Bem-vindos ao Verão

Por Hugo Vinagre e Rafaela Andrade

08 de July de 2018

O hip-hop voltou a invadir a Ericeira e conquistar o público que esgotou mais um Sumol Summer Fest.

O palco principal do festival foi inaugurado por April Ivy, que aproveitou a oportunidade para apresentar Frida, novo single com a participação de Conductor, que tinha lançado nesse mesmo dia. Mas a festa começou verdadeiramente com os Wet Bed Gang a darem o pontapé de saída do hip-hop no festival que em boa hora decidiu abraçar este género e tem visto a aposta recompensada pela adesão do público, que continua maioritariamente muito jovem. Recebido com o calor que merece e cada vez mais confiante com a qualidade do que vem fazendo nos palcos deste país, o colectivo está em alta e não deixa créditos por mãos alheias, numa actuação enérgica que aqueceu toda aquela multidão que fez por chegar cedo e não perder a oportunidade de os ver dar espectáculo.

Seguiu-se outro dos momentos da noite, que depois d’A História do Hip-hop Tuga na edição anterior, pretendia voltar a dar um momento único e por isso especial a quem se deslocou à Ericeira. Desta vez tratava-se do Sumol Summer Clash, uma batalha amigável entre Portugal e Brasil, com quatro Mcs e um DJ de cada lado: Gson, Holly Hood, Sir Scratch, Papillon e DJ Big pela equipa nacional; Rashid, Drik Barbosa, Kamau, Rincon Sapiência e DJ Nyack pela selecção brasileira. Portugal entrou bem, com Sir Scratch, o mais veterano e logo com um tema ainda inédito, mas depois não arriscou muito, dando à multidão Cobras e Ratazanas e tudo o resto que ela queria ouvir. Já os brasileiros subiram ao palco a contar com o que iriam receber, uma recepção amistosa mas não muito efusiva, pois seriam pouco mais que desconhecidos para a maioria dos que estavam perante eles, sem imaginar que se tratavam de grandes talentos que aos poucos foram conquistando a plateia, finalizando com um show de mestre de DJ Nyack. Coube a Portugal e DJ Big encerrar as hostilidades e apesar da boa disposição, picardias e passagem por clássicos do rap nacional, não deu para golear os brasileiros. Ficou-se por um simpático empate técnico, uma actuação final em conjunto e a vontade de que os nossos irmãos visitem por mais vezes outros palcos em nome próprio.

Aí ainda estávamos todos longe de esperar o que se seguiria. Quando o normal seria recebermos uma actuação de French Montana em que toda a gente aplaudiria os seus dois singles mais populares e tentaria apreciar o resto, o que recebemos foi uma noite na discoteca, em que French parecia um daqueles MCs que vão tentando cantar por cima dos sucessos que o DJ vai largando. Um alinhamento cheio de refrões de outros, que até por Smells Like Teen Spirit passou, foi a receita que ele trouxe para fazer a festa. Quando uma hora depois cantou uma das suas e voaram papelinhos, abriu uma garrafa e deixou-nos a abanar a cabeça sem perceber bem o que tinha acabado de ali acontecer. Ok, a multidão é jovem, quer divertir-se, mas vai crescer e continuar a ir a festivais onde provavelmente irá encontrar hip-hop, cada vez mais em crescimento no que toca aos gostos e aos alinhamentos. Mas actuações destas são dispensáveis e envergonhariam certamente aqueles que deram concertos a sério nessa noite e na noite seguinte.

O segundo dia abriu com Pongo, nova identidade da artista que ficou eternizada pela sua participação em Kalemba (Wegue Wegue), de Buraka Som Sistema e se prepara para lançar um EP a solo, a seguir com atenção mais para final do ano. E quando chega Piruka é deixar a coisa correr e aproveitar o momento. O espectáculo está rodado e isto cada vez tem menos segredos para ele, até porque já há algum tempo terá percebido que apesar de ter subido muito tem conseguido o mais difícil, manter-se por lá, longe de ser uma moda. E não é que ele precisasse, mas isso traz confiança e vontade de conhecer o futuro da sua carreira.

Outra belo espectáculo foi o de Vic Mensa, que chegou de Chicago com uma atitude bastante rock star, que incluiu um guitarrista em palco e trepar à estrutura do mesmo, deixando-se cair de uma altura já considerável, algo cada vez menos visto numa era em que o alinhamento está sincronizado com os ecrãs e as actuações de uma digressão pouco variam além da cidade. Prejudicado por problemas técnicos que atrasaram o início da actuação e se voltaram a manifestar aqui e ali, soube ter o público na mão e deu um show bastante convincente, que ainda precisa de ser afinado aqui e ali, o que é natural dado andar a promover o seu primeiro longa-duração, The Autobiography, entre mensagens de paz em relação aos emigrantes e de raiva contra o comportamento das forças policiais.

Seguia-se Joey Bada$$ e logo se percebeu pela recepção que o alinhamento estava bem feito e era por este homem que a maioria esperava. Num cenário cuidado e elegante na sua sobriedade, com a bandeira presente na capa de All-Amerikkkan Bada$$ a encher vários ecrãs, o rapper nascido em Brooklyn há 23 anos não precisou de grandes movimentos corporais para dominar o público e focar todos os olhos em si. Eles já estavam nas suas mãos mesmo antes de lá chegarem, reagiam euforicamente às primeiras batidas de cada novo tema e cantavam mesmo sem que tal lhes fosse pedido. Um artista ainda desconhecido de muitos, mas que ali fez totalmente sentido e se tudo correr como é suposto só irá continuar a crescer nos anos que se seguem.

A festa para muitos terminou aí, mas quem quis (e foram muitos), ainda ficou a saltar com Jillionaire e as suas técnicas retro de gosto duvidoso ao comando de uma mesa de mistura. Fechando os olhos a algumas limitações provocadas pelo próprio espaço, o Sumol Summer Fest encontrou definitivamente o seu equilíbrio e tem tudo para continuar a deixar um sorriso em quem veio para a Ericeira à procura de uma experiência diferente a pouca distância da capital.

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