Uma aventura no Rock in Rio

Por Hugo Vinagre e Rafaela Andrade

02 de July de 2018

Relatos de uma viagem de quilómetros, mais ou menos cronológica, ao longo de quatro dias no Parque da Bela Vista.

Nesta oitava edição do festival foi a Diogo Piçarra que coube a honra e responsabilidade de abrir as hostilidades no palco principal, onde fez também a primeira homenagem a Zé Pedro, sozinho em palco a interpretar Homem do Leme. Abriu caminho para as Haim, três irmãs californianas que foram tentando aquecer o público, que se não andava a jantar é porque já estava a posicionar-se para receber os Muse, apesar de antes disso ainda termos Bastille no menu. Competentes e esforçados, conseguiram pegar no público e servir a sua dose de pop electrónica bastante agradável, onde várias músicas têm potencial para campanhas publicitárias, com tudo o que de positivo e negativo isso acarreta.

E quando finalmente chega a hora dos Muse, oito anos após a segunda passagem deles pelo Rock in Rio, não deixa de ser curioso reparar como o tempo passa. O primeiro álbum da banda é de 1999 e Black Holes and Revelations, que os catapultou efectivamente para as rádios de todo o universo, já tem 12 anos, o que significa que muita gente que ali estava cresceu a cantar Starlight e afins. Uma das últimas bandas rock de estádio, os ingleses não precisam de inventar muito e após arrancarem com o mais recente single daquele que será o oitavo álbum de estúdio da banda, passam pelos tais temas de maior sucesso, a que juntam outros quatro de Absolution e uma visita ao passado mais longínquo, com Plug In Baby, num alinhamento que ficou um pouco morno a meio, mas sem dúvida cumpriu e encheu a alma dos presentes.

Já no palco Music Valley, que substituiu tanto o Sunset como a Tenda Electrónica, Carolina Deslandes foi a estrela principal do primeiro dia. Com a programação a iniciar-se durante a tarde e a terminar às duas ou três da manhã, alternando entre DJ sets e bandas, esta nova solução mostrou-se uma aposta de sucesso. Sofrendo apenas um pouco quando chegava a hora do headliner do Palco Mundo, manteve-se sempre como uma alternativa válida ao que se passava ao longo da noite no palco principal. Na segunda noite foi Deejay Kamala que encerrou a festa por ali, com um set poderoso, num palco por onde antes passaram nomes como Língua Franca, HMB, Bispo, Supa Squad, Mishlawi ou Dillaz, que fez a festa e deliciou um público fiel que recebeu também Regula de braços abertos quando subiu ao palco para ajudar a tratar de Wake N Bake.

Nessa segunda noite de Rock in Rio era Bruno Mars o nome que fazia as delícias da multidão, na única noite esgotada desta edição. E esgotada é mesmo muita gente na Bela Vista. Antes disso já Agir tinha colocado um coro afinado a concordar que “Ela é linda sem makeup” e Anitta provou que ao vivo também tem os dotes para fazer a festa onde quer que chegue, fazendo levantar a poeira que está tradicionalmente a cargo da compatriota que chegaria no fim-de-semana seguinte. Após a polémica por não ter sido convidada para a anterior edição brasileira do festival, Anitta não só já foi anunciada para o de 2019 como também teve este baptismo no de Lisboa, que a deixou radiante pela recepção e por colocar o funk no lugar de destaque que merece. Relevante ainda a mensagem visual transmitida pelos corpos de todos os tamanhos entre as bailarinas que rebolavam em palco.

Demi Lovato foi outro dos pontos altos da noite, emocionando-se a ela e aos fãs essencialmente graças à sua voz, que muitos conheceriam desde os tempos da Disney, mas nunca tinham ouvido ao vivo em território nacional. A actuação ficaria ainda marcada por Sober, uma estreia dentro da própria estreia, de um tema lançado recentemente que fala sobre a relação complicada que a jovem de 25 anos tem tido com o álcool.

Já Bruno Mars mostrou perante a maioria das 85 mil pessoas que esgotavam a Bela Vista o que faz dele uma das maiores estrelas mundiais da pop dos nossos dias, numa viagem por várias épocas e géneros, ao jeito de homenagem e reimaginação. Em palco tudo faz sentido, tanto quando se coordena nas coreografias com os seus músicos, como quando toma o protagonismo e só o divide com o coro de milhares de vozes que fez questão de acompanhar muitas das suas músicas, numa noite para mais tarde recordar. Essas memórias não serão é reavivadas a partir de fotografias tiradas pela imprensa, já que o artista não as permitiu.

