CHAKALL

Por Playboy Portugal

22 de May de 2018

ENTREVISTA HUGO VINAGRE ERAFAELA ANDRADE | FOTOGRAFIA BERNARDO COELHO


O QUE É QUE TE FEZ DECIDIR FAZER VIDA EM PORTUGAL?

Eu não decidi fazer a vida em Portugal, aliás eu cheguei e estava a planear uma viagem. Tinha pensado em estar cá um ano. A viagem era por África, a Argentina não tem ligações com África, conhecia mais ou menos a Europa e o único país que eu não conhecia era Portugal. Tive um ano aqui como jornalista, não podia escrever, então comecei a trabalhar como cozinheiro, porque já tinha trabalhado num restaurante de família que foi um sucesso. No ano que eu fiquei cá, tornei-me mais ou menos conhecido, sempre em entrevistas. A única pretensão que eu tinha era gastar o dinheiro para a viagem para África. Fui-me embora no fim de 1998, voltei 2 anos depois e fui ficando. Gostei muito de Portugal, mas Lisboa era muito pequena. Depois de um mês a trabalhar no Bairro Alto, fiquei como um cão às voltas, não havia muita coisa, não havia para onde fugir na altura. Era o Bairro Alto ou o Bairro Alto. Depois fui encontrando coisas que fui gostando mais e agora ninguém me tira daqui. 

NESSA ALTURA, ANDASTE QUASE DOIS ANOS A DAR A VOLTA A ÁFRICA NUM LAND ROVER. DO QUE É QUE ANDAVAS À PROCURA?

Tinha feito uma viagem de 6 meses pela América do Sul, sozinho, fui à Argentina, Colômbia e voltei. Como o Che Guevara, mas sem muitas revoluções. Tinha curiosidade, lia muitos livros em pequenino sobre África e sonhava que era um aventureiro, um inglês ou um sul-africano, e ficava muito envolvido nas coisas. Era fanático por Júlio Verne. O meu sonho era comprar um carro e dar a volta ao continente como um “expedicionário”.

O QUE É QUE TE LEVOU A QUERER SAIR DA ARGENTINA?

Estava um pouco cansado. Acho que a vida é muito curta para viver só num país e perceber se realmente é o nosso país. Eu gostava de viver na Argentina, tinha um bom trabalho, tinha tudo – mas tinha 25 anos. Aos 18 anos, comecei a fazer viagens de quatro meses na Índia e achava que queria mais. O desafio era a Europa. A América Latina olha muito para os Estados Unidos, mas a Argentina olha mais para a Europa. Antes já tinha vivido em França e na Alemanha, como jornalista. Na Argentina, em termos de segurança, uma pessoa tem que ter a preocupação se vai deixar a mota na rua porque quando voltas para casa, pode estar tudo do avesso; não tens nada, roubaram-te as coisas, ou chegas à esquina e dão-te um tiro. Eu achava que as preocupações tinham que ser outras. Na minha experiência europeia, tinha percebido que posso andar descansado. Portugal é o paraíso, é um país hiperseguro. Isto foi a primeira coisa que me fez mudar de país, independentemente do meu sucesso ou insucesso na altura. Ganhava 5 mil euros por mês e vim para Portugal para ganhar 500€, 120 contos, portanto não era pelo dinheiro. Acho que é importante num momento da vida, sobretudo quando somos jovens, tomar decisões que se calhar um dia nos arrependemos ou não – por sorte nunca me arrependi. 

ESTE TEU «CHAKALL», QUE VEM DOS TEMPOS DE CRIANÇA, SEMPRE SE MANTEVE OU FOI RECUPERADO QUANDO DECIDISTE SER CHEF?

Não, sempre se manteve. Quando era jornalista era Eduardo Lopez.  E numa revista da universidade, escrevia com um pseudónimo, ninguém sabia quem eu era. Tinha outros 3 pseudónimos, um deles estava relacionado com Montesquieu. Na escola, obviamente que o professor me chamava pelo nome, mas fora disso os meus amigos sempre me chamaram Chakall.

CRESCESTE NO RESTAURANTE DA TUA MÃE. COMO FOI GERIR A ENTRADA NA ADOLESCÊNCIA COM A COZINHA?

Foi complicado. Queria sair com raparigas e era horrível, cheirava a fritos. A minha mãe tinha um refeitório industrial, onde comiam 400 pessoas todos os dias, uma máquina de fabricar comida, de segunda a segunda. Eu trabalhava lá e, aos domingos, que iam 100 pessoas, eu ia com o meu irmão e fazíamos a comida, só nós os dois. Era tipo uma brincadeira, era tranquilo. 

Mas era um problema o cheiro da comida, era horrível porque era impossível, ficava com o cheiro na roupa e no cabelo. Sempre tive um olfacto apurado e sentia o cheiro. Houve uma altura que odiava a cozinha, era anti-romântico, anti-glamour.  

