Fez-se história na Ericeira

Por Hugo Vinagre

01 de July de 2017

A primeira noite do Sumol Summer Fest juntou um daqueles elencos que só se costuma ver em momentos de solidariedade, neste caso junto para homenagear 23 anos de hip-hop em Portugal.

Muitas vezes a teoria acaba por ser muito melhor do que uma ideia colocada em prática mas não foi de todo esse o caso na viagem de retrospectiva pela história do hip-hop tuga. Desde logo pela oportunidade de voltar a ver em palco nomes pioneiros como General D ou Black Company, que se apresentaram a uma plateia jovem que encheu o recinto para assistir a uma lição que lhes mostrou o percurso do tipo de sonoridade dos artistas que veneram, como Bispo, Dillaz, GROGNation ou Piruka, este último apenas referenciado numa das várias homenagens em vídeo a nomes que não estiveram presentes, suficiente para fazer disparar um refrão em coro.

E se o elenco perfeito é provavelmente algo inalcançável, por exemplo Dengaz alegou motivos pessoais para cancelar a presença no próprio dia, além de que Boss AC, Valete ou Regula são incontornáveis na história do rap nacional e também foram apenas homenageados, o certo é que as cerca de duas horas de espectáculo sem paragens ficam gravadas na memória de todos os que ali estiveram.

Uma história introduzida pela voz do mítico José Mariño, onde pudemos voltar a ouvir em palco Ace e Presto, as duas vozes dos recém-extintos Mind Da Gap, num desfilar de talentos, além dos já referidos, com Nel’Assassin, dos históricos Micro, como DJ: NBC, Dealema, Sir Scratch, Sam The Kid, Capicua, Halloween, Tribruto, Tekilla e Holly Hood.

O espectáculo encerrou com uma surpresa, a subida ao palco de Gabriel, o Pensador, figura ligada ao movimento nacional desde o início. Reza a lenda que as primeiras afinidades entre o brasileiro e alguns dos que davam os primeiros passos no rap que se fazia deste lado do Atlântico foram estabelecidas logo na primeira passagem de Gabriel por Lisboa, para um concerto que teve lugar há mais de duas décadas. E já que ali estava, Gabriel não deixou de largar alguns dos versos do seu clássico "FDP".

Como seria de esperar, dada a ordem maioritariamente cronológica dos temas em palco, a reacção mais forte, além de Sam The Kid, que está com Valete já num Mount Rushmore virtual do hip-hop tuga, foi para os mais jovens, que tinham sido aquecidos inicialmente por DJ Big. Num dos temas Bispo pouco cantou, tamanho era o coro que ecoava pela Ericeira.

A diferença de gostos entre gerações não é nada de novo, mas aqui além de mostrar a vitalidade do género, tem a curiosidade de acontecer com artistas que pouco destaque têm nos meios tradicionais, mas contam com milhões de visualizações em plataformas como o YouTube. Nunca os públicos terão estado tão fragmentados, com tudo a ocorrer cada vez mais praticamente em universos paralelos, que ontem tiveram um ponto de união.

Era bom que uma noite mágica como esta ficasse registada além da memória de todos os presentes, pelo que resta aguardar pelo que a organização do mesmo tem ou não na manga. Caso um vídeo exista, seria egoísta deixá-lo na gaveta.

O primeiro dia encerrou com Fat Joe, nome com história, que recordou que também ele começou em 1994, como o espectáculo que o antecedeu, e tanto animou o público como muitos dos que tinham passado por ali anteriormente e assistiram à actuação do norte-americano mesmo ao seu lado, nas laterais do palco.

As festividades encerram este sábado com destaque para Valas, mais um talento emergente do rap nacional, o também jovem Post Malone e o já veterano Sean Paul a servir de garantia para um final de noite em festa, que será feito efectivamente pelo DJ SlimCutz, a partir das duas da manhã, numa edição que fica sem dúvida também ela na história do hip-hop nacional.

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