Mais uma volta, mais uma corrida no carrossel. Ou, neste caso, na roda gigante. Se não esteve preso no escritório ou duas horas no trânsito, terá visto neste segundo round de RiR um dos gigantes do panorama nacional: Manel Cruz. Apesar das adversidades que somam ao clima tropical daquela sexta-feira, menos apetecível quando a chuva vem sem filtro, o músico conseguiu levar Cães e Ossos aos fãs mais fiéis. Este primeiro álbum em nome próprio chegará em Setembro, mas nos entretantos já há versos bem aninhados nos nossos ouvidos. Além das novas canções, o alinhamento revisitou os outros projectos do artista, como Pluto e Foge Foge Bandido; e, como se já não fosse suficiente sermos brindados com um concerto seu, Manel Cruz ainda remata com Capitão Romance de Ornatos Violeta.

De seguida, fomos ter com James ao palco Mundo. A banda de Manchester regressou a Portugal e, apesar da improbabilidade num grande festival e ainda para mais na imensidão do Parque da Bela Vista, conseguiu uma actuação bastante intimista – e muito pela humildade e o afecto pelas terras lusas já bem conhecidos de Tim Booth. O frontman aqueceu uma geração em peculiar com hit atrás de hit, nadando literalmente por entre o público, enquanto todos cantavam Laid, o hino imortalizado por American Pie.

Regressamos ao Music Valley e ao psicadelismo descontraído de Capitão Fausto. O quinteto partilhou a boa-disposição com o emergente Luís Severo, abraçando os ainda cépticos às novas nuances da música nacional. Enquanto C.F. desfrutam de um confortável lugar ao sol que foram conquistando desde Gazela, Severo parece exalar rasgos de uma herança de Carlos Paião que foi provada naquele palco como uma lufada de ar fresco. Mas é entre o ser e o parecer, que estes jovens músicos vão criando o seu trilho na indústria e, com novo álbum a sair do forno, é difícil acreditar que Capitão Fausto Têm os Dias Contados.

19h45, hora de atravessar novamente a multidão e correr para Este. “Toca Xutos” é um desbloqueador de conversa para quem assiste ao mais improvável concerto (brincadeira que se tornou bem séria quando Metallica, de facto, tocaram Xutos no seu último concerto em Lisboa), e o Rock in Rio insiste em apostar nesse gatilho, como prova a presença da banda portuguesa em todas as edições do festival. Mas, desta vez, aconteceu de um modo diferente. Zé Pedro, o guitarrista e figura incontornável da vida de muitos, deixou-nos o ano passado, e este foi o primeiro concerto oficial a tentar sobreviver a uma amputação destas. Com uma tristeza alegre bem característica do povo português, Xutos & Pontapés entregaram os temas sempre bem-vindos e pérolas como Esta Cidade ou Remar Remar. Vídeos das performances do guitarrista – à semelhança do que Queen têm vindo a fazer com Freddie Mercury – aguçaram a emoção. E não só a saudade romperam, como também os céus. Segundos antes de Marcelo Rebelo de Sousa entrar em palco, uma chuvada surreal cai, dando os primeiros acordes para aquele que viria a ser o momento mais épico desta edição. Ao Sr. Presidente, juntam-se António Costa, Fernando Medina, Ferro Rodrigues, Catarina Martins e inúmeras personalidades da televisão, da música e do desporto – uma enorme família numa homenagem muito especial à verdadeira rock star portuguesa que recheou um coro gigante em A Minha Casinha. E se James tinha ali navegado pela plateia horas antes, todos os portugueses naquele momento surfaram, orgulhosamente, com Zé Pedro.

The Killers foram uma das cartadas finais daquela sexta-feira. A banda liderada pelo vocalista Brandon Flowers veio apenas com o baterista Ronnie Vanucci Jr. da formação original, pois o guitarrista decidiu não andar em tour para passar tempo com a família e o baixista quer concentrar-se na sua licenciatura em História de Arte. Aparentemente, ninguém é insubstituível e, além de fazerem questão de promover o frango assado do restaurante lisboeta Bonjardim e imaginarem o Presidente a tocar pandeireta em seis músicas, The Killers trouxeram ao RiR a receita que sabem que satisfaz. Cinco anos depois da estadia em Portugal, apresentaram o mais recente disco Wonderful Wonderful e muito sumo de Hot Fuss, o álbum que os estreou. Para o encore, escolheram o ultra comercial Human que, talvez injusta a comparação, está ao nível da escorregadela de Muse com Uprising; mas fecharam, como felizmente já é da praxe, com o seu indie-pop rock despretensioso Mr. Brightside.