TAMBÉM TENS UM ESPAÇO DE SUCESSO EM BERLIM, JÁ LANÇASTE LÁ LIVROS E APRESENTAS PROGRAMAS E WORKSHOPS. COMO É QUE CONSEGUISTE ENTRAR NESSE MERCADO?

A minha ex-mulher é alemã. Tudo começou porque nós viemos para Portugal e ela disse-me “Tu tens sucesso aqui porque o país é pequenino.” Foi aí que decidi dedicar-me. Aprendi a falar alemão primeiro, depois replicar lá o que faço aqui, e tive sorte, porque o primeiro livro que publiquei em Portugal, ganhou o prémio de melhor livro de cozinha. Um prémio tipo Óscar em Londres. Conheci uma pessoa alemã, que me indicou outraque tinha o programa de cozinha mais visto na televisão alemã, e entrei logo. Falei com o produtor e ele disse “se falares um pouco melhor alemão, queremos convidar-te, pois é um pouco diferente do que temos, são cinco chefs sempre, em prime-time”. Seis meses depois voltei e era o programa onde todos os chefs queriam estar.

CONSEGUES DECIFRAR O MAGNETISMO QUE OS MEDIA SENTEM CONTIGO? 

Acho que o facto de ter estado do outro lado me ajuda muito. Ter trabalhado em comunicação social ajuda-me a ter uma posição relaxada. Um cozinheiro pensa que o foco de tudo é a cozinha, mas não é. “It´s the singer, not the song”, como dizia Mick Jagger. Por exemplo, tenho um programa na China a que assistem mais de 300 milhões de pessoas. Podia achar que sou uma vedeta, mas acho isso uma estupidez. Eu acho que tem que ver com a educação que tivemos, o que fomos aprendendo e acho que viajar é a melhor universidade do mundo. Viajar com os olhos abertos é como se viaja realmente. Nesta viagem a África, antes de ser famoso, percebi o que é realmente importante. A maior parte das coisas pareciam uma estupidez, já estive com uma Kalashnikov apontada e já vi como outras pessoas sofriam. Eu tenho a sorte que cozinho, podia ser famoso não cozinhando. Às vezes acho que sou mais um entertainer, o cozinheiro já ficou longe. 

HÁ ALGUMA FÓRMULA PARA FUNCIONARES TÃO BEM EM DIVERSOS CONTINENTES, COM PROGRAMAS DE TV DESDE A AMÉRICA LATINA ATÉ À CHINA?

Eu sou curioso e gosto de experimentar. Fui à América Latina, fiz o programa e ganhava muito menos dinheiro. Para mim é muito interessante, conhecer as culturas. Adorei a República Dominicana. Tem pessoas fantásticas e ontem ligaram-me para fazer uma segunda série. Foi uma experiência inacreditável. E na China, quando o produtor me disse “queremos três chefs diferentes para fazer o programa”, parecia um sonho. O programa teve muito sucesso. Se forem programas mais locais, é muito complicado. Não é fácil transmitir humor, transmitir uma personalidade numa outra língua.

FAZES EM INGLÊS?

Faço em inglês e depois é dobrado em mandarim ou é legendado. Aparentemente, a minha personagem teve muito sucesso, e pediram-me para fazer programas sozinho. O primeiro foi com o cão e uma mota, só que o cão não era meu. Na segunda temporada foi sem cão, só com a mota. Ao fim da segunda temporada, a mota era chinesa e estava destruída; portanto na terceira temporada, já comecei a viajar sozinho, mas é um castigo – andar com uma mota, carregar, tirar do camião. A partir daí, comecei a fazer o programa só a viajar. Na República Dominicana foi a viajar também com a mota, com um cão que se chama Mangu, correu muito bem, o cão era muito meu amigo e gostava de mim. O outro era um cão chinês. 

EM PORTUGAL, A CULINÁRIA FINALMENTE CONQUISTOU O PRIME-TIME NAS PRINCIPAIS ESTAÇÕES TELEVISIVAS. ACHAS QUE CONTRIBUIU PARA ENCORAJAR O CRESCENTE NÚMERO DE CHEFS NACIONAIS?

Antigamente ser jornalista era uma profissão glamourosa, então eu queria ser jornalista. Não sou cozinheiro para ter fama ou dinheiro. Acho que muitos cozinheiros podem ser cantores, ou guitarritas, ou jornalistas. Muitas vezes o resultado é que as pessoas querem ter um trabalho e não a paixão pelo que fazem realmente. Como em qualquer outra profissão, há lugar para 50 e depois o resto é a picar cebola e alho. Não quer dizer que isso seja mau, mas depende do que pretendem as pessoas. Se queres ser um cozinheiro e chegar a estrelas Michelin, tens que ter três câmeras. Tens que estar concentrado no que fazes e fechar-te na cozinha. Se queres fazer mais, tens que estar relaxado, porque cada sector é muito diferente.

Desde as aventuras com estrelas musicais, ao sonho de ser treinador de futebol - lê a entrevista completa na edição de Maio. Já nas bancas.


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