Álvaro Covões

Por Playboy Portugal

11 de July de 2018

ENTREVISTA HUGO VINAGRE ERAFAELA ANDRADE

FOTOGRAFIA BERNARDO COELHO


Pertencendo à família que é dona do Coliseu de Lisboa era inevitável que um dia terias de estar ligado a este meio?

Não. Ainda faço parte de uma geração em que a área de entretenimento era considerada boémia. Também fui educado para ser outra coisa, só que está no sangue. Estudei gestão de empresas e fui parar a uma sala de mercados nos anos 90, portanto ainda fui um yuppie.


Mas não era isso que querias fazer.

Não. Queria sobretudo estar ligado aos espectáculos e à sua quarta geração. Mas quando fui para gestão de empresas, lembro-me de o meu pai me dizer “pelo menos economia”, porque na altura era um curso novo; hoje é o curso da moda. De facto, abriu muito os horizontes e deu para olhar para o mundo da cultura como uma das indústrias com maior potencial de negócio. 


Que experiências te inspiraram mais no crescimento no Coliseu?

Tive o privilégio de nascer num teatro onde acontecia tudo. Portanto, gosto de todo o tipo de espectáculos de hoje. Deu-me uma abertura e também me ensinou que se nós educarmos os nossos jovens a assistirem de uma forma positiva, obviamente que criamos hábitos que não existem em Portugal. É um paradigma: sempre que se festeja o 25 de Abril, assistimos nas televisões e nos jornais mais políticos que o país era um atraso de vida em 74, e de facto houve uma evolução extraordinária; no entanto, a Comissão Europeia publicou em 2013 o último trabalho sobre hábitos culturais na Europa, e nós somos os últimos em 27 países; somos os últimos na leitura de livros, concertos, espectáculos de ópera, ballet e teatro. Em 2016, venderam-se 4 milhões e 900 mil bilhetes para espetáculos ao vivo, o que significa que cada português compra 0,48 bilhetes por ano, ou seja, só vai ver um espectáculo de 2 em 2 anos. Há muitos portugueses que só quando fazem 25 anos de casados é que vão ao teatro. Isto é uma tragédia. 


Achas que o IVA do preço dos bilhetes está relacionado?

O problema não é o IVA. O cinema vende 3 vezes mais do que que os espetáculos ao vivo. Portanto, se o preço médio dos bilhetes é mais baixo, a primeira conclusão é o preço. Este país é assustador. Temos o 5º IVA da cultura mais alto da Europa. Na Noruega é zero.


Os subsídios para a cultura são uma coisa positiva?

Claro que é importante subsidiar a criação artística, mas se penalizamos a usufruição, então deve ser o Ministério do Trabalho a financiar. Criação artística significa dar a possibilidade aos portugueses de assistirem. Mas eles não assistem. Aliás, se ninguém fala em públicos é porque não existem. Para justificar um apoio, tinha que se dizer “cada vez tenho mais público, mas o dinheiro ainda não chega”. Há 10 milhões e 300 mil portugueses que têm rendas e despesas para pagar, por isso não pode ser um motivo. É importante apoiar a criação? É! Mas a forma como está é um subsídio de emprego.


A ruptura com a Música no Coração terá acontecido principalmente por divergências na visão do futuro. Que visão era essa? O caminho percorrido nestes últimos 11 anos foi ao encontro dela?

Sim, houve uma continuidade. No final de 1991 foi quando decidi ter uma estrutura empresarial para os espetáculos, fundámos a Música no Coração. Nós éramos sócios a 50/50, essas sociedades têm um problema, para o “não” basta um voto, para o “sim” é preciso dois. Basicamente tínhamos perspectivas diferentes sobre o negócio. Quando decidimos, cada um seguiu o seu caminho, não foi nenhuma zanga. Continuei o caminho, sempre acreditei na criação de públicos, tentar alargar as áreas de actuação, daí termos feito as exposições da Joana Vasconcelos. Tenho que procurar consumidores, foi o que aprendi quando estudei. Se estou no Mercado Único Europeu, não posso olhar para um mercado só como Portugal. Nós vendemos milhares de bilhetes no estrangeiro. É uma forma de irmos buscar mais consumidores, mais mercado, conseguir fazer mais espetáculos, ter público e também ajudar a economia. As pessoas primeiro fazem face às despesas fundamentais (casa, comida, roupa, estudos) e depois com o que sobra, compramos a Playboy, vamos a um concerto, a um restaurante, uma viagem, portanto andamos todos a dispor do dinheiro que sobra. Todos temos interesse em que a economia e o poder de compra dos portugueses aumente para podermos vender mais.


Ao fim de uma década e com o sucesso que o Alive tem, como é que não se cai na tentação de achar que já está tudo feito?

Quem pensa assim é ultrapassado pela concorrência. Temos de estar sempre à procura, sempre a tentar agradar aos nossos consumidores, o que não é fácil. O consumidor espera sempre outras coisas. Vamos atrás das temáticas que sejam mais interessantes, não desistimos. Não procuramos crescer porque achamos que estamos no modelo certo. Nós somos dos primeiros festivais dos grandes a esgotar pela terceira vez consecutiva. Num país de 10 milhões de pessoas é um milagre. É um trabalho muito árduo, só manter o sucesso a nível de vendas. Estamos sempre à procura de mais. Às vezes, o dinheiro não chega.


Em 2008, conseguiu-se um cartaz de luxo com os gigantes Bob Dylan, Neil Young e um concerto de Rage Against The Machine que 10 anos depois ainda ecoa. Como é que numa fase tão prematura da empresa se consegue uma façanha destas e ainda se repete?

Eu estou na origem dos festivais em Portugal, portanto é tudo uma continuidade. No fundo era um projecto que já estava na cabeça, depois de muitos anos de experiência deu para perceber que fazer um festival só para portugueses não chegava, era preciso que atraísse o público estrangeiro, para conseguir vender tudo, e conseguimos. É engraçado, agora estamos num ciclo diferente, em que os portugueses compram primeiro e a tendência é ter menos estrangeiros. E também tentamos posicionar, porque para conseguir um bom cartaz temos que ter um modelo internacional. Foi um projecto desenvolvido para estar no campeonato dos melhores festivais. Hoje os artistas querem estar no festival, foi um trabalho arrojado, mas acho que conseguimos. As pessoas não se apercebem, mas no meio da indústria todos querem vir ao NOS Alive, do mundo inteiro.


Quantos festivais europeus fazem parte dessa primeira divisão que disputa os principais artistas que andam na estrada? 

Basta olhar para as tournées e começar a ver “Os Pearl Jam onde é que vão?”, “E Arctic Monkeys?” e é somar. Uns são mais rock, outros mais alternativos. Os espanhóis estavam a ser ultrapassados pelos portugueses e eles levam o turismo muito a sério, tanto que há um Ministério. Isto não é uma piada, é uma constatação. Acho inacreditável em Portugal o turismo não ter um Ministério. Na minha opinião, devia ser o Ministério da Cultura e Turismo, porque as áreas cruzam-se. Quem vem a um festival depois acaba por voltar de férias. Os espanhóis perceberam isso e já nos estão a dar 20 a 0. Não é que um festival não tenha apoios, estes programas que o Turismo de Portugal fez dão um apoio de 50% às campanhas no exterior. São campanhas de promoção do destino Portugal. Hoje o NOS Alive é capaz de ser o único produto português que faz publicidade no metro de Londres. É giro ver a malta a colocar nas redes sociais e os artistas que ainda não estão anunciados a reclamar que não estão lá.


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