Num palco mais despido do que noutras ocasiões, como a célebre em que iam estragando a noite ao resto das bandas num festival aqui das redondezas, relativamente salvo por uma grua, os Chemical Brothers tinham o que bastava para conquistar os presentes: a sua música e ecrãs gigantes. A aposta da dupla no vídeo já é de longa data, aliás, existe material aqui usado que data pelo menos de 2007, quando passaram por uma estação do Rossio com o túnel em obras, para uma actuação inesquecível. Daí para cá continuam a ser impressionantes a usar imagens em conjunto com a sua música e um final com Galvanize, Song To The Siren e Block Rockin' Beats só podia dar certo. A única coisa que podia fazer ali menos sentido era mesmo passar-se em simultâneo com uma certa festa que decorria no palco oposto do recinto.

A Revenge of the 90’s fundiu-se com o Rock in Rio e criaram aquilo que mais defendem: uma experiência. Com tantos revivalismos dos 80’s, estes organizadores decidiram homenagear a época dourada da década seguinte. Entre as canções da Disney, o fenómeno Big Show SIC, Tamagotchis, Pega Monstros e bolhinhas de sabão, convidaram os infames Ena Pá 200. A banda que fez as delícias de (pré) adolescentes e mais graúdos, ofereceu um espectáculo sem grandes adaptações àquele formato, e ainda bem. O cabecilha Manuel João Vieira libertou os seus momentos insólitos com “Marilú, deixa-me ir-te ao cu” ou “Florbela Espanca-me”, deixando alienados os mais novatos que se encontravam na grade, mas aquecendo os das colheitas anteriores.

A viagem no tempo foi acontecendo através de um dj set com Anjos, Excesso, Toy, Spice Girls, Backstreet Boys, Aqua ou Whigfield – e foi o sucesso Saturday Night, de 1994, desta loira dinamarquesa que abriu as cortinas para uma das surpresas da noite: Haddaway. Se What Is Love? quando foi lançada já ficava em loop nos nossos ouvidos, depois de Jim Carrey a ter satirizado no mítico programa Saturday Night Live, ficámos reféns dela para sempre. Músico alemão, foram as raízes em Trinidad que inspiraram Nestor Alexander Haddaway a conquistar o trono na eurodance e no techno pop. Conversámos com o artista logo após ter acabado de tocar a sua segunda e última música, ainda surpreendido com a visita de médico aos nossos palcos – algo inevitável no conceito Revenge. Não resistimos a perguntar-lhe se ele hoje já sabia o que era o amor, o que afinal sempre soube: “Eu só queria provocar um ’wake-up call’ nas pessoas. O amor é sobre a ressaca de perder a suposta alma gémea e viver tudo isso outra e outra vez. É sobre sugarem-te a vida e tirarem-te tudo, e o teu masoquismo em quereres perpetuar esse sofrimento. E é sobre a minha ex-mulher.” Na realidade, apesar de parodiado saudavelmente, Haddaway só quis fugir à cheesiness de transformar o amor em mais uma balada, e conseguiu que multidões exorcizassem os seus desgostos através da dança.

Nonstop, a girlsband portuguesa, foi o outro bombom da festa, que antecedeu um menos saboroso: Crazy Town. Os norte-americanos vieram apenas com o vocalista Shifty Shellshock e o guitarrista. Tocaram Revolving Door e logo perceberam que para aquele público eram apenas um produto com o nome Butterfly. Shifty limitou-se a cantar por cima da gravação da música e ali foi a prova de que as bandas one hit-wonder, nem sempre têm um impacto imortal – e curioso que o icónico riff desse único grande hit foi criado por John Frusciante para Pretty Little Ditty, de Red Hot. Ainda assim, após terem sido a banda-sonora do novo milénio e depois das frustrações com o cancelamento na última festa, era de esperar uma recepção calorosa; mas, ou é a desvalorização que se dá às coisas quando estão integradas num pack, ou o público leva a reencarnação dos anos 90 mesmo a sério e, inspirados na série Arrepios, zombieficou-se.

Chegámos ao último dia e, depois dos dj’s, começa da melhor maneira. Carlão abre o Music Valley com a camisola da selecção no corpo e uma energia contagiante. Pela primeira vez com baterista, o concerto contou com as músicas do álbum Quarenta, a versão acelerada de Buraka Som Sistema para Dialectos de Ternura dos eternos Da Weasel e um convidado especial. Slow J sobe ao palco para apresentar um single do novo álbum de Carlão, Entretenimento? E a fusão destes dois só ficou a pedir mais e mais.

E, de seguida, a amiga Ivete Sangalo no palco Mundo. Xutos está para o RiR, como está Sangalo, e ainda assim, arrastam sempre multidões. Com desportivismo ao ver a hora da sua actuação ser alterada por conta do jogo da selecção, a brasileira deu mais um “show” para lá de competente. Obviamente, levantou poeira, mandou balões de água gigantes e tirou o pé do chão dos milhares de fãs que a recebem sempre na Cidade do ‘Rock’. E, para interpretar O Canto da Cidade juntou-se Daniela Mercury – o melhor dos dois mundos.

