Experiências para todos os gostos

Por Hugo Vinagre

23 de July de 2017

O mais camaleónico dos nossos festivais voltou a apresentar momentos inesquecíveis, assumindo-se como uma proposta diferente que parece ter assentado arraiais para os próximos tempos.

Depois de passar pelo Meco, vários locais em Lisboa ou concertos isolados tanto na capital como fora dela, o Super Bock Super Rock esteve este ano pela terceira vez no Parque das Nações. Um verdadeiro festival urbano, onde se caminha sobre pedras da calçada e se entra num pavilhão durante o Verão, mas que tem marcado a diferença pela programação, que apesar de parecer querer agradar a quase todos em cada um dos dias, não oferecendo uma proposta tão equilibrada como por exemplo a da data em que Kendrick Lamar nos visitou há um ano, teve o mérito de oferecer bons concertos e com um deles, o de Future, provocar grandes discussões sobre o futuro da música ao vivo. Pelo meio, Slow J assumiu-se como um dos grandes vencedores do cartaz: depois em 2016 ter subido ao palco mais pequeno do festival, ainda só com um EP na bagagem, agora teve uma multidão a seus pés sob a pala do Pavilhão de Portugal e foi logo convidado para actuar novamente no próximo ano, dessa vez na Meo Arena. Um percurso natural, quando se trata de um talento imenso da música nacional. Pelo menos.

Logo ao primeiro dia os Red Hot Chili Peppers tiveram o público aos seus pés e deram-lhes quase tudo o que queriam. Entrada em campo com vários singles, que provocaram o delírio imediato e um concerto eficaz, uma década após a última passagem por Portugal. Pelo meio alguns temas mais inesperados, igualmente bem recebidos, deixando de fora Scar Tissue ou Under the Bridge. Mais um quarto de hora e só saía dali sem as medidas cheias quem nunca tivesse achado piada aos rapazes da Califórnia. E se bastava olhar para as t-shirts que dominavam a multidão para perceber que a grande maioria estava ali por eles, existiram mais momentos a destacar nesse primeiro dia, logo a começar pelo projecto Alexander Search, com a voz de Salvador Sobral, que deu o pontapé de saída do festival, ou The Legendary Tigerman, que encerrou esse mesmo palco EDP, apresentando pela primeira vez o álbum que vai lançar daqui a uns quantos meses. Sofreu pela proximidade do início do concerto mais esperado da noite, mas deu o litro como se não houvesse amanhã.

O dia do meio era o que despertava mais curiosidade pela presença de Future, que depois da tal noite mágica de Kendrick Lamar há um ano, tinha agora a responsabilidade de dar a cara pelo hip-hop, confirmando o talento que lhe concedeu o feito de lançar dois álbuns em duas semanas seguidas e ambos liderarem consecutivamente o top de vendas norte-americano. O mínimo que se pode dizer é que foi uma experiência diferente: uma hora de actuação, mais de vinte temas a desfilarem, saltando por vezes de refrão em refrão, com a música e os vídeos a passarem no fundo e Future a ir cantando aqui e ali. Em palco, apenas ele e três bailarinos, com a plateia aos saltos à sua frente. Se isto é um concerto, uma festa, ou simplesmente o futuro, fica ao critério de quem o quiser voltar a ver. A experiência de assistir à actuação de um dos grandes nomes da actualidade, que por exemplo passou há tempos por Coachella, essa ninguém a tira a todos os que por ali passaram. A tarde começou com outro nome com peso, Pusha T, que reuniu uma audiência considerável para as cinco da tarde. De passagem para uma actuação nessa mesma noite noutro ponto da Europa, deu tudo e animou quem chegou cedo para o receber. O já mencionado Slow J e o projecto Língua Franca, que contou a decisão inteligente de apresentar também temas a solo de Capicua e Valete, que levaram o público para níveis mais elevados de felicidade do que se poderia supor só com o álbum recém-editado em conjunto com os brasileiros Rael e Emicida, fizeram com que a zona do Pavilhão de Portugal fosse muito frequentada pelo público, que também aderiu a actuações como as de Keso ou NBC no mais pequeno dos palcos do festival.

O último dia seria marcado pelo regresso dos Deftones a Portugal, sete anos depois de terem estado cá por três vezes em poucos meses, para só agora regressarem. Apesar dos álbuns que lançaram desde então, tratou-se de um alinhamento no formato Greatest Hits, que aqueceu bastante o público que, apesar de não ser tão numeroso como pedia o maior dos palcos do Super Bock Super Rock, deu quase tudo. Crowdsurf, abraços sentidos ao vocalista Chino Moreno e uma devoção extrema por uma banda com mais de duas décadas de uma carreira sem grandes passos em falso. Antes Seu Jorge desfilou as suas versões de David Bowie no palco EDP, a seguir houve festa para quem ainda a queria fazer com Fatboy Slim e para o ano há mais, a 19, 20 e 21 de Julho, novamente no Palco das Nações, que talvez se fosse alcatifado ficasse mais acolhedor. Até porque se de um lado temos o rio, do outro estamos a ver concertos com prédios a servir de fundo e quanto a isso não há muito a fazer.

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