1. Trabalhaste dois anos e meio como consultor, para depois viajares um ano pela Europa em busca dos melhores artistas de rua. Coincidiu com a saída da empresa ou decidiste simplesmente mudar de vida?

Sim, um bocadinho. Infelizmente o projecto durou um ano, mas a viagem em si demorou dois, três meses. Estava um bocadinho farto daquilo e pensei “como é que eu me despeço e vou passear sem parecer irresponsável”, então criei esse projecto que era procurar artistas de rua com um amigo e lá fomos. Foi assim um ir arejar um bocadinho, fazer algo que achava interessante e depois pensar na vida mais tarde. 

2. Mais tarde começas a dedicar-te à comédia, mas foste dando uso ao curso de Engenharia Informática. No início do ano passado largas também essa parte: já era complicado conjugar tudo?

Quando cheguei dessa viagem montei o blog e comecei a escrever. Entretanto fiquei a trabalhar em informática, na minha área, não na consultoria e em start-ups, e fui conseguindo balancear entre as duas coisas, mas começou a ser incomportável. Comecei a ganhar cada vez mais gosto pela parte do humor e pela escrita e a ter também pedidos de trabalho nessa área. Cheguei ali a uma altura que pensei “se calhar está na altura de experimentar, vamos ver se funciona”. E mandei-me às urtigas.

3. Criaste um blog com textos enormes em 2014, numa fase em que o vídeo estava claramente a ficar na moda. Tinhas mais jeito para escrever?

Eu nunca quis fazer vídeos nem dar a cara, nunca foi a minha intenção. A página no início era totalmente anónima, não estava associado. Quando comecei a fazer stand-up percebi que me ia dar jeito associar a minha imagem, porque podia alavancar o pessoal que seguia aquilo para ir ver os espectáculos e comecei também a ter algum interesse em fazer vídeo, mais na onda dos sketches. Comigo sempre funcionou melhor o texto, acho que ainda hoje. Dizem as mentes práticas que os textos grandes não funcionam no Facebook, mas para mim é o que funciona melhor. Também acho que talvez tenha sido por aí que me consegui diferenciar e arranjar ali um nicho de pessoal que seguia aquilo. Continuo também a gostar de fazer vídeo, mas dá mais trabalho, escrever é mais fácil, uma pessoa pode não tomar banho e estar de pijama. Para fazer um vídeo tenho que tomar banho de manhã, é uma chatice.

4. Por falar noutra coisa, como foi a infância na Buraca?

Olhando à distância acho que foi boa. Para mim aquilo sempre foi normal. Há-de ser assim em muitas outras zonas, eu ia a pé para a escola e sabia que podia ser assaltado, ia jogar à bola todos os dias e aquela bola era muito provável que não voltasse para casa connosco; fazia parte do meu dia-a-dia. Íamos da escola para casa, provavelmente tínhamos que correr ali em alguma altura ou andar à batatada mas a ver assim à distância, acho que me preparou para a vida. Via outras pessoas no meio profissional a sofrerem um bocadinho de bullying ou a serem explorados e eu já tinha sofrido a minha quota-parte nas ruas da Buraca, já não tolerava tanto. Quando dizia que era da Buraca havia logo uma aura ali à volta de “Se calhar não podemos meter-nos com este gajo” e eu não desmentia, deixava-os pensar “Sim, sim, tenho amigos muito perigosos”. Portanto acho que foi giro e os meus melhores amigos continuam a morar quase todos lá. Portanto, sobrevivendo, acho que foi uma boa experiência.

5. Sempre achaste que tinhas piada? Qual foi a primeira situação que te lembras em que percebeste que o humor era um super-poder?

Não sei, acho que nunca me apercebi muito bem de ter piada. Sempre fui muito tímido e introvertido, principalmente em grupos estranhos, não no meu grupo de amigos, e a minha arma para interagir socialmente acabava por ser o humor. Estava ali um bocadinho caladinho nas conversas, surgia uma piada eu dizia e o pessoal ria-se e havia ali uma espécie de aprovação e integração no grupo. Vem um bocadinho daí, mas nunca achei que tivesse especial aptidão para isso. Eu gostava muito de ver o Herman Enciclopédia e imitar os sketches para os meus pais e eles riam-se, mas porque eram os meus pais. Quando comecei o blog, foi mesmo sem grandes intenções, foi “estou aqui em casa à procura de outro emprego e vou espairecer um bocadinho” e nem via o objectivo daquilo ser comédia, ainda hoje não há, acaba por ir para aí a maioria dos textos, mas no início era só um espaço para eu dizer coisas. Acabei por perceber que esse era o registo em que mais me gostava de exprimir. 

6. A Buraca faz parte do imaginário do Por Falar Noutra Coisa. Ao te mudares para Alvalade não temeste estar a desvirtuar a tua própria mitologia?

Um bocadinho, aquilo ali não se passa nada. Há menos histórias para contar, menos interessantes. Mas os meus pais e os meus amigos continuam a estar na Buraca, e eu vou lá muitas vezes. Um gajo sai da Buraca, mas a Buraca não sai de nós, e acaba por também ser giro esse contraste, o choque cultural que é entre um lado e outro. Ainda hoje muitas vezes dou por mim na rua a observar e a sentir-me mais em casa quando vou à Buraca do que quando estou ali em Alvalade, em que, às vezes, o ambiente é mais estranho para mim do que ali passear ao pé da Cova da Moura. Foi uma transição, foi para ali como podia ser para outro sítio.




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