19h00: Portugal x Uruguai. Roberta Medina, assim que soube que o jogo do Mundial iria ocorrer no último dia do Rock in Rio, não hesitou em fazer toda a ginástica possível para que todos os visitantes e músicos pudessem ter o campeonato e os concertos sem conflitos entre si. Em frente ao palco Mundo, todos estavam religiosamente sentados a ver Portugal, com os animadores da Revenge of the 90’s a motivarem o público no intervalo, com confettis, bolas de futebol XXL e com esperança de ser um dos momentos mais especiais do festival. Mas, se A Minha Casinha foi o hino oficioso para um deles e para o grito de glória de Cristiano Ronaldo quando nos consagrámos campeões europeus, aqui teve um desfecho agridoce. Fim do mês, fim da 8ª edição e fim do sonho Mundial. Mas, a música continua e a organização não dá espaço para digerir angústias.

A britânica Jessie J e a mais portuguesa do que brasileira Blaya confrontaram-se nos diferentes palcos. Enquanto que a primeira conquista pela doçura, solidez vocal e um flow impressionante, a segunda destaca-se por uma postura na indústria musical cada vez mais ousada e arrojada. Já são poucos os que choram por Buraka Som Sistema quando vêem Blaya, que tem vindo a afirmar-se a solo. Não deixou de fazer uma interpretação arrebatadora de Stoopid, acompanhada dos seus bailarinos, mas deu em duas doses aquela que se confirma ser a música de 2018 e que até Anitta encaixou no seu alinhamento: Faz Gostoso.

E a verdadeira celebração chegou na despedida do palco Mundo. Katy Perry regressa a Lisboa depois de sete anos de saudades. Como uma cereja no topo do bolo, a artista devorou a Bela Vista em três actos, divididos em seis momentos: manifesto, retrospectiva, descoberta sexual, introspectiva, emergência e, claro, o encore. Muitos temas do seu mais recente Witness fizeram parte da setlist, mas partilhou com os fãs de forma entusiasta tudo o que eles queriam ouvir. Flamingos altíssimos, uma máquina alienígena e o tubarão humano da Super Bowl foram alguns dos convidados de honra de Katy no País das Maravilhas. Ali foi o concerto de uma performer fiel a si mesma, que consegue ser glicodoce e falar para adolescentes sonhadoras, como rapidamente transbordar sexualidade enquanto é polvilhada por galheteiros gigantes de sal e pimenta. E não só espalha tenacidade enquanto grita o seu Roar, como exibe orgulhosamente a bandeira colorida do gay pride como mote para a música que a colocou no trampolim do sucesso: I Kissed a Girl. A cantora, que tem uma costela portuguesa, desfilou as suas várias indumentárias e os seus Hot N Cold, Dark Horse, California Gurls e Teenage Dream. Sempre com um humor peculiar – com espaço para posar em modo smize de Tyra Banks face às reacções à sua nova “carecada” –, Katy Perry conseguiu, ainda que com um batalhão de bailarinos e efeitos cénicos, criar um espectáculo com uma cadência muito cool. E para quem lhe ficou a exigir uma maior empatia com o público por ser cabeça de cartaz, é de relembrar que, para além de o valor de um artista não se medir pelo fanservice, a superstar americana ainda fez questão de fazer referência à tristeza dos portugueses por terem sido eliminados do campeonato de futebol, em jeito de consolação. Mesmo os mais alheios à música pop, não conseguiram sair indiferentes do mundo cor-de-rosa bem kinky de Perry. E, para o último adeus, claro, Firework. Naquele final de noite, foi o caso de que “mais é mais”: houve muito, muito artifício, mas houve ainda mais fogo.

E lá se passou mais uma edição, esta com 278 mil pessoas. Num festival que se assume como um acontecimento, o entretenimento puro é o que pesa cada vez mais na balança. Este ano, a piscina teve um protagonismo diferente com reestruturação da outrora tenda electrónica e palco secundário, os gamers tinham uma arena própria e os fenómenos do YouTube e do mundo digital tinham a sua plataforma real para brilharem. Nas maratonas entre palcos, conseguia-se sentir a massa grande de pessoas a deambular e a deixar-se consumir pelos infinitos pontos de distracção espalhados pelo recinto. A EDP Rock Street ganhou nova programação, o slide, os sofás insufláveis e a roda gigante continuam bem concorridos, e até o mercado de gastronomia da Time Out chegou à Bela Vista. Se já antes era um evento que não dependia do cartaz para conseguir que famílias inteiras marcassem presença, agora (que até teve dinossauros), numa era em que a interactividade e o turismo atingiram uma força astronómica, o Rock in Rio é, definitivamente, Lisboa.

Fotos: Agência Zero

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